Meus momentos na Sala São Paulo

por Redação CONCERTO 05/07/2019

Colunistas do Site CONCERTO escolhem os seus melhores concertos

Uma conta rápida: em 20 anos de atividades, se considerarmos algo em torno de 150 concertos ou recitais ao ano, chegamos ao número aproximado de 3 mil apresentações na Sala São Paulo desde a sua inauguração, em 9 de julho de 1999.

Então, justiça seja feita: é uma tarefa quase impossível eleger três momentos especialmente marcantes dessas últimas duas décadas. Mas os colunistas do Site CONCERTO toparam o desafio, formando uma lista de concertos e recitais memoráveis da história da sala – e de suas próprias trajetórias.

Sala São Paulo [Divulgação]
Sala São Paulo [Divulgação]

Camila Fresca, jornalista e pesquisadora

Concerto de inauguração
Estando ou não lá, o concerto de 9 de julho de 1999 foi um divisor de águas na música clássica brasileira. A partir de então nossas referências nunca mais seriam as mesmas.

Filarmônica de Viena
Pouco depois da inauguração, nos dias 6 e 7 de outubro de 1999, a Filarmônica de Viena foi o primeiro grande grupo internacional a tocar na Sala São Paulo. O evento foi também o primeiro dos muitos reconhecimentos internacionais que a Sala conquistaria. Os diretores da orquestra elogiaram vivamente sua beleza e acústica e o regente Lorin Maazel chegou a declarar que aquela era uma das melhores salas de concerto do mundo.

Concertos memoráveis
É impossível selecionar um ou alguns das centenas de concertos excelentes que assisti na Sala São Paulo nos últimos 15 anos. De 2010, por exemplo, foram memoráveis a Filarmônica de Munique com Zubin Mehta ou a própria Osesp fazendo a Sagração da primavera com Kristjan Järvi. Fico com Isabelle Faust na integral das sonatas para violino e piano de Beethoven em 2017, em três recitais transcendentais realizados dentro da temporada da Osesp.

 

Irineu Franco Perpetuo, jornalista, crítico musical e tradutor

Martha Argerich e Nelson Freire
O Reverendo Nelson, inspiradíssimo, ciceroneando sua parceira musical primordial.

Filarmônica de Viena regida por Valery Gergiev
A melhor orquestra a botar os pés na Sala.

Obras de Charpentier com Les Arts Florissants
A magia de William Christie e seus comandados converteu a Sala São Paulo no encantador teatro dos afetos barrocos.

 

João Luiz Sampaio, jornalista e crítico musical

Relembrar de forma sistemática tudo o que vi na sala e, a partir daí, escolher os três melhores concertos me pareceu improvável. Mas, colocado o desafio, algumas apresentações vieram logo à mente. Deve ter algum motivo, então fico com elas:

Brahms por Skrowaczewski
Em agosto de 2000, Kurt Masur cancelou concertos com a Osesp e, em seu lugar, foi chamado às pressas Stanislaw Skrowaczewski. Talvez pela ausência de Masur, a sala não estava cheia – mas música de altíssima qualidade foi feita naquela noite por um veterano mestre, em uma leitura inesquecível da Sinfonia nº 2 de Brahms.

A Valquíria
A eletricidade da interpretação do primeiro ato da ópera de Wagner com Ira Levin, Violeta Urmana, Stephen Gould e Stephen Bronk, em 2006, nunca me saiu da mente. Fui, então, escutar novamente uma gravação da apresentação que tenho em casa e a sensação só se confirmou. (Já que estou falando de vozes, vou dar um truque e contrabandear mais um concerto: Barbara Hendricks cantando Strauss com John Neschling em 2000)

András Schiff
Em meio à infinidade de pianistas que passaram pela Sala São Paulo, o húngaro András Schiff me marcou especialmente com o recital que fez com as últimas sonatas de Haydn, Beethoven e Schubert. Uma experiência musical única.

 

João Marcos Coelho, jornalista e crítico musical

É praticamente impossível escolher só três “momentos marcantes” nestas duas décadas de Sala São Paulo. Em todo caso, escolhas são sempre pessoais:

András Schiff
O recital em que o pianista interpretou a última sonata de Beethoven. No final da 111, um silêncio mágico foi compartilhado pelo público por bons 30 segundos antes de as palmas explodirem.

Gurrelieder
A monumental obra de Schoenberg com mais de 300 músicos e cantores no palco e uma Sala São Paulo com iluminação especial – e Isaac Karabtchevsky e Osesp em um de seus melhores momentos nestes vinte anos.

Bruckner por Barenboim
Daniel Barenboim e a Staatskapelle Berlin nas três últimas catedrais sinfônicas de Bruckner em março de 2008: ele regeu tudo de cor. E a execução foi tão impactante que até hoje não me saiu dos ouvidos.

Um p.s.: 
É mesmo perverso ter de escolher três concertos! Ficaram de fora o recital improvisado de Keith Jarrett, a Filarmônica de Viena com Gergiev, o Marteau sans Maître de Boulez (Festival de Inverno Campos do Jordão), o tenor Jonas Kaufmann e Penderecki regendo a Osesp no adagio da sua Sinfonia n° 4.

 

Leonardo Martinelli, compositor

Ensaio geral para a inauguração da Sala
Eu estava lá naquela manhã de 9 de julho. Naturalmente, não apenas o concerto inaugural, mas todas as récitas daquela semana estavam lotadas. Entretanto, o ensaio geral foi liberado para estudantes (eu então ainda estava na graduação). Lembro-me com clareza de John Neschling chegando sorrindo no palco, revisando os passos da cerimônia com a orquestra, o ensaio da sinfonia de Mahler. Sentia que vivia um momento especial, de que algo bom e importante iniciava-se ali.

‘Sagração da Primavera’ com Kristjan Järvi
Em 2010, decidimos fazer uma reportagem especial sobre a Sagração, contando sua história e o desafio que ela representa para todo músico. Acompanhei todos ensaios e concertos, e o que testemunhei e ouvi foi uma orquestra em grande forma e em uma relação intensa e rara com o regente, o que resultou numa música de altíssimo nível.

Estreia de minha peça ‘O diálogo entre Vênus, Azrael e Ogum’
Ouvir concertos é sempre um prazer e comodidade. Mas tudo muda quando se trata de uma peça sua que está no palco! Em 12 de março de 2013 a Filarmônica Bachiana, sob a regência de John Boudler, estreou a peça que a orquestra havia me encomendado no ano anterior. Foi uma emoção indescritível ter, por alguns minutos, a sala “só para mim”, ressoando a minha música.

 

Luciana Medeiros, jornalista

Shostakovich por Meneses
No fim de outubro de 2011, Antonio Meneses tocou o Concerto n° 1 de Shostakovitch com a Osesp e o maestro Yan Pascal Tortelier. Ouvi com novas perspectivas esse imenso músico.

Chico Buarque
Em final de 2012, Luiz Claudio Ramos assinou a Suíte Chico, encomenda da orquestra. As razões dessa escolha são familiares – é meu tio, arranjador e parceiro de Chico Buarque. No programa, regido por Marin Alsop, havia ainda trechos de Porgy and Bess, de Gershwin.

Nathalie Stutzmann 
Em 2013, ouvi Nathalie Stutzmann cantar Wagner com Sir Richard Armstrong regendo a Osesp. Uma das vozes femininas mais lindas do mundo – como gosto de contraltos! – e um bom gosto interpretativo raro.

 

Nelson Rubens Kunze, diretor-editor da Revista CONCERTO

Concerto de inauguração da Sala São Paulo
Esse para mim é inesquecível mesmo. Sem ter conseguido a credencial de jornalista, consegui um ingresso e acabei sentado no camarote que depois passou a ser o da Fundação Osesp, praticamente em cima do palco. Foi uma apresentação incrível da Sinfonia nº 2, Ressurreição, de Mahler, e lembro da vibração do maestro John Neschling. Para mim, não havia dúvidas de que aquele era um momento chave da vida musical brasileira!

‘Sinfonia Turangalila’, de Olivier Messsiaen
Além de admiração, tenho uma recordação emocional de Messiaen. Em 1985, estudante em Berlim, assisti à estreia alemã, em forma de concerto, de trechos de sua impressionante ópera São Francisco de Assis (com a Filarmônica de Berlim e Seiji Ozawa). Antes, ouvimos uma palestra do mestre francês e fui cumprimentá-lo. Vinte anos depois, em 2005, assisti, arrepiado, a essa Sinfonia Turangalila na Sala São Paulo, sob direção de Yoram David.

‘Salomé’, de Richard Strauss
John Neschling realizou algumas óperas em forma concertante durante sua gestão. Essa Salomé, em 2008, foi especialmente eletrizante, com um elenco excepcional e conduzida por Neschling com um impressionante senso dramático. Uma apresentação memorável! Mas três escolhas em 20 anos é pouco, não é não? Lembro ainda da Sinfonia do Berio em 2002 (regida por Lothar Koenig – Berio teve de cancelar por razões de saúde), a Filarmônica de Viena com Gergiev, o recital solo de András Schiff, Candide de Bernstein com Paulo Szot e Marin Alsop e, algo mais pessoal, o concerto comemorativo dos 20 anos da Revista CONCERTO, em 2015, com a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, Antonio Meneses e Cláudio Cruz. Vida longa à Sala São Paulo!

 

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