Pela temporada da Tucca, a Orchestre des Champs-Elysées e o maestro tocaram a Sinfonia nº 7 de Beethoven como se aquela vez fosse a última. E, assim, permitiram que o público a ouvisse como se fosse a primeira
Para ouvir música vienense como se deve, nada melhor do que uma orquestra francesa. De preferência, regida por um belga. Em uma temporada que já se configura como histórica, a Tucca promoveu na última quarta-feira, na Sala São Paulo, o reencontro do público paulistano com Philippe Herreweghe e sua Orchestre des Champs-Elysées.
Foi no já remoto ano de 2009 que Herreweghe e sua mesmerizante orquestra de instrumentos de época vieram ao Brasil pela primeira vez para um programa Berlioz que trazia a célebre Sinfonia fantástica e sua pouquíssimo executada continuação Lélio, ou le rétour à la vie. Na época, muito se falou do caráter multimídia do espetáculo, que incluía narração, vídeo e dançarinas seminuas. Mas, 17 anos depois, o que restou na memória foi pura e simplesmente a qualidade eletrizante do fazer musical.
Herreweghe hoje é um senhor de 79 anos, e quem o vê se mover muito lentamente no palco não pode imaginar os sortilégios que ele opera ao subir (também vagarosamente) no pódio. Não se trata de um bailarino da batuta que encanta o público com sua coreografia; na verdade, do lugar em que eu me encontrava, era difícil até de discernir ou compreender seu gestual. Mas pouco importa. Herreweghe parece operar um aparelho de raio-X, que deixa claro cada aspecto da estrutura das partituras que interpreta; ou manusear um invisível botão de volume, extraindo da orquestra uma irisada gama de dinâmicas que tende ao infinito (fiquei especialmente impressionado com os matizes do Allegretto da Sétima de Beethoven).
Focado na Viena de dois séculos atrás, o programa começou com a Sinfonia Inacabada, de Schubert. Ao ouvir o veludo dos violoncelos soando com um só único instrumento em seu tema cantável, inadvertidamente pensei: “há vida para além do vibrato!”. O som das cordas de tripa amalgamava-se lindamente com as sutilezas das madeiras (fagote miraculoso!) e dos metais (como trompas naturais podem ser tão afinadas?) – muito distante da concepção que faz Schubert soar não como precursor, e sim com sucessor de Bruckner, que por vezes ainda se ouve por aqui.
Tivesse terminado aí e o concerto já teria sido belo. Mas veio o intervalo e, depois dele, uma execução antológica da Sinfonia nº 7, de Beethoven.
Toca-se muito Beethoven em São Paulo – e não há nada de errado com isso. Afinal, uma definição possível de orquestra sinfônica é “grupo que existe para tocar as sinfonias de Beethoven” – e o resto do repertório. O problema é o caráter rotineiro de várias dessas performances, que por vezes soam como um casamento desgastado, em que os cônjuges não se dão o trabalho de se escutarem e reiteram mecanicamente os mesmos clichês.
Nada houve de mecânico ou de clichê na Sétima de Herreweghe e seus elísios. Como tampouco viu-se a anodinia de que por vezes interpretações “de época” são injustamente acusadas. Pelo contrário: a tal “apoteose da dança” que Wagner enxergava na obra-prima de Beethoven viu-se plenamente realizada, com o rigor jamais excluindo o vigor.
Em sua Teoria da Literatura – Uma Introdução, o britânico Terry Eagleton escreve algo que pode ser sem dificuldade transposto para a música. Ele diz: “todas as obras literárias, em outras palavras, são ‘reescritas’, mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as leem; na verdade, não há leitura de uma obra que não seja também uma ‘reescritura’”.
Pois bem: o que se ouviu na Sala São Paulo foi uma releitura criativa e, portanto, uma bem-vinda “reescritura” da Sinfonia nº 7. Em êxtase, um célebre compositor escreveu-me, logo depois da apresentação: “você já tinha ouvido a Sétima de Beethoven? Eu não”.
Não que tenha sido uma performance marcada por idiossincrasias, maneirismos ou exageros. Beethoven estava lá, como sempre – e como nunca. O grande mérito dos intérpretes foi recuperar o frescor de uma partitura já tão pisada e repisada, visitada e revisitada. A orquestra tocou como se aquela vez fosse a última. E, assim, permitiu que o público a ouvisse como se fosse a primeira.
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