É quase fisicamente reconfortante ver esses dois artistas homenageados. São referências de um tempo sem a imposição massiva de personagens insubstanciosos, invertebrados, rasos
Na semana passada, tivemos notícias de homenagens a duas grandes figuras da vida clássica no Brasil, dois dos mais populares artistas nacionais, apesar de militarem preferencialmente no que alguns chamam, entre muitas aspas, de “arte erudita”: o regente Isaac Karabtchevsky e a bailarina Ana Botafogo. Essa palavra que hoje soa arrogante, “erudito”, vem do latim erudire, que é “educar”. Decompondo, ex (não) + rudis (rude, bruto). Dá vontade de cancelar a palavra (eu cancelei).
Esses nossos grandes artistas estão sendo celebrados – Ana com uma exposição em São Paulo e Isaac, assumindo a cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música, a que foi de Villa-Lobos, o fundador da instituição, em cerimônia realizada na sexta-feira, no Rio. Ambos abriram seus caminhos até a excelência com dedicação integral, mergulhando nos vastos oceanos de cânones da música e do balé. Os dois são profundamente respeitados pelos seus pares. E os dois também foram reconhecidos e amados pelo dito grande público brasileiro como ídolos e exemplos. Mérito da inteligência, da cultura geral e da empatia de Isaac e de Ana, das décadas de trabalho duro e permanente que construíram as carreiras.
Isaac e Ana não tiveram qualquer problema em levar sua excelência para o campo do popular. Ana, que entrou para o Balé do Municipal carioca em 1981, viajou o Brasil inteiro, como missão e projeto, indo alegremente a cidades das mais pequeninas para levar ao público local a beleza da dança. Fez meninas e meninos arregalarem os olhos, nos teatros das capitais ou nos palcos improvisados, uma fada na ponta dos pés, uma fada que até sambava.
Isaac foi um dos criadores do Projeto Aquarius, que teve esplêndidas edições antes dessas últimas mais rarefeitas e esvaziadas – justamente porque perderam o espírito da coisa, que era buscar a comunicação sem fazer concessões. Isaac comandou, no finado Canecão, nos idos de 1971, um encontro histórico da OSB e de Jacques Klein com bateria da Mocidade Independente e Chico Buarque. Muitos torceram o nariz.
Claro, só a disposição de abraçar a cultura popular não explica tudo, e podem me chamar de saudosista, não me importo. Primeiro, claro, o mundo era outro quando o paulista Karabtchevsky chegou à Globo com os Concertos para a Juventude. Tinha bombril nas antenas dos aparelhos de tevê. Havia curiosidade nas plateias, deslumbramento nas descobertas, não existia a tsunami tóxica de, aspas, “informação”, aspas. Em segundo lugar, o maestro e a bailarina entenderam que admiração não era incompatível com proximidade. Que no “leigo” (quantas aspas) a beleza estupenda do que faziam chegava forte e batia no peito, não (apenas) no intelecto. Batia e ecoava, enriquecendo a vida.
Isaac e Ana sempre souberam abrir os braços para o público no pódio e no linóleo, colocando a favor da arte seu carisma, sua dedicação, sua inteligência. É quase fisicamente reconfortante ver esses dois artistas da pesada homenageados. São referências de um tempo sem a imposição massiva de personagens insubstanciosos, invertebrados, rasos. Podem me chamar de velha, não me importo. Não gosto do ruido permanente da era que vivemos, sem espaço nem tempo para digerir o que quer que seja. Muito barulho por nada.
Há mil lições a tirar da trajetória de Isaac Karabtchevsky e Ana Botafogo, mas ao arrebanhar admiradores para o fazer e o fruir artístico os dois abriram horizontes sem fim. Poucos fizeram e fazem isso. Podem me chamar de fã, não me importo.
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