Escola de Música de Piracicaba encerra atividades; Rede Metodista não respondeu a questionamento da Revista CONCERTO
A Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle (Empem) – fundada em 1953 e responsável por formar gerações de músicos que hoje ocupam orquestras, universidades e palcos no Brasil e no exterior – encerrou as suas atividades. Após o leilão do prédio em novembro do ano passado, consequência da crise financeira da Rede Metodista, a instituição foi obrigada a desocupar o imóvel. O prazo de 180 dias para a saída venceu, sem qualquer comunicado claro à comunidade, e desde então a escola está com as portas fechadas. A prometida transferência para o Colégio Piracicabano, divulgada pela Unimep como garantia de continuidade, não se materializou.
A Revista CONCERTO buscou informações com a Empem, a Unimep e o Colégio Piracicabano, por WhatsApp e por e-mail, sem resposta. Finalmente, na sexta-feira, dia 11 de setembro, conseguiu contato por telefone com uma pessoa que afirmou ser “intermediária” da Rede Metodista em Piracicaba, mas que não quis dar declarações sobre a Empem nem tampouco fornecer o contato de algum responsável que pudesse responder aos nossos questionamentos. Contudo, a pessoa confirmou que de fato as atividades estão suspensas, “uma pausa para encontrar um novo formato”. Questionada ainda sobre o acervo e os instrumentos da instituição, disse primeiro que estariam buscando interessados para em seguida corrigir-se, afirmando que ainda se aguarda a definição da Rede Metodista em relação ao futuro da escola.
A Escola de Música de Piracicaba foi fundada há mais de 70 anos pelo compositor Ernst Mahle e sua esposa, a professora Cidinha Mahle. Sob a liderança de Ernst Mahle – compositor, maestro e figura central da vida musical brasileira, falecido no ano passado – a escola se estabeleceu como referência em educação musical. Ao longo de sua história, a instituição reuniu um acervo de mais de 17 mil partituras e adquiriu um importante conjunto de instrumentos musicais, que inclui pianos e um órgão. Graças ao trabalho do casal Mahle, a Empem tornou-se um dos mais importantes centros de formação e irradiação da cultura clássica no Brasil.
Em 1998, com o intuito de garantir o futuro da Escola de Música de Piracicaba, o casal Mahle transferiu-a para o Instituto Educacional Piracicabano (IEP), entidade mantenedora do Colégio Piracicabano e da Universidade Metodista de Piracicaba.
Hoje, porém, o cenário é desolador. A cidade e a comunidade musical assistem perplexas e impotentes ao desaparecimento gradual desse valioso patrimônio cultural.
Hoje, porém, o cenário é desolador. A cidade e a comunidade musical assistem perplexas e impotentes ao desaparecimento gradual desse valioso patrimônio cultural
A professora Cidinha Mahle, aos 94 anos, lamenta: “Está muito difícil enfrentar tudo isso que aconteceu com a escola. Não houve nenhum propósito por parte da das autoridades em Piracicaba. Não deveria acontecer isso, deveriam ter feito algum esforço para que isso não acontecesse. [...] Acabou-se a história da escola de música, tudo que foi... a escola está fechada. O que sobrou foi levado para o Colégio Piracicabano, o que vai ser de tudo aquilo lá eu não sei”.
O organista piracicabano Julio Amstalden, cuja formação musical deu-se também na Empem, escreveu em sua página no Facebook: “Há tanto o que ser lamentado! Há tanta obtusidade, tanta pequenez envolvida! Não é só a traição daqueles a quem a Escola foi confiada, na esperança de sua perpetuação, mas a falência total de um sistema de valores e crenças. Desde o momento em que a Escola foi transferida para mãos metodistas, nunca acreditei que isso daria certo, pois desde o início era muito claro para mim que os metodistas estavam muito longe de entender a obra de Ernst e Cidinha Mahle. Eram dois universos muito distintos, de trajetórias cujos traçados sempre foram paralelos, sem nenhuma convergência. Com todo o respeito, foi um imenso erro! E há que se lamentar ainda a indiferença de Piracicaba. Com certeza, essa cidade não mereceu sua famosa Escola de Música. A cidade também nunca entendeu as dimensões do que havia lá, físicas, artísticas e intelectuais. A Escola de Música de Piracicaba foi assassinada e seu corpo foi jogado numa vala comum, ante a indiferença de um coletivo”.
Já Renato Bandel, que iniciou seus estudos na Escola de Música de Piracicaba, formou-se na Academia da Filarmônica de Berlim e hoje é um dos principais violistas do Brasil, afirmou: “Sim, é uma tragédia. Essa escola formou gente que está espalhada pelas melhores orquestras e universidades do Brasil e do exterior. No Festival de Campos do Jordão deste ano, havia vários ex-alunos no corpo docente: eu, Fernanda Krug, Eliane Tokeshi, Rosnei Tuon, Washington Barella e Wilson Sampaio, além de Gabriel Marin, que é piracicabano e foi meu aluno. Isso, por si só, já diz muita coisa sobre o legado do casal Mahle”.
Bandel segue: “Eles confiaram na Unimep como uma universidade que valorizava as artes. Mas, quando a instituição entrou em recuperação judicial, a primeira coisa que fizeram foi vender o prédio da escola com tudo dentro: biblioteca, arquivo musical e instrumentos. A escola ficou abandonada, suja, infestada por ratos; houve roubo de fiação e o local ficou sem energia elétrica por um tempo. Um verdadeiro caos. [...] Tentamos nos movimentar. Liguei para chefes de departamentos da USP e da Unesp para ver se as universidades não teriam interesse em abrir um campus na escola. Falei com um ex-prefeito do PT, que tem intimidade com o presidente, sugerindo a abertura de um instituto federal. Fizemos uma manifestação em frente à escola com cartazes, música e presença da imprensa. Tudo em vão. A cidade é muito provinciana. Para o piracicabano, o fechamento da escola não fez nenhuma diferença. Ninguém protestou”.
E, digo eu, o que revolta mais é a indiferença das autoridades públicas. Nesse mundo tecnocrático governado por planilhas orçamentárias frias e mercantilistas – em que até a nossa Secretaria da Cultura passou a se chamar “Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas” – o humanismo está sendo asfixiado.
Parodiando o mote dos indígenas, “primeiro morrem as escolas de música, depois morremos nós...”
Leia mais
Prédio da Escola de Música Ernst Mahle, em Piracicaba, será vendido em leilão público
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.