A liberdade de cavoucar as entranhas de nossas raízes

por João Marcos Coelho 13/04/2026

Erika Ribeiro mergulha fundo na obra de Villa-Lobos em seu novo trabalho para o selo Rocinante

A música de Villa-Lobos continua exercendo um fascínio muito peculiar, mesmo hoje, já bem entrados que estamos no século 21. E não só no público, talvez mais nos músicos brasileiros. O álbum da pianista Erika Ribeiro, Villa-Lobos, do selo Rocinante, é o fruto mais recente – e arrebatador – desta onda que já se pode classificar como tendência: a de “recriar”, “reinventar” a obra do Villa. Não, talvez seja melhor dizer que músicos atuais tendem a cavoucar as entranhas do universo musical do autor dos Choros e, a partir deste mergulho, se tornarem co-autores de suas criações.

Ia dizendo tendência. Mas esta é uma aventura nova, inaudita, que tem pouco ou nada a ver com as ilustres releituras citadas por Erika em seu texto do encarte do belíssimo LP: ela reconhece que “revisitar Villa está longe de ser uma ideia nova. Tanto Tom Jobim quanto João Carlos Assis Brasil e Egberto Gismonti (só para citar alguns de nossos grandes criadores) já levaram a outras instâncias as partituras do maestro, seja compondo, seja arranjando, seja improvisando. De certa forma, me sinto convidada pela musicalidade desses artistas para experimentar o repertório villa-lobiano como o lugar de criação e descoberta que, por natureza, ele é”.  

Mas eles não revisitam Villa. Eles revolvem suas entranhas composicionais – sobretudo o ritmo e a pesquisa de timbres. E podem ser qualificados como “co-autores” sim. Ao lado de um grupo excepcional de músicos, Erika mergulha cada vez mais fundo no que chama de sua “essência”, tecida “na incorporação de sons de diversos lugares e culturas”.  Passo seguinte: fazer do ritmo o coração desta “viagem musical”: “Movida por minha paixão pela música de Villa, nasceu uma primeira ideia: tratar o piano como um instrumento predominantemente percussivo, focando no ataque e no timbre produzido pelos martelos nas cordas. Resultou daí uma ligação mais orgânica entre o instrumento e os alicerces rítmicos da obra do compositor, que buscamos trazer à tona nos arranjos, sem jamais ferir seu intenso lirismo melódico e sua inventividade harmônica”. 

A audição provoca surpresas, encantos que permaneciam soterrados quando fruídos apenas a partir das notas no pentagrama postas por Villa. Erika e Marcelo Galter, maestro, compositor e produtor do disco fizeram um delicado trabalho que ela qualifica de “quase de escavação: o que a tradição escondeu que pode ser revelado?”

A franca e destemida atitude autoral de Erika fortaleceu-se de modo extraordinário a partir da comunhão com os demais músicos parceiros: o percussionista Reinaldo Boaventura, Ldson Galter ao contrabaixo e “enxadas” (sim, enxadas), Natalia Mitre (marimba e berimbau) e Marcelo Galter no teclado Wurlitzer e autor de boa parte dos arranjos.

Você tem o direito de duvidar de tudo isso – mas apenas antes de escutar com atenção as dez faixas, distribuídas pelas duas faces do imponente LP caprichadíssimo da Rocinante.  Os pouco menos de 3 minutos de Viva o Carnaval, uma espécie de prelúdio ao que virá nas demais reinvenções, já afastam qualquer coisa parecida com “tributo”, “homenagem”. Vá direto para a faixa 5, Carnaval das Crianças – o célebre O ginete do pierrozinho, tocado por Erika num teclado Wurlitzer e escovas. Outra criação celebrada do Villa, a Dansa: Miudinho, das Bachianas brasileiras nº 4, trafega entre o reconhecimento da melodia tão conhecida, porém enriquecida com a músicas das ruas que o Villa tanto adorava e emulou com genialidade absoluta em sua obra. 

A esta altura, você já absorve a mensagem fundamental desta aventura: “Queríamos investigar a rítmica presente na escrita de Villa-Lobos e reforçar o sotaque original de suas origens. Os instrumentos surgiram porque faziam sentido sonoro, porque já estavam ali, nessa memória musical que queríamos honrar”.

Assim que concluí muito impactado a audição deste LP, senti vontade de reler o que Alejo Carpentier, grande amigo do Villa desde 1923 e até a morte do compositor, em 1959, escreveu sobre a importância do ritmo em sua obra. Em 1928, por exemplo, falando sobre “os artistas de nossa América”, ele lamenta que “infelizmente, tendo quase sempre uma violenta palheta de vermelhos e azuis no espírito, nos dedicamos a neutralizá-la com os cinzas das névoas invernais. Repetimo-nos ‘il pleut dans mon coeur’, como o suave poeta, para engar o incêndio tropical que temos dentro de nós”.

Para terminar, o escritor, musicólogo e crítico musical cubano transcreve conversas com Villa, nas quais ele afirma: “Não sou folclorista, o folclore não me preocupa. Minha música é como é, porque eu a sinto assim. Não caço temas para utilizá-los depois (...) Quase todos os meus motivos musicais são de minha invenção (...) Se algum deles lembra por seu  caráter alguma canção popular de Sâo Paulo, é porque estas canções são as que ninaram minha infância”. E o autor do Concerto barroco e Os passos perdidos termina dizendo que “seu nacionalismo consiste em ser o que ele é; em conhecer profundamente a música popular de seu país, em amá-la, aproximando-se dela em espírito, para depois falar ao mundo com o sotaque correspondente”.

Perdoem a longa citação. Mas ela situa não só Villa, mas a condição de todo músico brasileiro – e da “nossa América” – que deve assumir a liberdade de cavoucar as entranhas de nossas raízes... como faz de modo brilhante a pianista Erika Ribeiro.

A pianista Erika Ribeiro [Divulgação/Diego Bresani]
A pianista Erika Ribeiro [Divulgação/Diego Bresani]

 

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