Com Haydn e Hindemith, uma boa tarde de música em Heliópolis

por João Luiz Sampaio 23/03/2026

Orquestra Sinfônica Heliópolis encarou com energia e verve programa com a Sinfonia nº 104 de Haydn e as Metamorfoses sinfônicas de Hindemith

A Orquestra Sinfônica Heliópolis apresentou no último domingo, dia 22, no Teatro Baccarelli, em Heliópolis, um programa com a Sinfonia nº 104, Londres, de Haydn, e as Metamorfoses sinfônicas, de Hindemith. A regência foi do maestro Ira Levin.

As últimas décadas colocaram Haydn, assim como outros compositores do classicismo, como território das interpretações historicamente informadas. O aprendizado técnico, musical e histórico foi enorme. Mas um efeito colateral foi afastar esses autores do repertório das orquestras sinfônicas tradicionais.

Quando assumiu, em 2004, o Theatro Municipal de São Paulo, Levin colocou como uma das metas de seu trabalho com a Orquestra Sinfônica Municipal o retorno aos compositores clássicos, Haydn entre eles. Mais recentemente, ao chegar ao comando da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Thierry Fischer fez o mesmo.

Há motivos para isso. A necessidade de clareza, equilíbrio entre naipes, a atenção às dinâmicas, a liberdade que nasce do rigor da forma: Haydn expõe a orquestra em muitos sentidos. E, em especial para um grupo de formação, é um desafio importante, que obriga os músicos não apenas a dominar suas partes mas também a uma escuta diferente de si mesmo e de seus colegas. Melhor ainda quando se têm um maestro como Levin, consciente do aprendizado histórico, no comando.

Tudo isso ficou claro na apresentação. Levin levou os músicos da Sinfônica Heliópolis pelas mãos, dando atenção a cada detalhe, explorando toda a verve da Sinfonia nº 104, sua enxurrada de ideias musicais, sua imprevisibilidade, marcando em tempo real as dinâmicas e recebendo dos músicos reação imediata. Uma interpretação cheia de vida.

A escolha das Metamorfoses sinfônicas para fechar o programa foi interessante. A peça é inspirada em temas de Weber, ou seja, bebe no início do romantismo alemão. Mas o faz com um outro tipo de energia. No segundo movimento, por exemplo, são utilizados temas da música incidental que Weber escreveu para a adaptação de Turandot, de Carlo Gozzi, feita por Schiller. Hindemith joga com os temas, criando uma espécie de teatro ora fragmentado, ora repleto de pompa, ora irônico – e foi muito rico o modo como se deu o diálogo entre as cordas e a percussão, assim como a variação da seção final carregada pelos metais. 

Tanto no Haydn quando em Hindemith, a acústica da nova sala de concertos mostrou-se especial, o que é excelente notícia.

Foi uma boa tarde de música em Heliópolis.

Concerto da Orquestra Sinfônica Heliópolis e do maestro Ira Levin no domingo, dia 22, no Teatro Baccarelli [Reprodução/YouTube]
Concerto da Orquestra Sinfônica Heliópolis e do maestro Ira Levin no domingo, dia 22, no Teatro Baccarelli [Reprodução/YouTube]

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.