Concerto da Orquestra Filarmônica Catarinense com obras de Vivaldi e Piazzolla, pela programação do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, mostra grau de evolução e amadurecimento de jovens talentos brasileiros
Uma das novidades mais auspiciosas da música clássica no Brasil vem de Santa Catarina. Fundada há dois anos e meio pelo visionário pianista Pablo Rossi, a Orquestra Filarmônica Catarinense já chama atenção pelo nível técnico e empenho de seus integrantes.
No último domingo, dia 26, a Ofic (uma orquestra de cordas) fez uma apresentação gratuita às 11h, na Sala São Paulo, no âmbito do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. O repertório era sob encomenda para encantar o público “leigo”: as Quatro estações de Vivaldi, ao lado das Quatro estações portenhas de Astor Piazzolla.
Manhã ensolarada, sala lotada. O ambiente dos concertos matinais da Sala São Paulo é especial, com gente empolgada que muitas vezes está visitando esse cartão postal da cidade pela primeira vez, tirando selfies e deliciando-se com a arquitetura. Devo confessar que não pertenço à tropa de choque ranzinza (felizmente ausente no domingo) que tenta reprimir aplausos entre os movimentos com um “psiu” muitas vezes mais ruidoso e incômodo do que as próprias palmas. E que a atitude da plateia durante a apresentação era tão ou mais silenciosa, concentrada e respeitosa do que a do público supostamente “cultivado” que frequenta as séries de concerto de ingressos caros e solistas glamorosos.
Uma parte significativa de membros da Ofic é egressa da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo – nomes que tive o privilégio de ouvir como membro de banca de diversas edições do Prêmio Ernani de Almeida Machado, que concede bolsas a músicos da Estadualzinha. De modo que foi difícil não me emocionar com o grau de evolução e amadurecimento de talentos que vi no começo do seu desabrochar.
Por exemplo: a violinista Nathalia Oliveira, que solou na obra de Vivaldi, vem de Itaquera, e tocou na Jovem (e nas calçadas da avenida Paulista) antes de se aprimorar no Mozarteum de Salzburgo. Aos 30 anos, comandou uma performance refinada e equilibrada – com instrumentos modernos, porém plenamente consciente da escola “de época”. E sem afetações.
Pois se o texto musical de Vivaldi não deve ser lido de maneira anódina, “quadrada” e literal, hoje o risco maior nas interpretações das Quatro estações é o oposto: na ânsia de enfatizar contrastes, acabar por realizar leituras exageradas e amaneiradas, apelando para extremos de tempo e dinâmica que fazem perder o sentido de estrutura e unidade da obra. Vivaldi era um gênio da ópera, e a teatralidade de sua música estava lá no domingo , auxiliada pela projeção de uma tradução dos sonetos que o compositor inclui na partitura e por atitudes como o bater de pé dos instrumentistas (gritando “hei”) quando a música evoca uma dança campestre. Mas tudo sempre informado por sentido de medida, bom senso e bom gosto. No palco, Pablo Rossi anunciou que a preparação do concerto contara com o auxílio de Roberto Ring, veterano violoncelista com longa trajetória na música de câmara, e a mescla entre juventude e experiência revelou-se das mais saudáveis.
Em seguida sucedeu um pequeno prodígio. Não houve intervalo, nem troca de músicos, apenas de solista: no lugar de Nathalia Oliveira, entrou outro egresso da Jovem, Vinícius Abad. Porém, no primeiro ataque do Verano Porteño, de Piazzolla, a sonoridade da orquestra revelou-se completamente outra. Como se os Solistas Barrocos de Santa Catarina tivessem dado lugar à Camerata de Tango de Florianópolis. De Sigiswald Kujiken e Anner Bijlsma, as referências passaram a ser Fernando Suárez Paz e José Bragato.
Piazzolla compôs Verano Porteño em 1965, para a trilha sonora da peça Melenita de Oro, de Alberto Rodríguez Muñoz, completando ao longo dos anos seguintes aquelas que se tornariam as Quatro estações portenhas – sempre para seu quinteto, que ele comandava do bandoneón. Para o projeto Eight Seasons (lançado no ano 2000 pela Nonesuch Records em um caprichado CD, cujo encarte inclui o poema Nuvens, do Nobel de Literatura Joseph Brodsky, em russo e inglês), que propõe o diálogo entre Vivaldi e Piazzolla, o violinista letão Gidon Kremer encomendou ao compositor russo Leonid Desyatnikov uma versão da obra do autor argentino para violino e orquestra de cordas. Além de eliminar o bandoneón, Desyatnikov reforçou a relação entre os ciclos, incluindo pequenas citações de Vivaldi nas obras de Piazzolla.
Se Kremer e a Kremerata Baltica alternavam as peças dos dois compositores, a interpretação da Ofic, colocando um autor depois do outro, colocou em relevo as diferenças entre eles. A personalidade e o vigor de Abad levantaram a Sala São Paulo, com o auxílio de um músico que não estava creditado no programa, mas que bem merecia o status de solista: o violoncelista Matheus Posso, de Guaianazes, outro oriundo da Estadualzinha que se aperfeiçoou no Mozarteum, e revelou-se um exuberante camaleão musical, tão à vontade em Vivaldi quanto em Piazzolla.
Depois do barroco italiano e do tango argentino com sotaque russo, a Ofic resolveu mostrar o passaporte brasileiro. No bis, a orquestra executou uma deliciosa versão de cordas da Congada de Francisco Mignone – que se anuncia como um excelente cartão de visitas para a turnê europeia que o grupo fará em breve. Se quiserem passar por São Paulo na volta, não me queixarei.
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