Sinfônica de Campinas: uma jovem de 90 anos

por Jorge Coli 25/03/2019

A Orquestra Sinfônica de Campinas completa 90 anos. Está em excelente forma, com as energias da juventude e com a experiência da idade. Pude assistir, no sábado, dia 23, a um concerto de programa excelente. Foi composto por três obras de autores franceses, todas escritas sob a Terceira República que começa na França em 1870.

Primeiro, a suíte formada pela música de balé que Jules Massenet compôs para sua ópera Le Cid, estreada em 1885. Massenet partiu de um monumento universal do teatro, a tragédia Le Cid, escrita por Pierre Corneille, que toma como tema um episódio das aventuras de El Cid Campeador, herói da reconquista espanhola sobre a invasão árabe, no século XI. Massenet precisava de uma inspiração pitoresca e de cor ibérica para suas danças nessa ópera. Escolheu ritmos de diferentes regiões da Espanha, e produziu uma partitura colorida, inspirada e muito viva. Foi um regalo ouvi-la pela orquestra de Campinas, sob a batuta de seu maestro, Victor Hugo Toro: interpretação enérgica, firme, num vai em frente que ninguém segura. Essa abertura, por si só, já permitiu sentir o nível muito alto no qual se encontra a orquestra.

Em seguida, a Sinfonia espanhola, de Édouard Lalo. Obra concertante, ela exige um virtuose do violino. Escrita em 1874, trouxe para o gosto francês o exotismo da Espanha, que não cessaria de crescer, e cujo resultado mais célebre resultou na ópera Carmen, de Bizet. Lalo foi um notável sinfonista, responsável pelo renascimento das grandes peças orquestrais na música francesa depois da morte de Berlioz e do florescimento da ópera sob o Segundo Império. 

O brilho da Sinfonia Espanhola, tão vibrante, foi garantido por Winston Ramalho, violinista de alto nível, com som de pureza cristalina. Ele se juntou às qualidades da Sinfônica de Campinas e essa sinfonia, muito rapsódica, brotava natural, espontânea, feliz e sem esforços.

Em seguida, o bis, para o qual colaborou a orquestra: nada mais adequado em tal programa do que a “Meditação”, da ópera Thais, de Massenet. Essa melodia adquiriu tal popularidade como “música espiritual” que já foi muitas vezes massacrada, tornando-se mesmo favorita dos tocadores de serrote. É então que se percebe a qualidade elevada dos intérpretes, que deram a ela concentração, seriedade e verdadeira beleza.

A estupenda Sinfonia nº 3, com órgão, de Camille Saint-Saëns (1886), cuja escrita revela perfeita maestria, tanto na orquestração quanto na estrutura formal, admirável de inspiração rítmica e melódica, está entre os grandes monumentos sinfônicos da história. A orquestra se mostrou então esplêndida. Cordas com beleza sedosa (ah, as passagens dos violoncelos!), equilíbrio entre todos os naipes, e muita pulsação vital, que parece ser a atual característica maior da Sinfônica de Campinas.

Enfim, um concerto de se sair feliz como em poucos. O fato é que a Sinfônica de Campinas está, hoje, entre as mais belas orquestras do país. Afortunada a cidade que tem uma orquestra de tal qualidade. 

Eu ia escrever que ela, merecidamente, agora mais do que nunca, é o orgulho dos campineiros. Mas não gosto muito, para dizer bem, da ideia de orgulho. Porque orgulho é bom, mas não basta como satisfação. O importante é que a Sinfônica de Campinas traz cultura musical de alto nível e de alta qualidade para a cidade. É isso o que conta: um público presente e dependurado em cada som, como hipnotizado, como aquele que esteve ontem no Teatro Castro Mendes, degustando os esplendores da música francesa.

A Orquestra Sinfônica de Campinas volta a se apresentar este mês, no dia 39, no encerramento do Festival de Música Contemporânea Brasileira; veja mais informações no Roteiro Musical

Orquestra Sinfônica de Campinas [Divulgação]
Orquestra Sinfônica de Campinas [Divulgação]

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