Retrospectiva 2025: Nelson Rubens Kunze, diretor-editor da Revista CONCERTO
Três fatos estruturantes marcaram o ano clássico de 2025: a implementação da Estação Motiva Cultural anexa à Sala São Paulo; a inauguração de um novo teatro de ópera em Porto Alegre, o José Simões Lopes Neto do Multipalco; e a inauguração do Teatro Baccarelli junto à comunidade de Heliópolis, em São Paulo. São conquistas que devem ser aplaudidas e comemoradas! E é importante registrar, que as três são fruto de investimento público, ou diretamente com recursos do estado, ou com patrocínios privados realizados por meio das leis de isenção fiscal.
Pois é assim, com subvenção pública, que funciona a atividade musical clássica. Não há lugar no mundo em que se tenha encontrado outra maneira de manter salas de concertos, teatros de ópera, orquestras sinfônicas ou temporadas de música clássica, que não seja a do apoio do Estado com recursos públicos. Mas vejam que bom: além da promoção e valorização das humanidades, ainda há todos os ganhos com os relevantes impactos econômicos gerados pela atividade cultural – conforme recente estudo da FGV, para cada R$ 1,00 investido via Lei Rouanet, R$ 7,59 retornam para a economia do país. É um jogo de ganha-ganha!
Para além desses marcos edificantes, tivemos em 2025 uma movimentada temporada de óperas e concertos no Brasil. As entidades promotoras de eventos internacionais, como a Cultura Artística, a Tucca e a Dellarte, promoveram alguns espetáculos memoráveis – eu não esquecerei tão logo da incrível apresentação de The Fairy Queen pelo Les Arts Florissants e os dançarinos da Compagnie Käfig. Mas também nossas principais orquestras e teatros de ópera ofereceram uma programação rica e diversificada. E aqui não quero deixar de lembrar do espetacular ano da Osesp, coroado em dezembro com a produção semiencenada da ópera Wozzeck, de Alban Berg.
Fora de São Paulo, assisti a alguns ótimos espetáculos, como a Nona de Beethoven com Filarmônica de Minas Gerais em Belo Horizonte, La Vorágine de J. G. Ripper no Festival Amazonas de Ópera, a encenação de Madame Butterfly do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Turandot produzida pela Cors, Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Aliás, a Cors, que realizou cinco montagens em 2025, é uma das mais bem-vindas novidades da cena clássica brasileira, um exemplo da potência e do sucesso de uma iniciativa da sociedade civil que se articula com a esfera pública.
Mas quero falar também da dinâmica temporada do Theatro Municipal de São Paulo. Infelizmente, interesses e pressões políticas algumas vezes ofuscaram o trabalho sério e responsável realizado pela Organização Social Sustenidos. Claro que é legítimo e mesmo desejável criticar as produções do teatro – na Revista e no Site CONCERTO isso é feito regularmente e pelos mais variados profissionais. Mas aqui, parece que mais uma vez o enviesado modelo de gestão implantado no Theatro Municipal de São Paulo compromete a parceria público-privada, que na esfera estadual é tão eficaz e vitoriosa (vide Osesp, Theatro São Pedro, Emesp, São Paulo Companhia de Dança etc.)
2025 foi também o ano em que a Revista CONCERTO completou 30 anos de circulação ininterrupta. Tivemos a honra e o privilégio de comemorar a efeméride com um concerto da Osusp, dirigido por Tobias Volkmann, na Sala São Paulo. Fiquei especialmente feliz, pois a Osusp, como todos sabem, pertence à Universidade de São Paulo – onde também estudei e me formei –, e festejar o aniversário dos 30 anos da Revista CONCERTO associado a um dos principais centros de ciência, tecnologia, cultura e conhecimento do país foi um enorme presente.
Finalizo esse depoimento agradecendo a todos os anunciantes, parceiros, colaboradores, jornalistas e à equipe da Revista CONCERTO por mais este ano de trabalho conjunto. Seguiremos com a missão de difundir música clássica e ópera para o fortalecimento da cultura humanista.
Desejo a todos um ótimo 2026 – e que o mundo reconheça as humanidades como uma das principais ferramentas para enfrentarmos os desafios contemporâneos, das ameaças ambientais à justiça social.
(Ao longo deste mês de janeiro, publicaremos neste espaço, diariamente, os depoimentos de alguns dos mais influentes profissionais do setor, entre músicos, promotores, gestores e jornalistas. Acompanhe o Revista e o Site CONCERTO e fique por dentro de tudo que se passa na área da música clássica e da ópera.)
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