Por Liana Vasconcelos [é Bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Pós-doutoranda em Artes Cênicas pela Unirio, professora de História da Dança da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e da Pós-Graduação em Ensino de Dança Clássica e Embaixadora do Rio de Janeiro]
A memória e a história da dança no Brasil são dois universos que necessitam de atenção. Se a dança cênica nesse país já se desenvolve há bastante tempo, a pesquisa sobre sua história e memória e, sobretudo, as iniciativas de preservar seus registros ainda são bastante escassas diante da imensidão de nosso território.
Segundo o pesquisador Roberto Pereira (1965-2009) em sua obra A formação do balé brasileiro, de 2003, Edméa Carvalho foi uma das pioneiras na pesquisa da nossa história da dança, lançando em 1962 o livro O ballet no Brasil, que continha informações sobre o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ). Já em 1989, o bailarino e pesquisador Eduardo Sucena (1920-1994) lançou o livro A dança teatral no Brasil, publicação que é uma referência obrigatória para todos aqueles que estudam e querem conhecer a dança feita no país, a partir de seus pioneiros. Entretanto, em seu artigo “Um espaço de tempo”, publicado em 2008 no livro Histórias em movimento: biografias e registros em dança, Inês Bogéa afirma que, “na dança do Brasil há muita história ainda para ser contada. No momento em que não há memória entramos numa amnésia generalizada; e o novo vem desprovido de referências, num eterno refazer, por vezes involuntariamente esvaziado de significado pela repetição”.
A necessidade de criar espaços, símbolos e registros, de construir monumentos e instituir datas comemorativas se deu porque a capacidade humana de lembrar ocorre fora da experiência vivida, provocando com isso uma ritualização da memória. A perda e a degradação dos meios de memória levaram à criação dos chamados “lugares de memória”, conceito instituído pelo historiador Pierre Nora. Devido à falta de uma memória espontânea, foram gerados arquivos e materiais que a substituíram e têm como função relembrar o passado constantemente, mantendo ativos os vínculos de identidade social e histórica.
Todavia, em termos de acervo e lugares de memória da arte da dança, o Brasil ainda está muito aquém do que poderia ser. Primeiramente, são raros os espaços físicos, arquivos, museus ou centros culturais com trabalho ininterrupto, especializado especificamente na memória e na história da dança brasileira como um todo, abrangendo as suas mais diversas modalidades e estilos. Isso dificulta tanto a concentração de todo o material histórico que se tem de dança, quanto a propagação desse conhecimento à classe artística e à sociedade em geral. É preciso lembrar da existência do Museu da Dança, em Joinville, Santa Catarina, que é dividido em dez salas voltadas a elementos ligados à dança como figurinos de apresentações consagradas, representações de cenários, dança e tecnologia além de uma sala dedicada ao Festival de Dança de Joinville e diversos estilos com exposições sazonais. O acervo possui peças de diversas regiões do Brasil e exterior.
Vale ressaltar que a documentação é uma ferramenta política para disputa de espaço no campo da cultura e que a ausência de um acervo documental diminui a força e a voz da dança no país, assim como a importância e o reconhecimento de seus construtores. Vale relembrar também que apenas agora, em 2026, foi sancionada a Lei nº 15.396/2026, conhecida como Lei da Dança, regulamentando oficialmente a profissão no Brasil, após muitos anos de tramitação e luta. Portanto, toda instituição ou iniciativa que tem como missão a preservação da memória e da história da dança brasileira merece ser reconhecida e tornada visível ao público.
Uma das maiores ações já realizadas para a dança, em nível nacional, foi o Mapeamento da Dança. A proposta surgiu no âmbito do Colegiado Setorial de Dança (Cnpc/Minc), no ano de 2010, e o seu projeto foi apresentado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). O mapeamento foi uma pesquisa de diagnóstico que buscou identificar agentes da dança (indivíduos, grupos e instituições) que atuam nas áreas de formação e produção artística, o que viabilizou a construção de um panorama da dança que abrange aspectos da dimensão social, econômica e artística da área. O trabalho foi desenvolvido pelo grupo de pesquisa Proceda (Processos Corporeográficos e Educacionais em Dança), com coordenação geral da Profa. Dra. Lúcia Matos (PPGDança – Ufba) e vice- coordenação da Profa. Dra. Gisele Nussbaumer (Pós-Cultura – Ufba). A primeira etapa do mapeamento incluiu cinco regiões e oito capitais do país: Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Foi realizada em parceria com as seguintes universidades: Unespar Campus Curitiba II, Unesp, Ufrj, Ufpe, UFC, Ufpa, UFG e UPE.
Em 2016, foi divulgado o seu resultado, em uma publicação que conta com quase duas mil páginas. O Mapeamento da Dança é um diagnóstico pioneiro, que revela diversas faces da dança brasileira, mas também é, acima de tudo, um documento que registra a realidade da dança de uma determinada época, algo de enorme valor para um processo de pesquisa de memória e história da dança no Brasil.
Outro importante exemplo é o programa de registro e memória da São Paulo Companhia de Dança (SPCD), instituição criada em 2008 pelo Governo do Estado de São Paulo, sob a direção de Inês Bogéa. Esse programa contempla diversas iniciativas, dentre elas a série Figuras da Dança, com o lançamento de DVDs com depoimentos públicos de artistas que marcaram a história desta arte. Até o momento, já foram lançados quase cinquenta DVDs, todos disponíveis no canal do Youtube. Em 2012, a companhia também criou a plataforma “Dança em rede”, uma enciclopédia colaborativa online da dança, que busca conhecer e divulgar a dança do país. Os visitantes podem escrever e editar verbetes em diversas categorias: grupos, escolas, profissionais da dança, companhias e outros. A partir desta plataforma nasceu o e-book “Um recorte da dança hoje,” reunindo todos os verbetes produzidos entre 2012 e 2025 e prepara a sua segunda edição para dezembro deste ano. “A série Figuras da Dança nasceu do desejo de conhecer e compartilhar a história da dança no Brasil pela voz de quem a vive e a constrói. Desde 2008, reunimos depoimentos, imagens e documentos que revelam, em cada trajetória, encontros entre artistas, mestres, escolas, companhias e diferentes lugares. Uma vida contada abre caminhos para compreender muitas outras. A exibição na TV Cultura, no Arte 1 e no Curta!, somada à disponibilidade dos documentários no site da Companhia, amplia o acesso a essas histórias. Cada filme é acompanhado de um livreto com textos, cronologias e fotografias que aprofundam a pesquisa e oferecem outras possibilidades de leitura”, afirma Inês Bogéa, diretora artística e educacional da São Paulo Companhia de Dança e criadora da série. “Esse trabalho se amplia com os verbetes do Dança em rede, que mapeiam trajetórias no Brasil e no mundo, com os livros de ensaios da SPCD, as publicações da São Paulo Escola de Dança e os materiais educativos e de formação de plateia. São formas de produzir e compartilhar conhecimento, aproximando a experiência dos artistas de novos públicos e gerações. A memória da dança permanece viva quando encontra quem a escute, a interrogue e a transforme em novas possibilidades de criação. Preservá-la exige continuidade: pesquisar, registrar, cuidar e fazer circular são partes de um mesmo compromisso”, completa. A São Paulo Companhia de Dança se apresenta na atualidade, como uma das mais férteis e atuantes instituições de produção, divulgação, memória e pesquisa em dança no Brasil. Um exemplo a ser seguido.
No Rio de Janeiro, uma outra relevante instituição chama a atenção: O Centro de Documentação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Cedoc). A sua história remete ao ano de 1942, quando o pintor Eliseu Visconti (responsável por diversas obras do Theatro Municipal) doou, para a então Prefeitura do Distrito Federal, seus estudos para a apreciação pública. Em 1950, a mesma Prefeitura instalou no Salão Assyrio do Theatro Municipal, o Museu dos Teatros do Rio de Janeiro. Pouco antes do fechamento do Theatro Municipal para obras, em 1976, o Museu dos Teatros passou à administração da Fundação Estadual de Museus do Rio de Janeiro e foi reinstalado no bairro de Botafogo. Em 1986, em paralelo às atividades do Museu dos Teatros, a direção do Theatro Municipal criou o seu Centro de Documentação. Em 2008 o acervo do Museu dos Teatros foi sendo preparado para retornar ao Theatro Municipal, o que aconteceu em 2013.
A partir daí, toda a documentação referente à história do Theatro Municipal e de seus espetáculos e corpos estáveis passou a se concentrar no Cedoc. Sua grande missão é coletar, preservar, pesquisar e divulgar o acervo da instituição, disponibilizando-o ao público, pesquisadores acadêmicos e aos seus setores internos. Seus itens relativos à dança e ao corpo de baile são muito preciosos. Entre eles estão os figurinos com os quais Bertha Rosanova e Aldo Lotufo dançaram “O lago dos cisnes”, na primeira montagem completa desta obra na América Latina, por Eugenia Feodorova, no cinquentenário do TMRJ, em 1959. A coleção conta também com figurinos utilizados por Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra a ingressar no corpo de baile do TMRJ em 1948, e com os tamancos utilizados por Dennis Gray, bailarino icônico na história do corpo de baile, para interpretar a personagem Madame Simone em “La Fille Mal Gardée”.
Porém, a parte mais expressiva da coleção de indumentária relacionada com o mundo da dança são as sapatilhas de ponta. São um total de 15 sapatilhas, de bailarinas de diferentes momentos históricos da instituição, como as da Primeira Bailarina Ana Botafogo, responsável por popularizar o Ballet Clássico em todo o Brasil. No acervo também está a sapatilha de ponta de Maria Olenewa, bailarina russa responsável por fundar a primeira escola de danças clássicas do nosso país, a atual Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, em 1927.
Ao analisar uma sapatilha é possível descobrir detalhes sobre como a bailarina dançava, como distribuía seu peso, como costurava elásticos e fitas para moldar melhor nos pés. Essas adaptações pessoais podem afetar diretamente a técnica e a execução de uma prática artística, podendo servir como fontes importantes para pesquisas acadêmicas. Afinal, as sapatilhas de ponta funcionam como uma extensão dos próprios pés daquelas que dançam.
Um projeto recente muito interessante do Cedoc foi a exposição de fotografias intitulada “(Re)conhecidos: você já viu essa pessoa?”, que tinha o intuito de buscar ajuda do público para reconhecer os retratados ainda não identificados em algumas fotografias do acervo. O público movimentou em peso as redes sociais, ajudando significativamente no reconhecimento de diversos artistas. Foi uma iniciativa inovadora, que de forma colaborativa com a sociedade, enriqueceu o patrimônio cultural institucional, tornando o seu acervo um acervo em movimento.
É gratificante constatar que estas relíquias estejam sendo guardadas, preservadas e trazidas a público, com tanto zelo, pela equipe do Cedoc, sob coordenação da museóloga Raquel Villagrán. Em suas palavras, “O Centro de Documentação cumpre um desafio na salvaguarda da trajetória dos Corpos Artísticos que, ao longo de gerações, construíram a identidade dessa instituição. Nosso acervo reúne um vasto conjunto de fotografias, programas de espetáculos, figurinos e outros registros que permitem acompanhar transformações artísticas e conceituais da história da dança. Como museóloga, estar à frente do Cedoc é, para mim, um privilégio e uma grande responsabilidade. Significa participar da preservação de um patrimônio que permanece em constante diálogo com o presente”.
E falando em presente, o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro está completando noventa anos de existência neste ano. Em 2018, foi lançado o documentário “Corpo de baile”, sobre os seus oitenta anos de história. Nele, dezesseis Primeiros Bailarinos de várias gerações revelam os bastidores da companhia e de como é viver da arte e da paixão pela dança. A obra audiovisual retrata também os desafios, as conquistas, as dores, as alegrias e as histórias pessoais de personagens que ajudaram a construir esta instituição, além de exibir imagens de espetáculos marcantes, de diferentes décadas. Produzido pelo NIS (Núcleo de Imagem e Som) da Unirio – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, “Corpo de baile” está disponível na íntegra na plataforma do Youtube. Documentários como este, são os vestígios de danças que foram efêmeras, mas que ficaram guardadas na memória e no coração de muitos. Vale a pena conferir para se emocionar também.
Felizmente, o Brasil reúne hoje muitos outros projetos dedicados à memória da dança, como mostra o artigo “Projetos de dança e memória” (clique aqui para acessar), do pesquisador Arnaldo Leite de Alvarenga, publicado pela Revista CONCERTO, em 12 de novembro de 2025. O texto apresenta iniciativas como a Missão Memória da Dança no Brasil, premiada pela Funarte, que deu origem ao I Encontro de Pesquisadores em Memória da Dança e à série de livros Personalidades da Dança em Minas Gerais. Também fala dos Seminários de Dança de Joinville, promovidos desde 2008 pelo Instituto Festival de Dança de Joinville; do Seminário Internacional de História da Dança, realizado pela Universidade Federal de Goiás desde 2017; e da Rede CoreoHistória, criada por Cássia Navas em 2021 para reunir pesquisadores dedicados às histórias da dança. São ações que, cada uma a seu modo, ajudam a fazer com que a dança, uma arte tão efêmera, deixe rastros e siga contando sua própria história. Vale a pena conhecer.
Para conhecer mais projetos (clique para acessar)
SÃO PAULO COMPANHIA DE DANÇA
Para seguir nas redes sociais: @saopaulociadedanca
MAPEAMENTO NACIONAL DA DANÇA
THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
Para conhecer mais sobre a história do CEDOC
Para ter acesso ao seu acervo digital
Para seguir nas redes sociais: @theatromunicipalrj
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