Pianista cubano Marcos Madrigal grava disco com obras de Claudio Santoro e Villa-Lobos e violonista francesa Gaëlle Sola lança álbum com concertos de Villa-Lobos e Clarice Assad
Vale a pena comemorarmos os 10 anos de existência do projeto Música do Brasil, gestado em 2016 e concretizado pelo conselheiro Gustavo de Sá, do Departamento de Difusão Cultural do Itaramaty. Envolve três orquestras – as filarmônicas de Minas Gerais e de Goiás e a Osesp –, a ABM (Academia Brasileira de Música) e a Naxos. Vem mudando radicalmente a imagem internacional da música sinfônica brasileira. Uma centena de obras em registros de alta qualidade com certeza vem realocar em prateleira mais qualificada a nossa produção orquestral no mapa da vida musical do planeta.
Pode parecer, mas não é exagero não. Lá se vão sete anos desde que entrevistei Gustavo de Sá e ele afirmou que nossa música sinfônica é sim muito consistente. Com uma ressalva, que fazia àquela altura em que o projeto se consolidava: “A maior parte da música sinfônica brasileira está submersa, porque nunca foi editada, porque as partes se perderam, ou estão num manuscrito que nenhuma orquestra se anima a enfrentar, ou mesmo porque o material existe, mas está inacessível por motivos diversos. São inúmeros os obstáculos, e tudo isso contribui para fazer a música brasileira cair no esquecimento”.
No momento em que comemoramos uma década de sua existência, alguns sinais dão conta de que outros gêneros e formatos musicais brasileiros começam a se beneficar de seus efeitos e ocupar mais espaço internacional. Não mais como gestos e iniciativas heróicos de músicos brasileiros divulgando nossa produção. Músicos internacionais é que passam a se interessar em gravar nossa música. Sintomas claros desta tendência se concretizaram nos dois últimos meses com o lançamento de álbuns dedicados à nossa música. E precisam ser entendidos como bem-vindos subprodutos decorrentes do projeto aniversariante.
Um deles marca o nascimento de uma nova gravadora, chamada Habanero. Criado por Pierre-Yves Lascar em Paris, o selo estreia com um álbum brasileiríssimo do pianista cubano Marcos Madrigal, de 41 anos: inteiramente dedicado a obras de Cláudio Santoro e Villa-Lobos, foi lançado no dia 17 de abril. Apaixonado pela música latino-americana, Lascar enfatizou em entrevistas que é fascinado sobretudo porque “estas estéticas me incitam a renovar drasticamente minha escuta, e me desfazer de preconceitos adquiridos há muito tempo. A música sul-americana abala nossos preconceitos adquiridos e cristalizados”. E diz isso com conhecimento de causa e clara preferência, no continente, pela música brasileira. Lascar afirmou que quer gravar os Ponteios, de Guarnieri, o Rudepoema, de Villa-Lobos, e um álbum dedicado ao “extraordinário” – a expressão é dele – Frutuoso Vianna.
No álbum de estreia de Marcos Madrigal, Santoro e Villa dividem meio a meio os 90 minutos suculentos, onde cabem as Paulistanas e catorze prelúdios de Santoro. Do Villa, além dos muito conhecidos Choros 5 – Alma Brasileira e das Bachianas Brasileiras nº. 4, também o Ciclo Brasileiro. Não é gravação de referência, claro. Arnaldo Cohen gravou duas Paulistanas em 2001; Nelson Freire gravou a primeira delas e também a Toccata; Nahim Marun fez um belo álbum de 2020 com o barítono Paulo Szot.
Mas tem muito bom nível e divulga, principalmente quanto a Santoro, uma produção pianística que até agora pouco circulava fora do Brasil. Uma resenha do site francês Crescendo qualifica o álbum como “uma exploração magistral da riqueza da música para piano brasileira”.
O outro álbum intitula-se RIO, em letras maiúsculas, e foi lançado no dia 17 de março passado pelo selo Fuga Libera, distribuído pela Outhere, de Paris. A violonista Gaëlle Sola, nascida em Marselha, “descobriu” o Brasil em 2009, ao desembarcar no Rio de Janeiro. Naquela altura, já liderava a Associação Guitar’Elles, que fundou dedicada a estimular e viabilizar mulheres violonistas.
Dezessete anos depois, em fevereiro deste ano, realizou seu sonho de gravar um álbum só de música brasileira. Como todo violonista, ela é devota do Concerto para violão e pequena orquestra, de Villa-Lobos, obra-chave para o instrumento no século XX. E o interpreta com entusiasmo ao lado da Orquestra Real de Câmara de Wallonia, regida por Roberto Beltrán Zavala.
O outro concerto é uma primeira gravação mundial do Concerto O Saci-Pererê, de Clarice Assad. No encarte do álbum ela revela que ouviu pela primeira vez este concerto em 2017, em São Francisco, nos Estados Unidos, com Marc Teicholz, que o encomendou. “Naquela noite, prometi a mim mesma que um dia eu não só tocaria este concerto, mas o gravaria.”
É um álbum pra lá de brasileiro. A direção artística é da violonista e compositora venezuelana Elody Bouny. Além disso, Paulo Aragão, do quarteto de violões Maogani, costurou uma deliciosa Suíte Chiquinha Gonzaga a partir de quatro composições clássicas da pioneira do choro e da música popular brasileira, aqui também em primeira gravação mundial.
Gaëlle aventurou-se até a tocar um arranjo que fez de um clássico pianístico de Ernesto Nazareth, Brejeiro, mas coadjuvada pelo arranjo da parte de orquestra assinado por Elodie Bouny.
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