Intimidade musical no palacete carioca

por Luciana Medeiros 11/09/2018

O primeiro movimento é o terreno: imenso e privilegiado, ocupa uma esquina nobre de Botafogo, Zona Sul do Rio. O segundo, a casa de Linneo de Paula Machado, construída na primeira década do século XX no estilo conhecido como “eclético”, cercada por jardins. O terceiro é a restauração e a ampliação do palacete – hoje, sete anos depois de comprada pela Firjan, está restaurado em todo o seu esplendor; nos fundos, um prédio de linhas arrojadas funciona como um contraponto harmônico.

Essa sonata arquitetônica na Casa Firjan começa a abrigar na quinta (13/9) uma série de concertos de câmara, inaugurada pelo pianista Cristian Budu. Até o fim do ano, cinco concertos ocupam as salas de jantar e estar, com 100 lugares: a verdadeira intimidade camerística. Na curadoria da série, o compositor João Guilherme Ripper reuniu pianistas, grupos de câmara e jazz em programas de música clássica e instrumental brasileira.

“A curadoria é um ato altamente pessoal e criativo”, define Ripper. “Vejo uma similaridade enorme com o ato da composição: é o mesmo princípio de reunir afinidades e contrastes, unidade e variedade. Compor, no sentido de montar.”

O Quinteto Villa-Lobos, a Johann Sebastian Rio, o saxofonista Leo Gandelman e um quarteto formado por Jean-Louis Steuerman (piano), Felipe Prazeres (violino), Marco Catto (viola) e Marcus Ribeiro (violoncelo) integram a programação 2018. Ripper define a escolha como “refinada, não restrita”.

Casa Firjan [Divulgação / Tania Rêgo - Agência Brasil]
Casa Firjan [Divulgação / Tania Rêgo - Agência Brasil]

“O que me guiou foi a qualidade, assim como fiz nos 11 anos à frente da Sala Cecilia Meireles, mesmo quando estávamos em reforma e trabalhamos em outros palcos, inclusive inusitados. Um exemplo? Fizemos concerto de música contemporânea dentro da piscina do Parque Lage.”

Budu vai tocar nessa quinta duas peças-mosaico: a Kreisleriana de Schumann e os Prelúdios de Chopin. Também o pianista fala em unidade na diversidade ao descrever os contrastes presentes nas duas peças: “Os dois compositores, contemporâneos, criam ambientes emocionais que oscilam entre luz e sombra, tristeza e arrebatamento. Mas quero crer que minha paixão por essas duas peças transmita a unidade de cada uma, um arco coerente em suas oscilações”.

Budu trabalha pela música de câmara em seu projeto Pianosofia, que leva grupos a residências – uma ideia que nasceu em seu período de estudo em Boston. Os colegas do New England Conservatory promoviam saraus. Aqui no Brasil, Budu montou sua ideia para “acordar pianos mudos”, como diz, mas principalmente visando a reunião dos músicos em grandes ensaios coletivo, estimulando a troca de ideias e a performance camerística.

Da mesma forma, Ripper relembra seu período de doutorado em Washington, D.C., quando comparecia a saraus em residências. “E é isso que me inspira aqui. Quando vi a Casa Firjan, também me lembrei dessa maravilhosa combinação de música e residências, o refinamento somado à intimidade. É essa a minha ideia aqui. Que os cariocas aproveitem.”