Flausino Vale e o violino brasileiro

por Camila Frésca 01/01/2008

"Ao pé da fogueira" é uma pequena obra para violino e piano freqüentemente apresentada como bis em recitais nos Estados Unidos, Japão e Europa. O primeiro a gravá-la foi ninguém menos que Jascha Heifetz, na década de 1940, e de lá para cá a peça recebeu dezenas de outras gravações por alguns dos maiores violinistas do mundo: Zino Francescatti, Isaac Stern, Henrik Szering, Rugiero Ricci e Itzhak Perlman foram alguns deles. Seu autor? Um obscuro violinista e compositor mineiro que tem uma das mais importantes obras do repertório para violino solo no Brasil: Flausino Vale (1894-1954).

Advogado, poeta, professor, violinista virtuose e compositor, Flausino teve importante atuação na vida musical de Belo Horizonte na primeira metade do século XX. Tocou em orquestras de cinema mudo, foi spalla da Sociedade de Concertos Sinfônicos, atuou intensamente no nascente rádio belorizontino e foi um dedicado professor de história da música e folclore no Conservatório Mineiro de Música, embrião da futura Escola de Música da UFMG.

Compôs para violino, canto e flauta, sempre acompanhados de piano; peças para coro misto e cerca de 70 arranjos e transcrições para violino, que compreendem obras tão diversas como uma versão de Asa branca, de Luiz Gonzaga e um Noturno de Chopin, ambos para violino solo, e um segundo violino para a Sonata Kreutzer de Beethoven, que deveria substituir o piano.

Sua obra mais importante, no entanto, é o conjunto de 26 prelúdios característicos e concertantes para violino só, do qual "Ao pé da fogueira" faz parte. Trata-se de miniaturas virtuosísticas para o violino, que combinam o uso de temas e referências ao universo popular com a utilização da técnica tradicional do instrumento, aliada a procedimentos inusuais de escrita - nunca em busca de uma inovação pura e simples, mas sempre procurando expressar uma idéia. Assim, o compositor manda friccionar-se o arco com força para obter um ruído característico de uma velha porteira em "A porteira da fazenda", ou dá instruções detalhadas sobre como percutir o tampo do violino para criar um batuque em "Pai João". No Brasil, é provável que só o conjunto de obras de Marcos Salles (1885-1965), também violinista e amigo de Flausino, faça-lhe sombra.

Sempre lutou para editar os 26 prelúdios na íntegra, mas isto nunca aconteceu. Alguns foram lançados separadamente, como "Ao pé da fogueira", editado em 1937 no Rio de Janeiro junto com "Casamento na roça". É provável que esta edição tenha caído nas mãos de Heifetz que, sem saber quem era o autor, escreveu-lhe um acompanhamento de piano, editou-a e gravou-a nos EUA, além de apresentá-la em recitais e utilizá-la em suas master classes.

Flausino Vale recebeu apenas quatro anos de estudos formais de violino com um tio, e terminou o curso tocando os 24 Caprichos de Paganini. Talento nato, resolvia as dificuldades técnicas para as quais não havia sido preparado da forma que lhe fosse mais conveniente, e por isso tinha um jeito bastante peculiar de tocar, o que lhe garantia, porém, um resultado sonoro e musical extremamente satisfatório. Impressionado com aquele músico que tocava peças de caráter nacional de um modo absolutamente pessoal, Villa-Lobos, ao ouvi-lo, exclamou: "É um novo Paganini!". Também o crítico Andrade Muricy entusiasmou-se com o talento de Flausino: "Essa série [os 26 prelúdios] faz do seu autor o verdadeiro Ernesto Nazareth do violino brasileiro, e aliás a única contribuição existente que considero importante para a musicografia violinística nacional."

O dia seis de janeiro de 2008 marca os 114 anos de nascimento de Flausino, autor de obra singular para o violino e que merece ser acolhida por nossos músicos e salas de concerto.

[Artigo originalmente publicado na edição de janeiro/fevereiro de 2008 da Revista CONCERTO.]