Que classe, meus amigos, que classe! 

por Jorge Coli 22/02/2026

Sob direção de seu titular maestro Knut Andreas, Orquestra Sinfônica de Piracicaba faz Mahler com alto nível de coesão e refinamento

“Que classe!” Foi a expressão que me ocorreu ao final da Sinfonia nº 1 – Titã, de Gustav Mahler, no auditório do Teatro Municipal Dr. Losso Netto, em Piracicaba. Foi a abertura de temporada, dia 20 de fevereiro.

A Orquestra Sinfônica de Piracicaba está um esplendor. Situa-se hoje entre as melhores formações sinfônicas do país. Sob a direção de Knut Andreas, alcançou alto nível de coesão e refinamento: equilíbrio entre cordas e madeiras, brilho e transparência nas texturas, controle dinâmico, homogeneidade dos metais. A obra não surgiu como demonstração de repertório – aquele gesto um pouco ansioso de provar que “também tocamos Mahler” –, mas como construção orgânica, sustentada por firmeza técnica. 

Desde os primeiros compassos, Andreas adotou uma concepção calma, quase descontraída, tomando o tempo necessário para que cada ideia se manifestasse num fluxo tranquilo. No primeiro movimento, que contém a indicação “Como o som da natureza”, Andreas evitou tanto o sentimentalismo quanto a ilustração pitoresca. A evocação da natureza, ora serena, ora um pouco mais viva, pontuada pelos chamados de pássaros, pelos ecos das trompas de caça, pela vibração de uma festa camponesa, surgiu integrada ao tecido sinfônico, não como quadros descritivos, mas como manifestações de uma subjetividade que incorpora o mundo exterior.

O enérgico segundo movimento, scherzo em que Mahler busca vigor e sentimento na cultura popular, afirmou-se com leveza firme; o célebre terceiro movimento, com seu Frère Jacques em tom menor pelas cordas mais sombrias, surgiu com sobriedade. O trecho de caráter asquenaze foi integrado ao tecido sinfônico com delicadeza e sem insistir na ironia da composição.

O último movimento, arrebatado e de grande exigência estrutural, já foi associado por diversos comentadores ao espírito de Bruckner e de Wagner – e, em certa passagem, faz-me lembrar Rigoletto (mas não digam isso para ninguém). Entre explosões dramáticas e momentos de recolhimento quase espiritual, a execução alcançou seu ponto culminante. A orquestra manteve tensão e amplitude sonora sem perder definição. A leitura privilegiou arquitetura e proporção. Nada foi inflado.

Em suma, um Mahler nunca sublinhado para efeitos insistentes, marcado pela recusa da grandiloquência e da teatralização, com uma expressiva clareza arquitetônica: a beleza surgia como que por si só.

Que uma cidade do interior, com seus próprios meios, alcance tal nível numa obra de tamanha exigência técnica e complexidade estrutural apenas intensificou o prazer de estar naquele concerto.

A sala é excelente: boa acústica, assentos confortáveis e silenciosas (conheço alguns auditórios nos quais as poltronas rangem tanto que deveriam ser batizados em homenagem a John Cage). O público seguiu a música com atenção concentrada, descobrindo aquelas sucessivas e magníficas paisagens musicais sem um ruido, sem uma tosse. Que pedir mais?

De fato, que classe, meus amigos, que classe! 

Orquestra Sinfônica de Piracicaba é aplaudida após a apresentação (Revista CONCERTO, Jorge Coli)
Orquestra Sinfônica de Piracicaba é aplaudida após a apresentação (Revista CONCERTO, Jorge Coli)

 

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