Retrospectiva 2025: Ana Cursino Guariglia, pianista e jornalista
Alguns ventos de mudança sopraram nas grandes salas de concerto e teatros de ópera do Brasil. Quero limitar-me a destacar São Paulo porque resido aqui.
Apresentações e debates dedicados a Alban Berg no Complexo Cultural Júlio Prestes: a ventania soprou forte, como o ciclone extratropical que atingiu o país naquela mesma semana. Ouvimos a rara execução não só de Wozzeck, mas também da Sinfonia de Câmara nº1 de Arnold Schoenberg, em arranjo de Anton Webern.
Gostando ou não, a trinca de compositores deu o tom (trocadilhos à parte) de boa parte do que se fez durante o século XX. Dito isso, é triste que, após cem anos, essa música continue soando estranha e nova por aqui. A Sagração da Primavera, por exemplo, acabou entrando na temporada regular desde seu centenário. É sonhar muito querer que o movimento se repita? A recepção fria de Wozzeck não deve acanhar quem decidiu a empreitada. Que se insista.
É difícil equilibrar demanda do público e arrojo curatorial numa temporada só. A solução da Sala São Paulo foi inaugurar a Motiva Cultural, muito bem-vinda e ocupada com uma excelentíssima seleção que Camila Fresca fez de poesia, música popular e erudita, mais literatura, tudo com preços acessíveis. Mais uma lufada.
E, cruzando o Viaduto do Chá, uma tempestade: o Theatro Municipal foi palco de vaias, críticas e cancelamentos de eventos (como o da Flipei, na Praça das Artes, que teve que se reorganizar às pressas – e conseguiu!). Terá a vanguarda avançado demais? Sobreposta às críticas, ouviu-se uma boa dose de aplausos do outro lado, dividindo opiniões. Ano que vem ninguém sabe, mas fato é que fantasmas da ópera de 1922 acordaram satisfeitos. A discórdia é sinal de uma democracia saudável e não deveria configurar ameaça à organização institucional.
As grandes salas de concerto ainda têm de correr atrás da música instrumental dos séculos XX e XXI, se quiserem equiparar-se à produção de ópera contemporânea que tem dominado o meio. A promessa de Gruppen, de Stockhausen, além da noite dedicada à música instrumental de Ligeti, Lutoslawski e Xenakis, no Theatro Municipal, mostra que há fôlego para 2026.
Do lado de fora, guerrilhas mantêm a música nova viva e visceral. Infelizmente (ou por sorte) é impossível citá-las todas. Gostei da série Música Inaudita, que tem casa no Ágora Teatro; apreciei que o Festival Novas Frequências tenha viajado do Rio a São Paulo hospedando-se no Theatro Municipal e no Cultura Artística. Agradeço que grupos como o Martelo e solistas como Karin Fernandes tenham lançado álbuns novos este ano; e que o Percorso Ensemble tenha revivido Luciano Berio.
Na base disso tudo, mais iniciativas, sobretudo universitárias, resistem proporcionando que músicos estudantes conheçam e vivam essa fascinante e libertadora música, levando-a além. É o caso da temporada da Ocam, que comemorou 30 anos e hoje segue nas boas mãos de Ricardo Bologna; também é o caso do Grupo Música Viva, coordenado por Sarah Hornsby, Alexandre Lunsqui e Maurício De Bonis no Instituto de Artes da Unesp, que promoveu concertos periódicos no Centro MariAntônia da USP.
Fora de São Paulo, a Fundação de Educação Artística, em Belo Horizonte, promoveu concertos de câmara do século XX todas as semanas na série Manhãs Musicais; a Universidade Federal da Paraíba foi sede do encontro de Piano Contemporâneo; e a Filarmônica da Universidade Federal do Paraná executou Rendering, de Luciano Berio, no centenário do compositor. Sem esta base a música nova não tem chance. Que em 2026 os ventos continuem mudando, de sopro em sopro. [Depoimento de dezembro de 2025.]
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