Construindo sonhos

por João Luiz Sampaio 21/06/2019

Em 2005, a convite do maestro Roberto Tibiriçá, fui a Heliópolis conhecer o projeto do Instituto Baccarelli. Lembro do impacto provocado pela cena: no começo da Estrada das Lágrimas, em uma antiga fábrica de sucos, antigas salas frigoríficas haviam se transformado em espaços de estudo para violinistas, violoncelistas, contrabaixistas. Em um hall um pouco mais amplo, ensaiava a Sinfônica Heliópolis. A cena parecia irreal.

Ao longo da manhã, porém, tudo foi ficando muito claro. Conheci os irmãos Edilson e Edmilson Venturelli, diretores do instituto, que me contaram a respeito da nova sede que estava sendo projetada – e que acabaria sendo inaugurada em 2009. E fui apresentado ao maestro Silvio Baccarelli. Ele contou, rapidamente, como tudo surgiu, ou seja, como as imagens do incêndio que destruiu Heliópolis em 1995 fizeram com que ele resolvesse criar um projeto para ajudar as crianças da comunidade, abrindo em sua própria casa na Vila Mariana um espaço para que tivessem aulas de música.

Ele, então, fez um comentário que mexeu comigo. “A gente ensina música”, disse, “para que essas crianças aprendam a descobrir a própria voz que têm na sociedade”. Mais do que isso, pensei. Em comunidades carentes como Heliópolis, falta tudo para elas: educação de qualidade, saneamento básico, condições adequadas de moradia, hospitais e assim por diante. O mais cruel, no entanto, é que elas perdem o direito de sonhar. “Como uma criança cresce querendo ser médica se não tem nenhum médico no círculo em que ela vive? Advogada? Engenheira? O que a gente acredita é que a música e a imaginação devolvem esse poder de sonho. Um aluno nosso estuda música não necessariamente para virar músico mas para ser lembrado de que pode ser o que quiser na vida”, completaria Edmilson naquela primeira conversa.

Sinfônica Heliópolis [Divulgação]
Sinfônica Heliópolis [Divulgação]

Ao longo do tempo, o Instituto Baccarelli tornou-se símbolo de uma das mudanças principais pelas quais passou o meio musical brasileiro. O crescimento no número de concertos, os novos padrões de excelência trazidos pela Osesp, a descentralização da atividade, que deixou de ter o eixo Rio-São Paulo como foco único, tudo isso veio acompanhado de uma revisão também no preparo de jovens músicos. E, nesse sentido, é preciso lembrar que ela esteve associada, nas últimas duas décadas, a projetos que, como o Baccarelli ou o Neojiba, em Salvador, pensaram a formação musical combinada à inserção social, fundamental em um país desigual como o nosso – um fato incontornável para quem se debruçar sobre nossa história recente.

Defendi e defendo essa tese há algum tempo – e acredito que essa mudança na formação musical poderá levar, a médio prazo, a uma mudança no meio musical como um todo, talvez mais inclusivo e diversificado. É esse, ao menos, o conceito. Mas, em 2017, fui convidado a dar aulas no Instituto Baccarelli; primeiro, palestras para os músicos da Sinfônica Heliópolis a respeito dos programas que eles apresentariam, às quais se somou um curso sobre história da arte. Recentemente, montamos também um grupo que produz, em conjunto, as notas de programas das apresentações da orquestra.

E o conceito ganhou outras cores.

Ainda que um projeto como o Baccarelli seja símbolo de uma mudança estrutural no meio musical brasileiro, não podemos nunca esquecer a enorme riqueza individual que seu alunos representam. Há desejos, sonhos, frustrações, medos, angústias, planos. Em vários momentos, conversas sobre compositores ou períodos históricos transformaram-se em debates, às vezes acalorados, sobre questões pessoais, visões de mundo, noções políticas. E em conversas sobre o papel de um músico na sociedade, sobre como um artista pode de fato ajudar a construir uma sociedade diferente, mais justa, inclusiva. E sobre uma transformação no meio musical que venha de dentro, encabeçada por aqueles que, no dia a dia, entendem que seu papel é levar a música que fazem a um público cada vez maior – como uma questão de sobrevivência, sim, mas também de transmitir uma mensagem de transformação que a eles foi passada.

Na diversidade que uma turma de cem ou mais músicos sugere, há naturalmente diversas visões a esse respeito. Mas o que me parece ser o legado fundamental do trabalho de Silvio Baccarelli e daqueles que levaram adiante a ampliaram sua visão é mostrar que cada uma delas de fato importa – e que há espaço para que cada um deles entenda que seus sonhos, desejos, frustrações, medos, angústias e planos são importantes demais, porque a reflexão sobre eles tem a ver com o mundo musical que, assim eles entendem, cabe a eles ajudar a construir.

Estive muito pouco com Silvio Baccarelli. 

Mas conviver com o resultado de seu trabalho tem sido um enorme aprendizado.