Osesp e o maestro Andrew Litton ofereceram leitura que evidenciou como, à ira divina, Verdi responde sempre com uma música sobre o valor da humanidade
“O dia da ira, o dia que dissolverá o mundo em cinzas.”
Na noite de quinta-feira, na Sala São Paulo, um pedido gentil de misericórdia foi respondido com o grito terrível das vozes do coro, o tumulto das cordas oscilantes, a violência da percussão, a intensidade perfurante das madeiras, tudo a construir um senso de instabilidade, a imagem de um mundo que se quebra ao meio, e revela as chamas a engolir todos os pecadores.
É uma passagem tão violenta hoje quanto na época de sua estreia, 150 anos depois. E os contrastes que carrega são parte essencial do Réquiem de Verdi, sua adaptação da missa dos mortos católica, impregnada de drama e de teatro. Houve atenção especial a eles na Sala São Paulo na quinta-feira. Mas a leitura que a Osesp e o maestro Andrew Litton ofereceram da peça foi além deles, construindo uma apresentação em que, perante a fúria divina a entrecortar a obra, sobressaiu-se a permanência daquilo que é, acima de tudo, humano.
Verdi escreveu seu Réquiem em homenagem ao escritor Alessandro Manzoni. Agnóstico e anticlerical, o compositor resolveu celebrar o amigo, um homem profundamente católico, com uma missa. Mas o fez à sua maneira. Não foi, afinal, apenas a morte de Manzoni que o tocou profundamente, mas a forma como se deu, precedida por uma “longa fase de obscurecimento mental”: “Essa elevada inteligência que se apaga! É tremendo! E a Providência? Se existisse uma providência! Vocês acreditariam que seria capaz de desencadear tantas desgraças sobre a cabeça de um santo?”, escreveu o compositor. Seu espanto era o de tantos antes e depois dele. Que Deus é esse que causa sofrimento, e o faz com requintes de ironia? Que se regozija no poder da morte sobre a vida – e que, às vésperas do fim, exige que imploremos pelo seu perdão, sob o risco de ardermos nas chamas do Juízo Final, sem direito a uma salvação que ele apenas pode oferecer?
Verdi dá forma a ele no Dies Irae e o repete ao longo da peça como a não nos deixar esquecer de suas maquinações. Mas, mesmo com todo o seu impacto e violência, que o Coro da Osesp e o Coro Lírico Municipal recriaram com intensidade assustadora –, é fora dele que acontece o Réquiem. Se as palavras, passagem após passagem, falam apenas de perdão, a música dada aos solistas se refere a um senso de humanidade que nos encanta e desafia, que pode ser lírico, duro, mas, na escrita de Verdi, sempre observado e retratado com generosidade, assim como ele, em suas óperas, procurou ver o que era humano até mesmo em seus personagens mais terríveis. Essas ideias encontram eco na leitura reflexiva proposta pelo maestro Andrew Litton, trabalhando com delicadeza e efeito dramático nunca gratuito a riqueza da escrita orquestral do compositor, sim, mas, acima de tudo, respeitando e potencializando o espaço dos solistas, da voz.
“E nada ficará impune.” No Libers scriptus, Luisa Francesconi deu, a cada repetição da frase, desse leitmotiv verbal temível, um caráter, uma cor diferente, nascida do cuidado com que percorre as palavras e do senso de urgência que marca sempre o seu canto. É algo que Verdi a obriga a fazer sozinha, até que a soprano, o tenor e o fagote se juntem a ela no Quid sum miser. “Que direi eu, então, um miserável?/ A que protetor recorrerei,/ quando nem mesmo os justos estão a salvo?”. O coro explica: ao “Rei de tremenda majestade,/ que salva gratuitamente aqueles que o merecem,/ salva-me, ó fonte de misericórdia”. À sugestão agressiva dos baixos do coro, os solistas então respondem com a delicadeza do Salva me. Assim como, no Ingemisco, o tenor Joshua Blue reage com fraseado gentil e dramaticidade contida à presença do fogo em que devemos arder.
O lamento do Lacrymosa, por sua vez, na voz penetrante de Guanqun Yu, na busca pela luz do canto de Francesconi, na dor quase resignada de Blue e no baixo profundo de Peixin Chen, é quase uma ópera inteira em si, em que tudo parece grande demais para suportar – e então, há a luz da música do Hostias, o dueto entre soprano e mezzo no Agnus Dei. As vozes se separam e se encontram, pois não estamos sozinhos – acompanhados, porém, uns dos outros e não do criador terrível e sua corte, que, à altura do Lux aeterna, ainda exige, impassível, subserviência no clamor pela salvação.
O Libera Me com a que a peça se encerra, no entanto, em toda a sua dramaticidade, parece zerar o jogo. Há um misto de distanciamento e envolvimento que dá à soprano Guanqun um papel interessante, como se, ao longo de toda a peça, ela acima de tudo observasse, à espera de uma última conversa com Deus. E sua primeira entrada, ameaçada pela música que a persegue, a coloca em posição altiva no embate.
O fim agora é certo, e dele não é possível escapar. Mas faz diferença o modo como nos dirigimos a ele. Talvez por isso, na súplica – “Concedei-lhes o descanso eterno, Senhor, e que a luz perpétua os ilumine” – não haja temor, mas um último gesto de delicadeza, em um dos únicos momentos em que coro, orquestra e voz solista parecem articular uma mesma visão.
Tudo ilusão, no entanto. Logo as cordas rasgam o sentimento de paz e o coro retorna, inclemente. Mas a soprano se impõe perante a ele. É o que resta, assim como a quase ironia do último “Libera Me” com que a peça desaparece em direção ao silêncio, à algo que parece uma espera. Um fecho ideal para uma peça em que, à ira divina, Verdi responde sempre com uma música sobre o valor da humanidade. No seu Réquiem, afinal, é o ser humano o protagonista. E se ele deve se arrepender de seus pecados, então que Deus faça o mesmo.
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