Ópera de Carlos Gomes apresentada no Festival Amazonas de Ópera não funcionou pela soma de talentos individuais, mas por um misterioso sistema de tensões compartilhadas
MANAUS - Nelson Kunze já escreveu para a CONCERTO uma ótima crítica sobre a ópera Salvator Rosa, de Carlos Gomes, em Manaus (clique aqui para ler). Endosso tudo o que ele disse com entusiasmo. Mas não resisto também em meter minha colher torta no assunto, porque foi, de fato, um espetáculo excepcional.
Há, nas apresentações de ópera, um fenômeno singular. Muitas vezes, nos teatros mais importantes e ricos, com as melhores orquestras e cantores, tudo chega ao fim sem a centelha, muito rara, capaz de criar a apresentação excepcional, que arrebata. Outras vezes, em produções mais modestas, essa chispa incendeia, e a verdade emotiva da ópera se impõe.
Luiz Fernando Malheiro é maestro e mago que obtém esse encantamento. Suas escolhas são certeiras. Escolher cantores adequados já é difícil. Perceber compatibilidades dramáticas, densidades tímbricas, temperaturas cênicas é raríssimo. Muitas produções escolhem cantores individualmente bons; poucos conseguem formar um organismo teatral capaz de fazer o espetáculo “pegar fogo”. Porque ópera depende enormemente de fenômenos de contágio emocional coletivo.
Foi isso o que aconteceu no Teatro Amazonas. Salvator Rosa, apresentado no Festival deste ano, não funcionou pela soma de talentos individuais, mas por um misterioso sistema de tensões compartilhadas.
É preciso assinalar também a inteligência rara da montagem, dos cenários e dos figurinos, a primeira de Julianna Santos, os segundos de Renato Theobaldo, os terceiros de Fernanda Camara.
Se houve um “conceito” (palavra nociva que eu detesto) foi o de a montagem aceitar a natureza melodramática da obra e trabalhar para fazê-la funcionar teatralmente. Eram painéis com reproduções de pinturas de Rosa, pintor originalíssimo do século XVII, grande mestre muito popular entre os românticos e menos valorizado hoje do que deveria. Esses painéis evocavam o universo visual do personagem histórico; criavam profundidade espacial permitindo rápidas mutações de ambiente; e, sobretudo, instauraram uma atmosfera pictórica escura, caravaggesca, tempestuosa, muito adequada ao romantismo torturado da obra.
Uma de suas qualidades estava na direção de atores. Muitas vezes isso significa apenas movimentação convencional: entrar, sair, cantar para a plateia, congelar em poses expressivas. Ali havia outra coisa: relações humanas efetivamente construídas no palco com os cantores inseridos num espaço dramático verdadeiro. O melodrama não era tratado com ironia, como em tantas montagens contemporâneas, nas quais os encenadores têm vergonha do páthos romântico. Ao contrário, a direção, confiando na força emocional direta da obra, ajudou a centelha a transformar-se num incêndio.
No Brasil, a ópera não pode seguir modelos economicamente impossíveis. A encenação de Julianna Santos, inteligentemente concebida para circular, adaptar-se e sobreviver, demonstrou que, com imaginação visual, imaginação teatral e concentração dramática, é possível produzir espetáculos de alta qualidade artística sem gigantismos inúteis. A leveza estrutural dos cenários, a mobilidade dos painéis, a clareza da direção de atores e a economia inteligente dos meios tornam a montagem facilmente exportável. Ela seguirá para o Rio de Janeiro, mas deveria circular também por outros teatros brasileiros. Produções assim não apenas reduzem custos: ajudam a criar continuidade, repertório e memória teatral.
Nelson Kunze já assinalou a qualidade dos cantores, e não vou insistir nisso, embora eles o merecessem. Mas sublinho o fato de que todos eles foram verdadeiros como personagens. Por sinal, Enrique Bravo foi vestido e penteado de maneira a adquirir espantosa semelhança com o autorretrato de Salvator Rosa; Eiko Senda, como Isabella, passou de vestes simples à capa dourada do casamento mantendo a unidade necessária de caráter; Sunu Sun mostrou verdadeira alma de ator, comovente na loucura de Masaniello; Luiz-Ottavio Faria, com sua autoridade impressionante, encarnou perfeitamente o ódio coletivo das classes superiores pelas inferiores; Maria Gerk foi fenomenal na encarnação do adolescente Gennariello.
Assisti à apresentação de domingo (17/05), em que o maestro Malheiro passou a batuta para Otávio Simões, sobrinho-trineto de Carlos Gomes e que muito trabalhou na restauração da partitura. Ele soube manter acesa a chama dessa esplêndida música, acessível no ótimo vídeo captado na estreia e regida por Malheiro – clique aqui para assistir.
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.