Com obras de João Guilherme Ripper, Villani-Côrtes, Arrigo Barnabé, Marisa Rezende e Amaral Vieira, lançamento destaca a qualidade do repertório contemporâneo para quintetos
Não é sempre que se unem ótimos músicos numa bem-sucedida, original e encorpada proposta, realizada com alta qualidade artística. Pois isso aconteceu no recém-lançado álbum Brazilian Piano Quintets, o quarto volume de uma inteligente série de CDs da Somm Recordings intitulada Tesouros do Novo Mundo, em torno da pianista brasileira Clélia Iruzun, radicada em Londres. Iniciada no primeiro ano da pandemia, 2020, com um álbum reunindo o quinteto de Henrique Oswald com o de Amy Beach, a série mapeou, nos álbuns seguintes, duos para violino e piano de Miguez e Oswald (2021); peças, algumas em primeira gravação mundial, no formato violão, flauta e piano (2023).
Particularmente interessante foi a ideia da pianista Clélia Iruzun de conceber o quarto volume com uma amostra representativa de obras de compositores brasileiros vivos, em atividade, emulando a instrumentação de um dos quintetos mais originais e célebres da história da música: o Quinteto A truta para cordas e piano em lá maior op. 114, de Franz Schubert. Duas palavrinhas sobre ele. Às vezes pensamos que o compositor quis pesquisar novas combinações instrumentais. Na maioria das vezes, a motivação é circunstancial. Schubert passou o verão de 1819 na casa do engenheiro Sylvester Paumgartner, administrador das minas de ferro ao norte da Áustria. Este era violoncelista amador mediano e pediu-lhe que compusesse algo em torno do tema de um dos lieder de Schubert que idolatrava, Die forelle. Por isso o quinteto A truta foi escrito para um violino, uma viola, um violoncelo, contrabaixo e o piano.
Os parceiros de Clélia são integrantes de I Musicanti, liderados pelo contrabaixista e líder Leon Bosch: ao violino, Martyn Jackson, à viola Robert Smissen e Richard Harwood ao violoncelo.
Praticamente 70 minutos de música camerística de alta qualidade e diversificada, em execuções primorosas. Lá estão alguns dos compositores mais ativos hoje em dia, como João Guilherme Ripper, 67 anos, que assina a refinada From my windows no. 3, composta em 2011 e em primeira gravação mundial. São três movimentos: Carnaval vertigo, retratando a multidão nas ruas do Rio dançando e pulando nos blocos durante o Carnaval. O piano num ostinato hipnotizante dá o colchão rítmico sobre o qual as cordas literalmente “dançam”; Antique, o segundo movimento, exala o sentimento de nostalgia pelo encontro inesperado com uma carta de amor antiga caída das páginas de um livro; Drums, o movimento final, volta ao clima de Carnaval, mas agora mais interessada na superposição de melodias e camadas rítmicas.
Quem conhece Edmundo Villani-Côrtes sabe que sua música flui naturalmente, privilegia o prazer de tocar aos músicos e o prazer de escutar nos ouvintes. Uma de suas frases mais famosas é “não é preciso inventar um novo vocabulário para ser original”. Ele jamais separou erudito de popular, sua música trafega com gosto e talento. Com mais de 300 composições e 95 anos bem vividos, não deixa nossos ouvidos passarem incólumes por suas deliciosas Cinco miniaturas brasileiras, misturando formas europeias como o prelúdio com toada, chorinho, cantiga de ninar e baião. E se você ficar com vontade de ouvir mais Villani-Côrtes, encante-se com Caratinguê, ora soando como moda de viola, ora impressionista, em torno da cidade mineira de Caratinga. Violoncelo soando como viola, piano esparramando-se em escalas até fixar-se em algo parecido com uma sentimental moda de viola lamentosa. Um dos pontos altos do álbum.
E, por falar em adjetivos como sentimental, ou lamentoso, é assim que surpreendentemente soa Canção sem palavras, de Arrigo Barnabé. Linda, derramada. Mais contida e dedicada a sua filha Bel, Cismas, composta por Marisa Rezende em 1999, é de uma sutileza de escrita admirável: 6 minutos e meio de grande música.
A obra central do álbum, entretanto, é Fronteiras, de Amaral Vieira, composta no mesmo ano de Cismas, de Marisa Rezende, 1999. É uma de suas obras mais conhecidas internacionalmente e ao mesmo tempo marcantes de seu estilo composicional denso, tecnicamente perfeito. Concebida em três encorpados movimentos, totaliza 24 minutos, e evoca a assinatura de quatro notas do compositor russo Dmitri Shostakovich segundo a notação germânica -- D, E flat, C, B, para nós ré, mi bemol, dó, si. As fronteiras do título são amplamente definidas pela assinatura de quatro notas, escreve Robert Mathew-Walker no texto do encarte do álbum. Ele completa: “Esse motivo surge como um observador silencioso, entrelaçando-se à música de forma intermitente e ampliando a percepção do ouvinte sobre o material expressivo no qual toda a obra se baseia”.
Uma última observação sobre a excepcional pianista Clélia Iruzun. Radicada há muitos anos em Londres, ela vem desenvolvendo uma carreira muito sólida e possui uma discografia consistente, toda gravada na Europa. Ela explora o repertório dos séculos XIX, XX E XXI sempre enfatizando e optando pelo repertório brasileiro. Somente por esta bandeira, ela já mereceria todos os elogios. Mas acontece que Clélia é uma grande pianista, e isso torna ainda mais significativo seu trabalho sistemático de divulgação da música brasileira.
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