Volume 33

por Redação CONCERTO 07/04/2026

Vol 33

Henrique Oswald (1852–1931)

1 – Elegia (1896-97)
2-5 – Symphony, Op. 4 (1910)
6-9 – Sinfonietta, Op. 27 (1897)


Talvez o mais europeu dos compositores brasileiros, tendo passado grande parte da sua vida na Itália - absorveu também influências da França e da Alemanha. A música de Oswald sempre conserva um caráter lírico com qualidades de elegância e brilho, que se podem ouvir na Sinfonietta. A expressiva "Elegia", originalmente concebida para violoncelo e piano, é dedicada à memória de um amigo. Com os seus contrastes entre escuridão e luz, aliados a uma inegável beleza, a "Sinfonia op. 43" é considerada a obra-prima orquestral de Oswald e uma das mais significativas do repertório orquestral brasileiro.

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[Reprodução capa]
[Reprodução capa]

Henrique Oswald (1852–1931)
Obras sinfônicas

Discreto e atencioso, este brasileiro de estatura pequena e olhos vívidos conquistou tardiamente uma posição de autoridade musical em seu país de origem, ao qual voltaria apenas aos 51 anos de idade, depois de viver desde os 16 anos na Itália.

Filho do suíço Jean-Jacques Oschwald, que simplificou o nome para Oswald, e da italiana Maria Carlota Cantagalli, Henrique Oswald nasceu no Rio de Janeiro em 14 de abril de 1852, apenas dois anos depois do casal fixar residência no Brasil. Um ano após seu nascimento, a família mudou-se para São Paulo, em função dos empreendimentos comerciais de Jean-Jacques, que abriu a primeira cervejaria da cidade e foi comerciante de pianos. Em São Paulo, o jovem Henrique estudou piano com o francês Gabriel Giraudon, até a família decidir-se pela mudança para a Itália, aproveitando os laços familiares da mãe Carlota. Além de ser sua primeira professora de piano, Carlota dominava o francês, inglês e alemão, além do italiano natal. O idioma familiar era o italiano, mas ainda criança Henrique escrevia cartas em francês ao pai, em constantes viagens de negócios.

O ambiente multicultural foi uma constante na vida de Henrique mesmo depois de casar-se, em 1881, com a cantora Laudômia Gasperini, filha de pai italiano e mãe francesa. Em Florença, a casa dos Oswald era ponto de encontro de artistas e intelectuais. Depois da mudança para o Brasil, o casal recebia em sua residência músicos em passagem pela cidade e muitos compositores e intérpretes brasileiros, que se reuniam para discussões artísticas e apresentações informais de novas composições.

Poliglota com sólida formação musical desde a infância, não surpreende que sua linguagem musical também revele contatos com aspectos estilísticos e estéticos vindos da Itália, França e Alemanha. Na Itália, estudou composição com Giovacchino Maglioni e Reginaldo Grazzini. No piano, foi aluno do húngaro Henry Ketten e do italiano Giuseppe Buonamici, por sua vez ligado à cultura alemã, aluno de Hans von Büllow e amigo de Johannes Brahms. A ligação de Henrique Oswald com a cultura francesa também foi forte e diversas obras receberam títulos em francês, das quais a mais conhecida foi, sem dúvida, Il Neige!, vencedora do concurso do Jornal Le Figaro em 1902.

Com carreira como pianista e compositor, além de professor no Instituto Musical de Florença, voltou ao Brasil para assumir a direção do Instituto Nacional de Música, cargo que ocupou entre 1903 e 1906. Catedrático de piano a partir de 1911, foi responsável por inúmeras carreiras pianísticas, ensinou o instrumento para muitos compositores brasileiros e foi citado na imprensa de maneira constante, tanto por seus concertos como pianista e compositor, como pelos prêmios conquistados por seus alunos e alunas.

Talvez o mais europeu dos compositores brasileiros, Oswald foi um cultor da forma, hábil orquestrador e ótimo pianista, tendo estreado muitas de suas obras com piano. Dedicou-se a todos os gêneros musicais, tendo deixado obras para piano solo, música de câmara, música sinfônica, ópera, canção e canto coral.

A cronologia das composições de Henrique Oswald não é fácil de ser estabelecida: muitos manuscritos não são datados e há divergências nos números de opus, o que vem sendo esclarecido por pesquisas musicológicas recentes. As obras da fase europeia são da década em que Henrique Oswald começou a se reaproximar do Brasil, realizando concertos no Rio de Janeiro e São Paulo para que os brasileiros conhecessem sua obra, mas com pouco resultado: a crítica jornalística indica que esses concertos não tiveram grande público, o que indica um ambiente musical pouco familiarizado com o compositor que saiu do Brasil muito jovem para terminar os estudos e profissionalizar-se na Itália. A Elegia e a Sinfonietta, op.27 são obras dessa fase, compostas na Itália; a Sinfonia, op.43, por sua vez, já foi composta no Brasil.

A Elegia foi originalmente escrita para violoncelo e piano como incentivo ao seu filho Carlos, que começava a estudar o instrumento, e dedicada à memória do amigo Enrico Mariotti. O manuscrito para violoncelo e piano não está datado, mas a versão orquestral, de 1896, foi estreada no Rio de Janeiro em 1915, pela Orquestra de Concertos Sinfônicos, regida por Francisco Braga. Os violoncelos apresentam o tema em duas frases, repetido pelo oboé. Apesar de marcante, o tema traz alguma indefinição, sugerindo um posterior desenvolvimento. A ideia inicial é transformada pelos saltos seguidos e pequenos movimentos melódicos ascendentes, criando um efeito cada vez mais expressivo para resultar em um tutti orquestral de grande impacto, surpreendendo pela harmonização suspensiva ao final. Depois desse momento em fortíssimo, a melodia inicial é reapresentada pelo oboé e pela clarineta e violinos, como uma evocação, rumo ao final em pianíssimo.

A Sinfonietta op.27 foi originalmente escrita para orquestra em 1897 e, ao contrário da Elegia, ganhou uma versão de câmara posterior, tendo sido reelaborada como octeto de cordas em 1899 – a única peça para essa formação de que se tem registro na literatura camerística romântica brasileira. A obra tem quatro movimentos, em estrutura clássica. Depois de um primeiro movimento rápido, em forma sonata, segue-se um Andante com moto (Tema e variações), um Tempo di Minueto e o Presto final. O Tema e variações é um bom exemplo de como Oswald trabalhava a unidade na variedade, princípio composicional presente em toda sua obra. O tema simples em compasso ternário é apresentado pelas trompas, com acompanhamento das cordas em pizzicato e pequenas intervenções de instrumentos de sopro. A primeira variação acrescenta movimento e explora o staccato nas madeiras com melodias rápidas que passam de um instrumento a outro, mantendo a estrutura harmônica. A segunda variação traz o protagonismo para as flautas e para a viola, alterando ritmicamente a apresentando os trompetes com um motivo em notas pontuadas. A diversificação rítmica aumenta. Na terceira, há alteração de andamento para um più animato e protagonismo das cordas. A última variação inicia com grande contraste, com a harmonia alterada para o modo menor e nova textura, com blocos sonoros explorando regiões mais graves e retomando explicitamente o padrão rítmico do tema. Aos poucos, introduz elementos melódicos da primeira variação e o retorno do pizzicato. Uma cadência final traz de volta o acorde maior inicial. A obra segue com um elegante Minueto e um brilhante Presto, que termina a obra numa atmosfera luminosa.

A Sinfonia opus 43, composta em 1910, com manuscritos de outras versões datados entre 1910 e 1912, nasceu em um importante momento em prol da música sinfônica no Brasil, liderado por compositores-regentes que movimentavam o público e a crítica nas primeiras décadas do século XX, como Alberto Nepomuceno e Francisco Braga, mais tarde ampliado por Walter Burle Marx, um dos alunos de piano de Henrique Oswald. A obra foi estreada no Rio de Janeiro em 1918, pela orquestra do Teatro Colón de Buenos Aires, com regência de Gino Marinuzzi. Considerada a melhor realização sinfônica de Oswald, recebeu elogios do musicólogo Mário de Andrade, figura central do movimento modernista brasileiro, por sua escrita compacta, equilíbrio perfeito e flexibilidade melódica, especialmente no Scherzo. A obra foi apresentada ainda em vida do compositor sob a regência de importantes nomes, como os também compositores Heitor Villa-Lobos (1926) e Francisco Braga (1930), além de Felix Weingartner, que regeu o Adagio e o Scherzo com a Filarmônica de Viena em viagem ao Brasil em 1922.

Dedicada à esposa Lau (Laudômia), é formada por quatro movimentos: Allegro moderato, Adagio, Scherzo – Allegro vivace e Allegro deciso. Começa com um tema calmo e ondulante em compasso ¾, apresentado pelas cordas e instrumentos de madeira, mas logo aparecem gestos musicais contrastantes e um segundo tema nos metais em staccato. Por vezes, o segundo tema parece interromper ou desestabilizar o primeiro; em outros momentos, há uma busca de equilíbrio desses dois impulsos, um mais lírico e outro mais rítmico, quase marcial. No final, um grande movimento cromático do agudo ao grave, do fortíssimo ao pianíssimo, como uma vertigem, abre espaço para uma última aparição do lirismo do primeiro tema e a memória do segundo tema ressoando no tímpano, em um final aberto e misterioso.

O Adagio, em compasso quaternário, traz elementos já vistos no Allegro, como o cromatismo e o impacto do naipe de metais, começando com o ar de mistério deixado no final do primeiro movimento. Mas aqui, tudo se desenvolve devagar, como se os caminhos fossem encontrados a partir de tentativas, com um resultado sonoro que vai sendo descortinado aos poucos, explorando belíssimas combinações timbrísticas e uma memória do primeiro movimento no final.

O Scherzo em 6/8 é luz e movimento. Os temas são claros, há um forte efeito rítmico nas cordas e uma aproximação de ritmos de danças e efeitos miméticos, como as flautas que lembram sons de pássaros e ressaltam a ideia de vivacidade. Toques de clarins anunciam o Allegro deciso, que se configura como um movimento de síntese, afirmativo e triunfante, recapitulando, nos seus compassos finais, o tema principal do primeiro movimento.

Na Sinfonia, Oswald cria combinações sonoras que vão da penumbra à claridade, utilizando o universo diatônico tonal, o cromatismo e aparições da escala de tons inteiros, explorando todo o peso da orquestra nos momentos grandiosos e criando solos de extrema delicadeza nas cordas e madeiras, em uma obra de incontestável beleza e sólida construção, um dos mais relevantes exemplos do gênero em toda a literatura sinfônica brasileira.

Susana Cecilia Igayara-Souza

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