O triunfo solitário do amor

por João Luiz Sampaio 04/04/2026

Montagem da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul para a ópera La Traviata ressalta as qualidades que fazem de Violeta a grande heroína de Verdi

PORTO ALEGRE – A Violeta Valéy da La Traviata apresentada pela Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul é uma personagem profundamente solitária.

Verdade, isso está em Verdi: pobre mulher, sozinha, abandonada neste deserto populoso a que chamam de Paris. Mas basta ouvir os primeiros compassos na leitura de intensidade dolorida do maestro Marcelo de Jesus à frente da Orquestra do Theatro São Pedro para nos darmos conta de que estamos diante de uma história na qual a tragédia não está na morte, dada desde o início.

Violeta é uma cortesã, personagem à margem da sociedade. É o caso também de Rigoletto. É o caso de Manrico e de sua mãe Azucena, em Il Trovatore. Um sequestro seguido de estupro, e, mais tarde, de morte; uma criança morta no fogo. São obras tão familiares que às vezes esquecemos da violência profunda que carregam. Mas, em La Traviata, o drama é outro. A tragédia se dá em vida, no momento em que Violeta opta por acreditar na possibilidade do amor.

No segundo ato, a cena com Giorgio Germont, o pai; ele reconhece a dignidade da cortesã que se dispõe a vender o que tem para pagar pelo idílio campestre com Alfredo, o filho. Mas não importa. Os dois devem se separar. E, na leitura do diretor Flavio Leite e na interpretação do barítono Licio Bruno, há ironia, perversidade em sua forma mais insidiosa. Quando pede a ele que a abrace como uma filha, sentimos com ela a dor de quem se expõe e encontra apenas o deserto.

Alfredo, por sua vez, ama Violeta. Fala como um jovem inexperiente. Mas não há nele a inocência da juventude, não no canto maduro e matizado do tenor Giovanni Tristacci. Violeta abriu mão de sua vida de luxos, de festas, casos amorosos. Por mim, entre todos os outros. Alfredo ama Violeta enquanto se admira no espelho. Atendendo ao pedido de Germont, ela deixa o amante e retorna a Paris. O pai encontra o filho, e o reduz com sua lembrança do passado. Ofendido, Alfredo vai a Paris buscar Violeta. Remendar o espelho partido.

Na festa na casa de Flora, Alfredo persegue Violeta. Ela prometeu a Germont não revelar o que houve ao rapaz. Pede que ele se vá, para seu próprio bem. “Parto, mas primeiro jure que você me seguirá onde eu for”, ele responde. Mas a súplica é cantada e encenada com ironia, sarcasmo. É um dos momentos em que a habilidade de Leite como diretor se revela, pois aproxima Alfredo do pai. Não são a mesma pessoa. Mas compartilham a mesma moral do mundo hipócrita que Verdi quer expor. E, nele, Violeta está sozinha.

A soprano Ludmilla Bauerfeldt no último ato de 'La Traviata' [Divulgação/Vitoria Proença]
A soprano Ludmilla Bauerfeldt no último ato de 'La Traviata' [Divulgação/Vitoria Proença]

 
Ludmila Bauerfeldt é uma Violeta superlativa. O adjetivo é ruim, mas é difícil achar um bom suficiente. Em cena, ela e Leite parecem encontrar sempre uma forma de destacá-la, como se não pertencesse àquele mundo – ou não fosse a ela permitido dele fazer parte. Vocalmente, ela caminha com segurança pela complexidade da personagem, o canto se multiplicando à medida em que história se desenrola: há desencanto, há a celebração da liberdade, a mão estendida para o amor, a certeza do fim. Ela e Marcelo de Jesus fazem da ária final, Addio del passato, música de câmara em sua forma mais íntima e comovente.

Sua sepultura, diz Violeta, não terá lágrimas ou flores. Não terá nome ou cruz para cobrir seus ossos. A música é tão linda quanto a imagem é horrível. “Tudo acabou.” Mas Alfredo retorna. E, com ele, a crença no amor como vida que se impõe perante a morte. Vêm, então, as últimas palavras: “Pararam os espasmos de dor. Em mim renasce, me agita um vigor. Retorno à vida.” Delírio? Talvez lucidez. Naquele mundo de preconceito e ódio, Violeta se reafirma como a heroína verdiana por excelência: aquela que não perde a fé na virtude do amor e da bondade. 
 
A produção de La Traviata, apresentada nos dias 28, 29, 30 e 31 de março, celebrou a abertura da temporada da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul e o primeiro aniversário do Teatro Simões Lopes Neto. É mais um passo do projeto que, há quatro anos, nasceu do desejo de um grupo de cantores de buscar novos espaços para a ópera no Estado. Pois os espaços  surgiram, e estão sendo ocupados.

Com essa Traviata, Porto Alegre se cacifa para reivindicar, a partir de um projeto local, alcance nacional.

Licio Bruno e Giovanni Tristacci em cena de 'La Traviata' [Divulgação/Vitoria Proença]
Licio Bruno e Giovanni Tristacci em cena de 'La Traviata' [Divulgação/Vitoria Proença]

 

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