Cristian Budu: retrato de um pianista quando jovem

A vida nos oferece oportunidades muito raras, nas quais desejamos congelar o tempo, para que aquela ocasião simplesmente não se desvaneça. Na música, é possível, se não parar a marcha das horas, pelo menos revisitar o instante que desejaríamos preservar, por meio da audição repetida de uma gravação. Esse contínuo retorno a um momento que já se anuncia histórico para o piano brasileiro nos é oferecido pela escuta do disco comercial de estreia de Cristian Budu, 28, para o selo suíço Claves.

 

Relembrando: Cristian começou a fazer história há três anos, em 2013, ao vencer o Concurso Clara Haskil, na Suíça, quebrando duas décadas de jejum de pianistas brasileiros em competições internacionais de renome. O último vencedor, exatamente vinte anos antes dele, havia sido a capa da edição de agosto da Revista CONCERTO: Ricardo Castro, ganhador do Concurso de Leeds, em 1993.


Cristian Budu [Foto: divulgação] 

Pois bem: Cristian entrou pela primeira vez em estúdio no ano passado, registrando a Kreisleriana, de Schumann, e os 24 Prelúdios, de Chopin, no Mechanics Hall, em Worcester, EUA, em CD realizado pela Revista CONCERTO e distribuído aos assinantes da publicação ao longo do ano passado.

Faltava, porém, um álbum comercial. E, para a Claves, Budu voltou a gravar os 24 Prelúdios de Chopin, em disco desta vez complementado pelas sete Bagatelles op. 33, de Beethoven.

A acolhida da crítica internacional não poderia ter sido mais calorosa. Assinantes da Revista CONCERTO puderam ler, em nossa edição de julho, que o disco entrou para a Editor’s Choice da revista inglesa Gramophone. Em sua resenha, Patrick Ruder considera os Prelúdios do pianista brasileiro “mais continuamente satisfatórios” do que as gravações de músicos experientes como Nelson Goerner e Grigory Sokolov, louvando “conhecimento musical e maturidade que poderiam provocar inveja em colegas com o dobro de sua idade”.

Um elogio desses já faria muita gente feliz. Só que ainda teve mais. Superando a histórica animosidade que divide o Canal da Mancha, e que costuma fazer com que álbuns louvados de um lado sejam atacados do outro, Cristian também arrebatou corações franceses. Em Diapason, a resenha é assinada por aquele que talvez seja o maior crítico de piano da Europa, Alain Lompech, que louva o “cantabile esculpido no teclado” do pianista brasileiro, sem nenhum vestígio de “complacência ou de afetação”.

Quem ouviu os Prelúdios que Budu gravou para a Revista CONCERTO já sabe o que esperar de seu Chopin em termos de beleza sonora, poder de caracterização individual e de evocação poética. Não é pouco ele ter conseguido se destacar em um repertório tão visitado pelos pianistas. Mas talvez seja façanha ainda maior o que ele faz com as Bagatelles, um Beethoven relativamente pouco tocado e registrado.

Pois, quando o assunto é o mestre de Bonn, pianistas costumam preferir monumentos como as sonatas ou as Variações Diabelli. Nas Bagatelles, somos defrontados com um Beethoven mais conciso, porém não menos inspirado – algo como os sonetos de Shakespeare, em comparação com as grandes tragédias do dramaturgo inglês. Cristian obviamente saboreia cada detalhe dessas miniaturas, colocando em relevo seus estados de alma contrastantes, com especial atenção para um humor que nem todos conseguem enxergar em um compositor que, afinal de contas, estudou com o grande mestre da brincadeira musical que se chamava Joseph Haydn.

Como disse Rucker em seu texto para a Gramophone, “Cristian Budu é um artista que estaremos ansiosos por ouvir mais – quanto antes, melhor”. Em agosto, ele sobe ao palco da Sala São Paulo, dia 21, com a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo, para tocar o Concerto nº 1, de Tchaikóvski – apresentação que será transformada em disco. Logo depois, dia 26, vai à Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, para uma promissora apresentação em duo com o violoncelo de Antonio Meneses. Enquanto aguardamos ambas as apresentações, o CD da Claves oferece um dos mais comoventes retratos de artista quando jovem que o piano brasileiro já produziu.

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