É preciso confiar em Luigi Nono

por João Luiz Sampaio 01/06/2026

Montagem de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska para Intolleranza 1960, no Theatro Municipal de São Paulo, é conceitualmente interessante, mas se traduz em uma  profusão de referências que diluem a força da obra

A música e a mensagem de Intolleranza 1960, de Luigi Nono, permanecem atuais.

Escrita em 1960, a obra tem como personagem principal um imigrante confrontado pela opressão, preso e levado a um campo de concentração. É, nas palavras do crítico Joshua Barone, um grito. Um grito pela dignidade em face à opressão, ao racismo contra imigrantes e ao desastre ecológico.

Falar em personagem principal talvez não seja o mais correto, pois Nono coloca em cena também um enorme coro, dando a ele função central na ação. E, ao encerrar a obra citando Brecht, define também a plateia como protagonista, nos relembrando que o homem está no centro da tragédia de sua própria destruição.

É entre o indivíduo e o coletivo que se dá a ação cênica proposta por Nono. Como, no entanto, “explorar a relação entre a voz individual e as dinâmicas sociais e políticas”, coloca Jonatham Impett em seu Routledge Handbook to Luigi Nono and Musical Thought, citado por João Marcos Coelho em seu texto sobre a obra publicado na edição de maio da Revista CONCERTO? É questão central na obra – e na montagem de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska estreada na sexta-feira, dia 29, no Theatro Municipal de São Paulo. 

De forma geral, os diretores seguem por dois caminhos.

Em um deles, evocam a tragédia das bombas atômicas. No palco, reproduzem a Cúpula Ganbaku, única estrutura que restou de pé perto do hipocentro da explosão em Hiroshima. É dentro dela, por exemplo, que vemos, em diálogo com gravuras de Goya, cenas de opressão do Estado sobre o indivíduo; ou então, no momento em que a estrutura é revestida de gelo, o impacto da crise climática. E isso faz da cúpula tanto símbolo de resistência quanto de permanência de conflitos.

De outro lado, parece estar o que, em entrevista a Ubiratan Brasil, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Nuno Ramos definiu como “deslocamentos motivados pelo inconsciente”. É nesse espaço onde vivem nossas pulsões, nossas forças e instintos básicos, que os diretores encontram o indivíduo. Essas forças estão retratadas nos figurinos de João Pimenta, no visagismo de Celso Kamura e na coreografia de Alejandro Ahmed, que faz do corpo espaço contorcido pelo estímulo do mundo à sua volta, representação do flagelo que ele cria e do qual é também vítima – uma escolha que estabelece conexão com o teatro de Meyerhold, que tanto influenciou Nono: os corpos, mais fortes do que a palavra, evocam a troca da ação externa pela tensão da ação interna que ela desperta. 

São ideias estimulantes, que, conceitualmente, sugerem uma conversa à altura do original de Nono. Mas, no palco, subjugam a criação do compositor.

Nono trabalha com massas sonoras, com a aglomeração do som, mesmo quando dá aos personagens protagonismo individual (entre os solistas, destacou-se, intensa cenicamente e particularmente atenta ao estilo, a soprano Maria Carla Pino Cury, como a esposa do imigrante, assim como foi aterrador o retrato de Marly Montoni para a mulher que encarna em seu canto a intolerância).

Mas a sonoridade está em constante transformação: é violenta e extrema, mas pode assumir caráter delicado, flertando com o silêncio. E nada disso é, naturalmente, fruto do acaso, prestando-se à criação de uma sintaxe musical que é ao mesmo tempo moderna e ancestral e define o sentido da narrativa.

Ramos e Climachauska, no entanto, ao dar forma visual a essa música, a soterram debaixo de uma profusão de referências e movimentos que não permitem a ela respirar e a despem da própria força que a define, perdida em redundâncias. Nono encerra a obra com o coro (o Lírico, regido por Hernán Sánchez Arteaga, em atuação memorável) com as palavras de Brecht. No silêncio que a elas se segue, e com o qual vamos para casa, cabe um mundo, em  um momento tão potente que torna inexplicável a diluição, com a presença de Climachauskas, sobre um tablado na plateia, o recitando ao público. É apenas uma das redundâncias, mas particularmente significativa.

Em especial em uma ópera como Intolleranza 1960, em que forma e conteúdo se colocam de maneira tão indissociável (ainda mais com uma leitura musical sofisticada como a apresentada no Municipal, sob regência de Priscila Bomfim), é preciso confiar na música, na sua relação com o texto e em seu poder de comunicação. É preciso não apenas encenar Nono, mas também, ouvi-lo.

[I'ntolleranza 1960' segue em cartaz até o dia 5 de junho no Theatro Municipal de São Paulo; veja mais detalhes no Roteiro do Site CONCERTO.]


Ouvinte Crítico

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Cena de 'Intolleranza 1960', em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação/Rafael Salvador]
Cena de 'Intolleranza 1960', em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo [Divulgação/Rafael Salvador]

 

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