Filarmônica de Dresden: a sólida tradição alemã

Há boas orquestras. E há orquestras alemãs. Em um mundo globalizado, nada mais saudável que ouvir a linguagem universal da música sendo falada com fluência com um número cada vez maior de sotaques. Porém, de vez em quando, é instrutivo retomar os referenciais que firmaram nossos paradigmas de excelência e, como na visita a um museu, retomar o contato com a tradição.

Tradição não falta à Filarmônica de Dresden, que tocou na Sala São Paulo na última segunda-feira, dia 3, na série da Sociedade de Cultura Artística. Se o eixo principal das grandes orquestras do mundo todo é o repertório austro-germânico, esse vem sendo tocado pela filarmônica com conhecimento especial de causa há um século e meio, desenvolvendo uma personalidade especial que é internacionalmente conhecida como o “som de Dresden”.

Caracterizado por calor nas cordas, nobreza e caráter nos metais, refinamento nas madeiras mas, sobretudo, extremo equilíbrio entre todos os naipes, esse som soa simplesmente como “certo” e impossível de corrigir no repertório germânico, e já impressionou no primeiro item do programa, a abertura Coriolano, de Beethoven, que o berlinense Michael Sanderling, 51, regente principal da filarmônica desde 2011, regeu com uma mescla de extrema precisão e teatralidade, conferindo densidade a uma peça que, por vezes, é tratado como mero item para abrir a noite.

Em seguida, veio o pianista Herbert Schuch, 39 – nascido na Romênia, mas radicado em solo alemão há três décadas. Devo confessar que não tinha ouvido falar dele antes de sua vinda para o Brasil, e foi uma grata surpresa identificar um toque refinado e uma sonoridade tão “germânica” quanto a da orquestra, com a qual construiu um discurso homogêneo no majestoso Concerto Imperador, de Beethoven – tocado com muito mais segurança e limpeza do que andaram fazendo solistas badalados que se arriscaram na mesma obra por aqui. Schuch mostrou ainda sensibilidade ao escolher o bis – uma execução austera do coral bachiano Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ, em transcrição do italiano radicado em Berlim Ferruccio Busoni (1866-1924), que ele gravou em disco. Em vez de fogos de artifício, a manutenção do mesmo clima que reinou em toda a primeira parte do programa.

Filarmônica de Dresden [Divulgação / Heloísa Bortz]
Filarmônica de Dresden na Sala São Paulo [Divulgação / Heloísa Bortz]

Após o intervalo, saímos da tradição alemã para ingressar em outra – a da família Sanderling. Michael teve uma carreira exitosa de violoncelista, que encerrou em 2010, e é filho do mítico Kurt Sanderling (1912-2011), o “Karajan do Leste”, que, em 1936, fugiu do regime nazista para se abrigar na URSS, dividindo a direção da Filarmônica de Leningrado com ninguém menos que Ievguêni Mravinski (1903-1988), antes de assumir postos de regência na então Alemanha Oriental.

Em seu período soviético, o Sanderling pai privou da amizade do grande compositor do país na época, Dmítri Chostakóvitch (1906-1975), sendo reconhecido como uma das maiores autoridades em sua obra. Pois bem: Sanderling filho está concluindo, com a Filarmônica de Dresden, uma gravação integral das sinfonias de Chostakóvitch para o selo Sony, a ser lançada no ano que vem, e trouxe para o Brasil uma das obras menos tocadas do ciclo, a de número 12.

Com o subtítulo “o ano de 1917”, a sinfonia, de 1961, homenageia postumamente a figura de Lênin, cita canções revolucionárias e, em seus quatro movimentos, descreve a jornada triunfante rumo à tomada do poder pelos bolcheviques, o que, em tempos de acirramento ideológico, prejudicou sua recepção no Ocidente. No CD da (excelente) gravação da peça por Kirill Kondráchin, com a Filarmônica de Moscou, para o selo Melodyia, chega-se ao cúmulo de haver um texto de encarte que fala mal da obra.

Hoje, porém, a URSS já acabou há 27 anos, e Chostakóvitch vem se consolidando cada vez mais como um dos pilares do repertório das grandes orquestras – afinal, quem mais estava escrevendo sinfonias nesse nível na década de 1960? Ouvida de forma abstrata – como fez a plateia da Sala São Paulo, que aplaudiu com empolgação –, a Sinfonia n. 12 soa como mais uma daquelas jornadas instrumentais que descrevem uma trajetória que os alemães chamam de “Kampf und Sieg” (luta e vitória) – como, por exemplo, a Sinfonia Eroica, de Beethoven. Mestre na organização de planos sonoros, e com profundo entendimento estrutural da peça, Sanderling revelou-se um guia seguro nessa jornada – e, a Filarmônica de Dresden, a executora ideal da orquestração luxuriante de um Chostakóvitch que, com meio século de vida, revelava-se pleno senhor de seus recursos técnicos e expressivos. Fiquei com vontade de ir atrás do disco quando ele sair.