Rondon, Eunice Katunda e a música brasileira

por João Marcos Coelho 27/06/2019

A foto abaixo foi tirada no dia 26 de abril de 1914. Assinalou o término de uma expedição de dois meses pela Amazônia. Dos 22 integrantes originais, três morreram. Dos 19 restantes, 16 eram brasileiros, 3 norte-americanos. Além do ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, também participou seu filho Kermit. 

Apesar de Rondon já ter feito aquele roteiro duas vezes e ter atuado como parceiro de pesquisas científicas dos membros da expedição, era considerado internacionalmente apenas como “guia” de Roosevelt. Em 1930, o New York Times referia-se a Rondon como “o guia nativo do coronel Roosevelt”, uma espécie de Tonto para seu Cavaleiro Solitário, brinca o jornalista norte-americano Larry Rohter em sua excepcional biografia do brasileiro, recém-publicada pela Companhia das Letras. 

Amazônia, 1914: Theodore Roosevelt (apoiado no marco) e o coronel Cândido Mariano da Silva Rondon (à direita do marco, com as mãos nos bolsos da farda) [Reprodução]
Amazônia, 1914: Theodore Roosevelt (apoiado no marco) e o coronel Cândido Mariano da Silva Rondon (à direita do marco, com as mãos nos bolsos da farda) [Reprodução]

Rohter, ex-correspondente do NYT no Brasil por 10 anos, entre 1998 e 2008, ficou conhecido por uma matéria daquele período em que anotou o gosto excessivo do ex-presidente Lula pela bebida, especialmente a cachaça – quase foi expulso do país. Rohter usou férias e tempo livre para reparar esta tremenda injustiça histórica: Rondon era “um destacado cientista que falava quatro línguas europeias com tanta fluência quanto falava pelo menos meia dúzia de línguas indígenas”. Para a opinião pública nos EUA – isso até a publicação simultânea deste livro também por lá – “a ideia de um cientista indígena que sabia falar francês e ainda por cima era um intelectual e militar” parecia “simplesmente ridícula”. 

E o que isso tem a ver com música?, dirá um leitor mais rigoroso. Bem, em suas expedições Rondon foi o primeiro a incluir equipamentos de gravação para registrar a música das tribos com as quais teve contato. Material preciso. Mas não é só isso. Você lê como um romance o livro de Rohter. Com a vantagem de que nos ajuda a entendermos melhor a grandeza de Rondon, criador do Serviço de Proteção dos Índios, responsável pela integração do Norte/Nordeste ao restante do país pela telegrafia e – pasmem – o maior contribuinte individual de espécimes de plantas e minerais do Museu Nacional do Rio de Janeiro (não sabemos o que se salvou desta contribuição inestimável no incêndio recente). 

As primeiras cem das quase 600 páginas são reveladoras. Rondon venceu todas as condições adversas que enfrentou para realizar seu sonho. Da infância pobre em Mimoso, no interior do Mato Grosso, filho de mãe descendente dos Turuna e dos Bororo, e durante 70 anos, venceu todo tipo de obstáculos para ser decisivo para a integração “deste país continental”, como gostam de repetir os políticos.
 
A história de Rondon me lembrou um episódio vivido pelo pianista chileno Claudio Arrau na fronteira com a Alemanha. Entregou seu passaporte e o guarda perguntou-lhe o que iria fazer em Berlim. Caiu na gargalhada quando Arrau respondeu: “Tocar Beethoven”. Era inimaginável que um sujeito nascido num fim de mundo se atrevesse a tocar Beethoven para os berlinenses.

Mal comparando, esta é a luta que travaram e travam todos os músicos não-europeus para se afirmarem internacionalmente. Como uma pianista nascida em São João da Boa Vista, interior do Estado de São Paulo (Guiomar Novaes), ou um maestro-tubista nascido no interior do Ceará, em Iguatu (Eleazar de Carvalho) conseguiram ultrapassar tantas barreiras? Mal comparando (sou obrigado a repetir o mote), é como a gente ter preconceito contra o Lang Lang só porque ele é chinês. Quando ele surgiu, no final dos anos 1990, a prestigiosa revista inglesa Gramophone destruiu-o numa crítica a um CD. Mas o poder econômico falou mais alto – afinal, o mercado chinês não se mede aos milhões, mas aos bilhões de consumidores potenciais – e a revista deu capa numa de suas edições seguintes ao prodígio asiático (e imediatamente curvou-se re$peitosamente  ao talento dele). Recentemente, a revista teve uma recaída, e caiu de pau no horrível Piano book recém-lançado, em que ele toca até Für Elise e recomenda, com pretensos objetivos pedagógicos, “toque com o coração”. Tocar a música do caminhão de gás “com o coração”. Pode? É preciso julgar os músicos pelo que eles fazem, ou seja, pelo modo como interpretam e recriam a música. E não por seu país natal. Eleazar, único maestro brasileiro que regeu praticamente todas as grandes orquestras do planeta, que o diga.

Mas me desviei do raciocínio inicial. O fato é que, como a música clássica é uma linguagem fundamentalmente europeia, branca e que se pretende hegemônica em relação às demais tradições musicais do planeta, todo não-europeu sofre um bocado para se afirmar. Terminei de ler outro livro fundamental, Eunice Katunda – musicista brasileira, de Carlos Kater. E me convenci de vez de que todo músico brasileiro passa, em sua educação musical, por uma lavagem cerebral que o leva a perseguir o “ideal europeu”. Depois, ao longo da carreira, vai progressivamente conseguindo livrar-se (uns mais, outros menos, e ainda outros nunca) desta canga que os impede de enxergar outras tradições musicais – inclusive as do país em que nasceram e vivem. Olhemos um pouco para nossa realidade. Assim nos ensinaram Rondon e Eunice Katunda.

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