Com direção de André Heller-Lopes, produção aposta em teatralidade e emoção em montagem visualmente opulenta da ópera de Gounod
TENERIFE - Em uma encenação extremamente atraente e de beleza quase onírica – que pode mesmo ser descrita como opulenta –, o diretor brasileiro André Heller-Lopes apresentou na Ópera de Tenerife uma nova produção de Romeu e Julieta, de Charles Gounod. Heller-Lopes, cuja atuação se concentra sobretudo no Brasil e na América Latina, desenvolve intensa atividade também na Europa. Esta foi sua segunda produção no Auditório Adán Martín, após o sucesso de Rusalka na temporada passada.
A regência coube a José Luis Gómez, à frente da Orquestra Sinfônica de Tenerife, em excelente forma. O típico refinamento francês da música de Gounod foi trabalhado com convicção e emoção, em perfeita sintonia com a ação cênica.
Em parceria com o cenógrafo Renato Theobaldo, colaborador de longa data, o Heller-Lopes recriou no palco as galerias do antigo Théâtre-Lyrique de Paris – onde a obra estreou em 1867. O célebre balcão também ganha destaque. A encenação assume, assim, a forma de um teatro dentro do teatro, evocando o esplendor de uma sala histórica com sua estética eclética dominada por tons de vermelho escuro e dourado.
Ao mesmo tempo, há andaimes que sustentam o cenário, além de cortinas de proteção, que sugerem obras em andamento (talvez reformas), instabilidade e perigo. Todo o conjunto cênico parece suspenso em um delicado equilíbrio, refletindo a tensão entre o ódio feroz das famílias Montecchio e Capuleto e o amor intenso de Romeu e Julieta, que, apesar de sua força, acaba sucumbindo.
O cenário e a espetacular – ainda que algo excessivamente colorida – festa de aniversário de Julieta, no início, insinuam uma possível reconciliação entre as famílias. O diretor, porém, deixa essa leitura em aberto, convidando o público a construir suas próprias associações a partir de uma direção de atores marcada por forte carga emocional. O luxo visual pode ser apenas aparente, pois há uma fragilidade subjacente que se revela, por exemplo, na transição para a cena do balcão, banhada em azul escuro, onde os protagonistas se aproximam. O tema da ópera, aliás, permanece atual em diversos países, inclusive no Brasil.
Os figurinos contemporâneos de Sofia di Nunzio situam a ação no presente, facilitando a identificação do público jovem. Romeu surge com jaqueta de couro, Julieta aparece em determinado momento com um trench coat, escolhas que se integram de maneira coerente ao conjunto.
Destaca-se também o trabalho de iluminação de Gonzalo Córdova, colaborador frequente de Heller-Lopes, que mais uma vez se sobressai por sua precisão e capacidade de intensificar a emoção cênica.
No plano vocal, o resultado foi, em geral, bem positivo. Infelizmente, Airam Hernández, como Romeu, enfrentou certa indisposição e não esteve em sua melhor forma, mas ainda assim apresentou bom desempenho e atuação convincente. A soprano Sofía Esparza, espanhola de Pamplona, interpretou Julieta com timbre lírico luminoso, capaz também de momentos de maior intensidade, além de adequação cênica ideal.
Simón Orfila destacou-se como Frei Lourenço, com voz expressiva e presença marcante, enquanto Fernando Campero deu vida a um Mercúcio vibrante. Anton Keremidtchiev compôs um Conde Capuleto seguro e bem cantado.
Os papéis secundários também foram bem defendidos, com destaque para Christina Campsall (Stéphano), Belén Elvira (Gertrude), Mario Bahg (Tybalt), Manuel Gómez Ruiz (Benvolio), Guillermo Montecino (Grégorio), Romanas Kudriašovas (Páris) e Mikhail Biryukov (Duque de Verona). O Coro Titular da Ópera de Tenerife-Intermezzo, preparado por Miguel Ángel Arqued, cantou com potência e clareza, contando ainda com a participação coreográfica do Centro Internacional de Dança de Tenerife.
O resultado foi um grande sucesso não apenas para a equipe artística e os cantores, mas também para a direção do teatro, liderada por José Luis Rivero e Daniel Cerezo. O Auditório Tenerife, com mais de 1.500 lugares, esteve lotado na estreia, e as apresentações seguintes já se aproximavam da lotação máxima.
Embora Romeu e Julieta não seja propriamente um título de grande apelo comercial, impressiona o nível da produção operística nas Ilhas Canárias, região frequentemente associada ao turismo, mas que revela aqui uma vida cultural vibrante. O público mostra-se atento e conhecedor, muitas vezes mais participativo do que em centros tradicionais da Europa.
Fica, assim, a recomendação: amantes da ópera que visitarem Tenerife devem incluir em seu roteiro a programação da Ópera de Tenerife, no Auditório Adán Martín. O detalhado programa de temporada, aliás, rivaliza em conteúdo com o do Festival de Salzburgo. A próxima atração, no fim de abril, será O castelo do Barba Azul.
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