A Odisseia, Demódoco e a música

por Nelson Rubens Kunze 20/08/2026

O mistério das artes é o mistério de nossa existência

Assisti ao filme Odisseia, de Christopher Nolan, superprodução de mais US$ 250 milhões, que está nos cinemas de todo mundo. Li alguns artigos e fiquei surpreso com o interesse que o filme despertou e desperta nos círculos acadêmicos e intelectuais. Interessantes reflexões sobre a liberdade de interferir na história, sobre passagens que teriam sido distorcidas e sobre o próprio caráter do herói Odisseu.

Como a essa altura acho que todos já sabem, o filme é baseado em poema de Homero, que se acredita viveu na virada dos séculos IX ao VIII da era pré-cristã. Ele é tido como o mais antigo poeta da civilização Ocidental. Homero é o autor de duas obras que definiram o conceito do épico: a Ilíada, que conta sobre a Guerra de Troia, ocorrida uns 300 anos antes (portanto lá por volta de 1.200 aC), e justamente a Odisseia, que narra as aventuras de Odisseu, que é conhecido por Ulisses na mitologia romana. 

Em realidade, até hoje não há provas de que a Guerra de Troia tenha mesmo ocorrido. E, mais enigmático ainda, nem se sabe ao certo se o poeta Homero tenha de fato vivido. Há uma versão defendida por muitos historiadores de que as obras a ele atribuídas sejam criações coletivas recolhidas e recontadas oralmente ao longo dos séculos. Os poemas teriam sido finalmente compilados apenas muito tempo depois, por volta do século VI antes de Cristo.

O grego Odisseu, protagonista da Odisseia, foi um dos heróis da guerra, foi ele que teve a ideia do famoso cavalo de Troia. Em poucas palavras, a história é a seguinte: depois de muitos anos guerreando para resgatar a bela Helena – mulher do grego Menelau –, que havia sido raptada por Páris, os gregos simulam que desistiram e que se retiraram do campo de batalhas, abandonando ali apenas um grande cavalo de madeira. Os troianos, inicialmente desconfiados, acabam acreditando e imaginam que o cavalo seja um presente e levam-no para dentro de suas muralhas. Uma vez em Troia, os guerreiros gregos, que haviam se escondido dentro do cavalo, esperam a noite para finalmente assaltar os troianos, resgatar Helena e vencer a guerra.

O livro Odisseia – e o filme de Nolan – narra as desventuras enfrentadas pelo herói Odisseu em seu retorno a sua terra natal, Ítaca.

O livro Odisseia – e o filme de Nolan – narra as desventuras enfrentadas pelo herói Odisseu em seu retorno a sua terra natal, Ítaca. Quando finalmente a guerra terminou, já fazia 10 anos que Odisseu tinha partido deixando para trás sua mulher Penélope e seu filho recém-nascido, Telêmaco. Mas foram quase mais 10 anos para que o herói conseguisse voltar à casa, vencendo toda sorte de infortúnios. Sua aliada era a deusa Pallas Atenas, que habilmente ludibriava o deus Poseidon, que queria se vingar de Odisseu por ele ter cegado o seu filho.

Não vou entrar no mérito dessa nova produção hollywoodiana do épico (ao custo acima ainda devem ser somados mais uns US$ 120 milhões em marketing!), até porque não gostei muito. Quero contar sobre uma passagem da Odisseia que acho especialmente emocionante, mas que não está no filme.

Em uma de suas últimas aventuras antes de alcançar Ítaca, Odisseu é recebido pelo povo dos Feácios e seu rei Alkinoos. Para homenagear o visitante, Alkinoos convoca o músico Demódoco para uma apresentação. E ali, na Odisseia de Homero – creio que pela primeira vez na história da humanidade –, temos um registro sobre as artes, a poesia e a música. 

Conheço a Odisseia de uma versão romanceada, traduzida e escrita em alemão por Karl Friedrich Becker, em inícios do século XIX. Tem lá uma passagem bem bonita, e sugestiva da importância que então era conferida ao artista, que reproduzo aqui (em minha livre tradução):

“Entre todos os povos, há pessoas especiais que combinam uma incrível potência de emoção e compreensão com um espírito brilhante, em cuja alma tudo que nos cerca é mais vivo e se impregna com maior intensidade. Essas pessoas, cujo fino senso receptivo de uma bela região, de um grande feito e de qualquer coisa que toca os outros apenas fugazmente, encantam-se e emocionam-se de maneira visceral.

Elas então não conseguem conter em si a euforia. O que percebem como belo, querem também apresentar aos outros de forma bela, o que as comove, querem também que comova os outros.

Para isso, a linguagem da vida comum já não lhes é suficiente. Elas então falam, como se estivessem em um delírio, e se entregam a reviravoltas verbais surpreendentes, a expressões inventadas, a parábolas inesperadas e ousadas. E essas pessoas sempre são também cantoras.

Esses espíritos poéticos são encontrados, repito, em todos os povos e épocas, e sua natureza e criação normalmente se revelam mais significativas quando eles pertencem a um povo de formação mais simples. Pois ali são eles normalmente os verdadeiros mestres da sabedoria e os únicos cuidadores e defensores do que chamamos de arte. 

Se há um instrumento de cordas, sua fala se torna uma canção, as palavras se juntam naturalmente à pulsação da música, e assim surge um verso lindamente medido, cuja melodia harmoniosa alimenta e aumenta o entusiasmo do poeta e cativa ainda mais intensamente os ouvintes. 

O povo fica espantado e já não consegue reconhecer no cantor uma simples pessoa. Parece que é um Deus que fala por seu intermédio. A força maravilhosa que toma o cantor só pode ser insuflada por um ser superior. Sim, o próprio cantor, que então se sente capaz de cantar qualquer coisa, também está convencido de que naquele momento um Deus governa seu coração.

Entre os gregos, nos tempos descritos por Homero, havia cantores que, protegidos e abençoados pelos deuses, gozavam de tratamento especial e eram respeitados e venerados. Eles aparecem nos banquetes dos príncipes, glorificam a memória de seus antepassados e, ao mesmo tempo em que lisonjeiam a ambição, também oferecem por meio de sua arte uma lição de rica formação.

Um desses cantores era Demódoco, que o arauto deve agora levar à casa de Alkinoos. 

Demódoco era cego, mas sua memória estava cheia de histórias gloriosas, que sabia contar de maneira admirável, enquanto sua mão agitava vigorosamente as cordas do fórminx [um tipo de cítara]. Este era o instrumento que não só conduzia as danças, como também acompanhava a execução das canções.”

Na Odisseia descobrimos que as musas haviam dado a Demódoco o conhecimento da história e o talento para doces canções, mas em troca tinham lhe tirado a visão.

Na Odisseia descobrimos que as musas haviam dado a Demódoco o conhecimento da história e o talento para doces canções, mas em troca tinham lhe tirado a visão. Nos relatos de Homero, o cantor cego depende de seus compatriotas, que sempre o levam pela mão e cuidam dele.

Como todos os mitos, a Odisseia é repleta de simbologias: no caso de Demódoco, apesar de ser cego, portanto vulnerável e dependente, a narrativa sugere que o artista é portador de algo divino e que ele tem poderes de vislumbrar acontecimentos. 

Gosto de pensar que a consciência humana está ligada à nossa percepção artística. Bem antes de Homero, demos o salto à consciência, que então nos distinguiu dos outros seres vivos, quando nos demos conta dos sons que produzíamos, emitindo grunhidos como “cantos”, batendo palmas ou pisando o chão. Depois, desenhando nas cavernas as imagens que nos cercavam. É a fantasia em nossas mentes que nos deu consciência e humanidade.

De Homero e Demódoco para cá passaram-se quase 3 mil anos e filósofos seguem quebrando a cabeça para procurar cercar com palavras o mistério das artes, de sua emoção, de sua função ou de sua comunicação – o mistério de nossa existência.

E assim seguiremos...

PS. Há quase 400 anos, o compositor Claudio Monteverdi (1567-1643), um dos “inventores” do gênero ópera, escreveu, sobre o mesmo assunto, Il ritorno d’Ulisse in patria (O retorno de Ulisses à pátria). 

Odisseus chora ao ouvir o cego Demódoco cantando sobre a Guerra de Troia (reprodução)
Odisseus chora ao ouvir o cego Demódoco cantando sobre a Guerra de Troia (reprodução)

 

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