András Schiff e Guido Sant'Anna fazem recital histórico no Teatro Cultura Artística

Pianista húngaro e jovem violinista brasileiro se uniram para interpretar um Himalaia do repertório, a Sonata Kreutzer, de Beethoven

Não parece exagero declarar histórico o concerto acontecido no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, na última terça-feira, dia 9. Afinal, não é todo dia que um jovem artista brasileiro é conduzido ao Olimpo da música de concerto por um dos deuses que lá habitam. Foi o que aconteceu ao violinista paulistano Guido Sant’Anna, 21, alçado às culminâncias de sua arte pelo pianista magiar András Schiff, que completa 73 anos em setembro.

Schiff leciona desde 2018 na Academia Kronberg, localizada na pequena Kronberg am Taunus, no estado alemão de Hessen. Lá ele teve oportunidade de trabalhar com Guido, com o qual tocou no prestigioso Wigmore Hall, em Londres. Em entrevista à Revista CONCERTO, ele não poupou elogios ao jovem: “Guido é um talento brilhante, muito original e incomum. Em uma idade tão jovem já tem sua própria voz, sua própria personalidade forte. O Brasil deveria ter muito orgulho dele e lhe dar todo apoio”.

Pois bem: o pianista não ficou só nas palavras. E chamou Guido para dividir o recital que deu na capital paulista.

A apresentação começou exatamente como a última que ele fez na Sala São Paulo, em 2023: de Bach, a Ária das Variações Goldberg, seguido pelo Capriccio sopra la lontananza del suo fratello dilettissimo. Um pouco mais lacônico do que de hábito (ele não anuncia o repertório com antecipação, e conta no palco o que vai executar), Schiff passou um sabão no público (“podem continuar a tossir a noite inteira, vou ficar contente”) antes de atacar o Concerto Italiano de forma sábia e saborosa. Em Bach, ele entrega cada uma das linhas do contraponto com clareza e nitidez assombrosas, dando aula de bom gosto tanto nas escolhas de ornamentação, quanto nas seções lentas, que mantém o lirismo sem ficarem arrastadas ou excessivamente sentimentais.

Schiff não chega a viajar com seus pianos, mas trouxe consigo o afinador Ulrich Gerharz, que fez questão de elogiar ao microfone, e que ajustou para ele, de forma bastante distinta, os dois pianos que ocupavam o palco do Cultura Artística. Do instrumento bachiano, ele pulou para um segundo, no qual começou a preparação para Beethoven.

Pois é difícil não ver elementos Sturm und Drang nas Variações em fá menor, de Haydn, de 1793. Uma revolução derrubara o rei da França no ano anterior, e sente-se um mundo em transformação. Não é só o cravo que abre passagem ao fortepiano; é toda uma nova sensibilidade romântica que parece se insinuar no discurso musical. Se os compositores do século XVIII não escolhiam as tonalidades ao acaso, reservando o modo menor para a expressão do drama, Schiff o faz de maneira ainda mais premeditada: a uma leitura de Haydn finamente matizada, sucedeu-se uma obra anterior de um compositor mais jovem: a Fantasia em dó menor K. 475, de Mozart, na qual o estereótipo de um Amadeus jovial e saltitante cede lugar a um Wolfgang humano e angustiado.

Datada de 1785, a obra soa como precursora da ópera Don Giovanni, dois anos posterior, e Schiff, após levar ao palco toda a teatralidade mozartiana, brindou-nos finalmente com Beethoven – o Novo Testamento de sua Bíblia particular (o Velho, obviamente, é Bach). O pianista já executou algumas vezes a integral das sonatas do mestre de Bonn e, para São Paulo, elegeu, assim como em 2023, a Sonata Tempestade – de 1801-2, e não por acaso, em ré menor. Dessa vez ele preferiu não alertar a plateia para sua escolha heterodoxa de tempo no último movimento, um Allegretto que ele toca bem menos rápido do que reza a tradição. 

Foi um recital completo no escopo, complexidade e tamanho, no qual a concentração do pianista não se abalou sequer com os toques de celular, que se revelaram ainda mais insistentes do que as tosses de uma noite paulistana atipicamente fria para esta época do ano. Restava o suspense: o que nos esperava depois do intervalo, quando Guido Sant’Anna subisse ao palco? Talvez algo menos denso e complexo, para o violino brilhar com efeitos fáceis e o piano “descansar”, fazendo um acompanhamento elementar?

A resposta foi dada pelo próprio Guido, alto e bom som, assim que o duo entrou em cena: nada de concessões. Mais Beethoven. Não existe “qualquer Beethoven”, e este certamente não era um Beethoven qualquer, senão um Himalaia do repertório violinístico: a Sonata Kreutzer. Escrita logo depois da Tempestade, em 1803, a peça tem caráter inovador na duração (cerca de 45 minutos) e na dificuldade técnica, demandando virtuosismo de concertista do violino, com uma parte não menos exigente para o piano. O primeiro movimento da peça pareceu brotar das águas turvas da Tempestade que fechara a primeira parte, e Schiff, que nos entregara uma sonata arrebatadora, manteve-se envolvente aqui, dialogando com o brio e a personalidade marcante de um Guido que tocou tudo de cor.

A Kreutzer inspirou ao escritor russo Lev Tolstói uma perturbadora e intensa novela homônima. Entusiasmado com o primeiro movimento da sonata (“essa sonata é uma coisa terrível. Exatamente esse movimento”), ele descreveu os seguintes como “um andante lindo, porém corriqueiro, nada novo, com variações vulgares, e um final absolutamente fraco”.

Bem, o conde estava longe de acertar sempre. Essas palavras podiam até servir para descrever uma execução rotineira na zona rural russa do século XIX, mas estão longe de serem aplicáveis ao que se ouviu terça-feira na Sala São Paulo. Nada “vulgares”, as variações do segundo movimento revelaram-se o coração anímico da obra, onde Guido e Schiff tangenciaram a transcendência, com picos de elevação espiritual seguidos por um final não “absolutamente fraco”, e sim empolgante.

Um recital incomum pedia um bis raro. Ampla e justamente ovacionados, Schiff e Guido saíram-se com o primeiro movimento da primeira sonata de Brahms, executado com uma maturidade e sabedoria que deixaram muita vontade de ouvir a obra na íntegra. Mais aplausos, e daí um bis com cara de bis: Schön Rosmarin, de Kreisler, o breve momento em que o generoso Schiff deixou de ser o mentor e parceiro ao piano para exercer a função de acompanhador. Afinal, era Schiff quem emprestava sabedoria a Guido, que lhe retribuía com vigor, ou passava-se o contrário? Pouco importa. Nascidos com cinco décadas e dez mil quilômetros de distância, pianista e violinista demonstraram uma química que superou fronteiras e gerações, embaralhando as noções de mestre e discípulo e evidenciando a magia da música enquanto diálogo. 

[Schiff volta a se apresentar no Teatro Cultura Artística na quinta-feira, dia 10; veja mais detalhes aqui.]

Schiff e Sant'Anna na Academia Kronberg [Divulgação/Andreas Malkmus]
Schiff e Sant'Anna na Academia Kronberg [Divulgação/Andreas Malkmus]

 

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