Por Maria Eugênia de Menezes [jornalista e crítica]
Entre a sala de aula e o palco profissional existe um território delicado, um tempo de amadurecimento. É aí que muitos talentos se perdem. Não por falta de técnica, mas por ausência de estrutura, orientação e oportunidades para transformar aprendizado em experiência artística continuada. As companhias jovens de dança surgem justamente nesse intervalo: como espaços de passagem, mas também de afirmação. No Brasil, e em especial no estado de São Paulo, esses projetos assumem formatos variados, com modelos públicos municipais e estaduais desenhando caminhos distintos para sustentar a profissionalização de novos bailarinos.
Coreógrafo renomado, Alex Soares construiu uma carreira que perpassa criações para companhias brasileiras, como Balé Teatro Guaíra, Balé Teatro Castro Alves, Cia Sesc de Dança, e internacionais, entre elas Noord Nederlandse Dans, na Holanda, e a norte-americana Hubbard Street Dance Chicago. Quem vê a sólida trajetória talvez não imagine que ela começou quando um jovem ainda inexperiente e com muitas inseguranças entrou para o Balé da Cidade de São Paulo. “Quando iniciei minha carreira como bailarino, entrei ainda muito novo no Balé da Cidade e sentia muita falta de um núcleo jovem que proporcionasse mais oportunidades de palco e amadurecimento”, conta Soares, explicando que foi dessa percepção pessoal, revisitando essa experiência, que surgiram as bases para o trabalho atualmente desenvolvido pela Companhia Jovem de Dança de Jundiaí, onde ocupa o cargo de diretor artístico. “A iniciativa surgiu da percepção de que existem poucas companhias com esse perfil no Brasil.”
A antiga Companhia Municipal de Dança de Jundiaí foi criada em 2011, mas ficou inativa entre os anos de 2016 e 2018. Foi só depois desse hiato, em outubro de 2018, que surgiu a atual Companhia Jovem. À frente da iniciativa, Alex Soares decidiu transformá-la em uma companhia de formação, na qual os bailarinos ingressam ainda sem grande bagagem ou experiência profissional e passam a ter contato direto com a rotina do trabalho artístico. Com elenco formado por bailarinos entre 18 e 26 anos, o grupo assume como missão central fomentar a profissionalização dos jovens artistas, oferecendo experiências que ultrapassam o treinamento técnico e se aproximam do cotidiano de uma companhia profissional.
O trabalho desenvolvido combina diferentes frentes. Os bailarinos, que permanecem, em média, de dois a três anos no grupo, passam por processos de criações inéditas conduzidos pela própria direção, além de remontagens de obras já coreografadas para outras companhias. A abertura para coreógrafos convidados também é um eixo estruturante do projeto. Artistas como Henrique Rodovalho já integraram o repertório da companhia, e recentemente foi lançado um edital para selecionar novos criadores.
A seleção de bailarinos ocorre, em média, a cada dois anos e revela a preocupação em avaliar o artista de maneira integral. O processo inclui análise documental, aulas de balé clássico e técnicas contemporâneas, execução de trechos do repertório, improvisação e entrevista. Nenhuma etapa é eliminatória isoladamente. O objetivo é observar como o candidato transita entre linguagens, sua capacidade de improvisação e, sobretudo, sua personalidade artística. Mais do que excelência em uma única técnica, busca-se versatilidade e presença cênica. Para os integrantes a carga horária é de 24 horas semanais e os valores pagos variam: profissionais recebem R$ 2.900 e bolsistas, o valor de 1 salário-mínimo.
Além da produção artística, a companhia investe na construção de redes de circulação. Um projeto-piloto de intercâmbio entre companhias públicas do estado de São Paulo tem promovido apresentações conjuntas em diferentes cidades. Inspirada no modelo adotado pela São Paulo Companhia de Dança, que tradicionalmente divide a programação com a Companhia Jovem de Jundiaí quando se apresenta na cidade, a iniciativa propõe trocas recíprocas: uma companhia visita a outra, compartilha o palco e dialoga com o público local. A intenção é somar forças e fortalecer um circuito estadual de dança, criando polos regionais capazes de sustentar trajetórias profissionais fora da capital. “A cidade de Jundiaí possui muitas escolas de dança e forte participação em festivais competitivos. Nesse cenário, a Companhia Jovem funciona como uma extensão dessa formação, possibilitando que o bailarino dê continuidade profissional à sua trajetória e compreenda essa atividade como um primeiro emprego remunerado”, considera Alex Soares.
O pagamento de uma bolsa de estudos e o fornecimento de todo o material necessário para dançar, como meia-calça, collant, sapatilhas e ponteiras, são as bases do trabalho na Companhia Estável de Dança de Bauru. Atualmente, o grupo atua com 16 bailarinos bolsistas, com idades entre 14 e 21 anos, que recebem R$ 705 mensais. Para entrar, é necessário comprovar, no mínimo, seis anos de estudo de balé clássico. Porém, uma vez na companhia, os jovens passam a transitar do clássico ao contemporâneo, cumprem uma carga horária de 20 horas semanais de aulas e ensaios, além de serem avaliados em audições a cada dois anos. “No interior, muitos talentos estudam apenas duas ou três horas por semana em academias. Com uma carga horária de 20 horas semanais, nossos bailarinos passam a ter condições reais de participar de audições para companhias profissionais e de obter o registro profissional”, aponta Sivaldo Camargo, diretor artístico da Companhia.
Vinculada à Secretaria Municipal de Cultura, a Companhia Estável de Dança de Bauru opera como corpo artístico formativo com foco na experiência de repertório e circulação regional. Com mais de uma década de atividade, acumula dezenas de coreografias e centenas de apresentações, atingindo público expressivo — já foi vista por mais de 30 mil espectadores em sua trajetória. “No começo foi difícil”, recorda o diretor. “Ninguém conhecia a Companhia. Já viajamos 200 quilômetros para nos apresentar para 20 pessoas. No ano seguinte voltamos, havia 60. Depois 100. Foi um trabalho de ‘formiguinha’. Hoje, após 14 anos de caminhada, temos público consolidado na região.”
Para esse percurso de sucesso, Camargo acredita que as parcerias foram essenciais. “Mantemos parceria com a São Paulo Companhia de Dança, sob direção artística de Inês Bogéa, com apresentações conjuntas anuais. Também temos intercâmbio com a Companhia Jovem de Jundiaí, dirigida por Alex Soares; com Camila Puppa, da Cia. Estável de Dança de Piracicaba, com Ana Botafogo; e com grupos de São José dos Campos, entre outros. Essa articulação tem sido essencial para nossa permanência e crescimento. Criamos uma rede de companhias públicas que se fortalecem mutuamente.”
Mesmo nas grandes cidades, nem sempre existe um percurso continuado entre a formação e a inserção profissional. “No Brasil, muitos jovens concluem processos formativos importantes, mas ainda precisam de um tempo de prática continuada – ensaio, criação, palco, convivência em grupo – para se consolidarem como artistas”, considera Inês Bogéa, diretora artística e educacional da São Paulo Companhia de Dança e da São Paulo Escola de Dança.
Foi a partir da percepção dessa lacuna que surgiu a ideia de se criar a recém-lançada São Paulo Companhia Jovem de Dança. “Existe um intervalo entre aprender e pertencer ao campo profissional que nem sempre encontra sustentação institucional”, diz Inês, argumentando que a Companhia Jovem nasce justamente para sustentar esse tempo. “O curso de especialização que acompanha a Companhia propõe uma formação imersiva, em que aprender e trabalhar em dança acontecem juntos: aulas, ensaios e apresentações fazem parte do mesmo percurso.”
Pensada como uma continuidade natural do trabalho já desenvolvido pela São Paulo Escola de Dança, a nova companhia integra ainda mais as etapas de formação técnica e vivência artística. Com duração de três anos, certificações intermediárias (um, dois e três anos) e carga horária total de 1.200 horas por ano, o curso conta com bolsa de estudos no valor mensal de R$ 1.800 para cada participante. A nova companhia jovem é formada por 20 bailarinos, com idades entre 16 e 25 anos, oriundos de diferentes estados, como Paraná, Alagoas, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e São Paulo, que tem uma dedicação de 30 horas semanais, cinco dia por semana, das 15h30 às 21h30.
A proposta é que os jovens vivenciem o cotidiano de uma companhia, participando de montagens coreográficas, compreendendo os processos de direção, produção, figurino, iluminação e comunicação, e desenvolvendo autonomia artística e pensamento crítico. “O artista que buscamos formar é o intérprete-criador”, pontua Inês. “Alguém com domínio técnico, presença cênica e capacidade de colaboração, consciente de que a dança é linguagem, trabalho coletivo e campo profissional.”
PROFISSIONALIZAÇÃO – Se as companhias jovens são espaços de aprofundamento do conhecimento e preparo para a prática da dança, o horizonte de muitos de seus integrantes é chegar a pertencer a um grupo profissional. “A maioria dos nossos integrantes, quando deixa a companhia, continua na carreira, geralmente indo para outras companhias com melhores condições materiais e salariais”, conta Felipe Chepkassoff Ribeiro, coreógrafo residente do Balé da Cidade de Taubaté. “Isso muito nos orgulha e nos faz crer que estamos desenvolvendo um bom trabalho ao longo dos anos.”
Concebido em 2006 e mantido pela Prefeitura, o Balé da Cidade de Taubaté busca viabilizar campo de trabalho para profissionais de dança da cidade e da região, fomentando o aprimoramento técnico e artístico de seus integrantes, usando a dança como instrumento de cidadania, educação e cultura. Seus integrantes são bailarinos com mais de 18 anos que recebem R$ 1.500 por uma jornada semanal de 40 horas, divididas entre ensaios, apresentações e viagens. “Nossa participação na primeira Jornada Paulista de Dança, organizada pela São Paulo Escola de Dança, em 2024, foi de grande importância para nos reconhecermos como um grupo atuante no cenário da dança. Isso nos deu um impulso vital para continuarmos o nosso trabalho.
Foi uma semana intensa, em que tivemos contato direto com grandes profissionais e com outras companhias do estado que vivem e produzem com as mesmas dificuldades. Esse intercâmbio de experiências nos trouxe um sentimento de valorização e relevância daquilo que fazemos”, aponta Chepkassoff.
Manter um trabalho continuado em dança fora do eixo das grandes capitais do Sudeste não é um desafio trivial. Mas vem de Goiânia um dos polos formativos mais consolidados do país na preparação de jovens bailarinos para o circuito profissional: a Escola do Futuro em Artes Basileu França e sua Companhia Jovem. Vinculada ao governo estadual, a instituição alcança um equilíbrio raro entre formação pedagógica e exigência artística de alto rendimento, o que resulta na intensa participação em festivais nacionais e internacionais. “Esse equilíbrio nasce da compreensão de que o cuidado e a excelência caminham juntos, e isso é construído diariamente. A Cia Jovem Basileu França nasce dentro de uma escola pública com a missão clara de formar artistas completos, técnica e humanamente. A formação técnica é muito séria, consistente e exigente: trabalhamos com rigor, disciplina e atenção aos detalhes do balé e da dança como linguagem artística”, explica Simone Malta, diretora da Companhia. No grupo, criado em 2007, os bailarinos possuem idades entre 15 e 25 anos, cumprem uma carga horária de treinos de 30 horas semanais e recebem uma bolsa de R$ 1.200.
Até 2025, a Basileu acumulava mais de 50 prêmios em competições de dança de alto nível mundial. O reconhecimento em competições como o Festival de Dança de Joinville, o Prix de Lausanne e o Youth America Grand Prix demonstra não apenas a excelência do trabalho realizado, como também abriu portas para seus alunos alçarem voos mais altos. Foi ao se destacarem em um festival internacional que três jovens alunos conquistaram uma chance em companhias europeias. João Vítor Santana assinou contrato com a companhia internacional German National Youth Ballet, em Hamburgo, Alemanha. Já Vítor Augusto Vaz e Ana Luísa Negrão conquistaram bolsas para o The Royal Ballet School, um dos maiores centros mundiais de treinamento de balé clássico, em Londres, entre outros.
Para Simone, esses reconhecimentos são resultado de um trabalho técnico consistente aliado a uma formação artística profunda. “Eles ampliam o horizonte profissional, trazendo visibilidade, oportunidades de bolsas de estudo, intercâmbios e contato com grandes escolas e companhias. Mas, para além das oportunidades concretas, há um impacto interno muito forte: o jovem passa a se enxergar como artista, entende que sua técnica, sua interpretação e sua identidade têm valor no cenário nacional e internacional.”
Uma recente experiência internacional transformou a perspectiva dos bailarinos da Cia. Jovem de Dança de São José dos Campos. Em 2024, o grupo marcou presença no Festival Fringe de Edimburgo, na Escócia, o maior festival de artes cênicas do mundo. As críticas positivas acabaram abrindo espaço para a possibilidades de colaboração com parceiros de outros países. Uma criação com o italiano Michele Fuscaldo, um intercâmbio com a companhia Shun Dengs, de Taiwan, além da possibilidade de se apresentar em um festival na China. “Já recebemos Michele no Brasil e estamos buscando viabilizar o retorno dele para consolidar o trabalho”, relata Lili de Grammont, coreógrafa e diretora artística do grupo. “A participação no Fringe foi extraordinária. A companhia nunca havia saído do país e, para muitos bailarinos, foi a primeira viagem internacional – alguns nunca tinham sequer viajado de avião. Foram 20 apresentações em um mês, de quarta a domingo, durante quatro semanas. Repetir o repertório com essa intensidade trouxe grande amadurecimento cênico.”
Criada em 2010, a Cia. Jovem de Dança de São José dos Campos começa a se estruturar para retomar seu trabalho pedagógico, proporcionando uma formação sistemática. “Desde que assumi a companhia o único núcleo ativo é o profissional. No entanto, no próximo contrato com a Fundação, o modelo pode ser modificado”, comenta a diretora. Atualmente, esse núcleo profissional conta com 12 bailarinos, que precisam ser maiores de 18 anos, e recebem uma bolsa de R$ 1.300 para trabalhar diariamente, das 8h às 13h.
Atualmente, a cidade de Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo, conta com duas companhias públicas de dança: o Balé Jovem, criado em 2008, e o Corpo de Baile Municipal, que é uma companhia mais experiente. “São dois projetos que incentivam e motivam os bailarinos, criando perspectivas de continuidade”, aponta Júnior Silva, coreógrafo e diretor responsável pelo Balé Jovem. A companhia integra a estrutura da Fundação Educacional e Cultural de Caraguatatuba e funciona como instância técnica de formação e concessão de bolsas: os bailarinos possuem entre 16 e 29 anos e recebem uma bolsa-auxílio de R$ 250. A proposta concentra-se na preparação de jovens bailarinos por meio de treino sistemático e experiência de palco, o que resulta em uma carga horária de 11 horas semanais. “Há uma pressão por resultados rápidos”, acredita Silva. “Quando as meninas e meninos chegam aos 17 ou 18 anos e concluem o ensino regular, muitos pais incentivam ou cobram que busquem uma faculdade ou um trabalho com renda fixa. Ainda existe a ideia de que, aos 18 anos, o bailarino deveria estar no auge da carreira.
Entretanto, a vida útil de um bailarino pode se estender até os 40 anos. Tudo faz parte de um processo gradual e de construção progressiva. É essa perspectiva que buscamos oferecer: formação sólida, experiências diversas e horizontes ampliados.”
Se cada uma dessas iniciativas diversas responde, à sua maneira, a uma lacuna existente entre formação e inserção profissional, o que se desenha é um mapa mais amplo de fortalecimento da dança no Brasil. Ao apostar em continuidade, circulação e muita parceria e articulação em rede, as companhias jovens se colocam como laboratórios de futuro: não querem apenas preparar intérpretes para o mercado, mas ajudar a estruturar o próprio campo em que esses novos artistas irão atuar.
Clique para saber mais:
Companhia Jovem de Dança de Jundiaí
Companhia Estável de Dança de Bauru
Balé da Cidade de Taubaté
São Paulo Escola de Dança
Escola do Futuro Basileu França
Cia. Jovem de Dança de São José dos Campos
Balé Jovem de Caraguatatuba
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