Festival do Espírito Santo recupera ópera ‘Helena’, de João Gomes de Araújo 

por Nelson Rubens Kunze 08/11/2026

Escrita em 1906, Helena tem temática brasileira e é cantada em português

Viajei a Vitória para assistir à estreia contemporânea da ópera Helena, de João Gomes de Araújo, nova produção da 14ª edição do Festival de Música Erudita do Espírito Santo. A montagem tem direção musical de Gabriel Rhein-Schirato, que também é consultor artístico do Festival, e direção cênica de Menelick de Carvalho, e conta com a participação da Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo e do Coro Vox Victoria. O elenco solista foi composto por Monique Galvão como Helena, Rodrigo Esteves no papel de Rogério, Rafael Stein como Júlio, Alessandro Santana como Silveira e, no papel de um camponês, Carlos Alexandre Kelert. 

João Gomes de Araújo nasceu em Pindamonhangaba, São Paulo, em 1846. Formado no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, aperfeiçoou-se em Milão graças a um apoio financeiro de d. Pedro II. Ali, conviveu com Carlos Gomes e integrou-se ao mundo operístico italiano. 

A partir de 1888, Gomes de Araújo radicou-se em São Paulo, onde permaneceu até sua morte, em 1943, participando intensamente da vida musical da cidade. Sua produção abrange quatro óperas, onze missas, obras para coro, solistas e orquestra e dezenas de canções. 

A ópera Helena é de 1906 e teve apenas uma montagem, em 1916, no Theatro Municipal de São Paulo. Segundo as notas de programa redigidas pelo maestro Gabriel Rhein-Schirato, que fez sua tese de doutorado sobre a produção lírica de Gomes de Araújo, Helena “representa uma guinada na obra do compositor tanto pela temática e características brasileiras, quanto por ser cantada em português”.

Com libreto de Bento de Camargo, inspirado livremente no romance Inocência, de Visconde de Taunay, Helena trata de um drama amoroso na zona rural do país. Segundo Rhein-Schirato, “sua cor local remonta à música regional brasileira de tradição oral”. Contudo, apesar disso, “trata-se de uma obra do romantismo, com inspiração no verismo italiano – particularmente na Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni”. 

E é mesmo sua temática brasileira e o fato de ser cantada em português que dão relevância ao título, como um documento da época em que compositores brasileiros começavam a buscar uma identidade nacional dentro de uma tradição ainda fortemente ligada aos modelos operísticos italianos. 

Porém, relativamente curta, com 40 minutos, em um ato e para uma pequena orquestra, construída sobre um libreto que não explora dimensões mais profundas do conflito, Helena não apresenta o refinamento dramático e orquestral que a ópera italiana já havia alcançado à época.

O drama amoroso, que opõe Rogério e Júlio na conquista de Helena, se desenrola em duas partes separadas por um bonito intermezzo instrumental. Nas partes, as cenas se sucedem sem interrupção. A ópera é toda construída em um crescendo dramatúrgico que leva à tragédia final, que é o assassinato involuntário de Helena – Rogério tinha a intenção de matar seu concorrente, Júlio. 

A montagem aconteceu no restaurado e bonito Teatro Carlos Gomes da capital capixaba, fundado em 1927 (ano que vem serão 100 anos). O teatro tem dimensões reduzidas, com um palco relativamente estreito, e por conta disso a encenação de Helena resultou um pouco comprimida. Da mesma forma, cerca de 40 músicos ocuparam o pequeno e apertado fosso, o que também se refletiu no resultado sonoro, um pouco distante.

Foi bom o desempenho artístico geral do espetáculo, conduzido com verve pelo maestro Rhein-Schirato. Entre os solistas, destacou-se a mezzo soprano Monique Galvão, brasileira que desenvolve sua carreira sobretudo nos Estados Unidos. Galvão exibiu uma voz aveludada e encorpada, e protagonizou as cenas mais emocionantes da noite. 

Gostei também, e especialmente, do coro, que teve uma atuação coesa e bem equilibrada – aliás, é nos bonitos coros em que mais transparece a brasilidade do universo rural da obra de Gomes de Araújo. 

No todo, a produção é cuidada e bem-acabada, com os cenários (Giorgia Massetani e Alício Silva) e figurinos (Fábio Namatame e Camile Abreu) bastante adequados. E reconhece-se o compromisso de qualidade do núcleo de criação artística do Festival, dirigido por Livia Sabag e pelo maestro Rhein-Schirato, este também responsável pelo trabalho de pesquisa e edição da partitura.

É auspiciosa a iniciativa de recuperar a ópera de um autor de importante atividade na música brasileira da virada do século passado, como foi João Gomes de Araújo. E o público que lotou o Teatro Carlos Gomes retribuiu com muitos aplausos e grande entusiasmo.

A ópera foi transmitida ao vivo pelo YouTube – clique aqui para assistir.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Vitória e assistiu à ópera Helena a convite do Festival de Música Erudita do Espírito Santo.]

Cena de Helena, produção do 14º Festival de Música Erudita do Espírito Santo (divulgação, Fabio Prieto)
Cena de Helena, produção do 14º Festival de Música Erudita do Espírito Santo (divulgação, Fabio Prieto)

 

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