Com excelência musical, Ópera de Zurique estreia nova produção de ‘Tannhäuser’

por Nelson Rubens Kunze 26/06/2026

Encenação moderna tem homens engravatados, projeção de vídeo e colisão de carro; Christian Gerhaher é destaque em elenco de alto nível

ZURIQUE - Assisti à estreia da nova produção de Tannhäuser, ópera de Richard Wagner, no último domingo, 21 de junho, na Ópera de Zurique. E foi uma realização musical extraordinária! A direção musical e regência foram do maestro russo Tugan Sokhiev, que, dando tempo ao tempo, logrou uma interpretação notável. Foi muito bom o desempenho vocal dos solistas, todos de alto nível, e a orquestra e o coro acompanharam com grande competência. O teatro de ópera de Zurique, o Opernhaus, talvez por suas dimensões relativamente reduzidas e seu amplo fosso, oferece um som rico com excelente equilíbrio entre a orquestra e as vozes do palco.

Soou lindamente o prelúdio de abertura da ópera, com frases bem desenhadas, já dando uma ideia do que viria pela frente. Sokhiev soube explorar todo o potencial musical da partitura, em uma interpretação ao mesmo tempo intensa e sensível. Entre os solistas, o destaque coube ao barítono alemão Christian Gerhaher: com timbre maduro, projeção homogênea e cuidadas inflexões vocais, Gerhaher fez o papel de Wolfram, que culminou com uma emocionante interpretação da ária “O du, mein holder Abendstern”. (Christian Gerhaher apresentou-se no Brasil em 2005, como solista da Osesp, no oratório Elias, de Mendelssohn, sob regência de John Neschling.)

Mas também os demais solistas tiveram ótima atuação: o tenor norte-americano Eric Cutler cantou o Tannhäuser, a soprano sueca Christina Nilsson, de voz clara e brilhante, e a mezzo norte-americana Rachel Wilson fizeram, respectivamente, Elisabeth e Vênus, e o baixo alemão Christof Fischesser interpretou Hermann, com bela voz e presença.

O diretor cênico que assina a produção é o islandês Thorleifur Örn Arnarsson, que contou com a artista Erna Mist como cenógrafa. 

A ópera Tannhäuser apresenta o dilema entre duas formas de existência: de um lado, o Venusberg, a montanha de Vênus, o lugar dos prazeres onde a deusa Vênus satisfaz todos os desejos; de outro, o mundo da Wartburg, regido por normas, disciplina e ideais de pureza. Na concepção de Arnarsson, o conflito entre esses dois mundos se torna um drama de identidade e desenraizamento existencial. 

Na concepção de Arnarsson, o conflito entre esses dois mundos se torna um drama de identidade e desenraizamento existencial

A intenção do diretor, segundo a entrevista publicada no programa, é apresentar Tannhäuser como alguém que não encontra o seu lugar no mundo e nem dentro de si. Arnarsson concebe a ação como uma jornada que ocorre na mente fragmentada de Tannhäuser, um homem sem pátria perdido em um labirinto, que em nenhum lugar se sente em casa. É um eterno peregrino angustiado.

Na nova montagem, Venusberg é um ambiente sem cores, envolto em fumaça, com uma imensa mesa cheia de copos vazios. É um espaço frio e monocromático. E é ali, no Venusberg, que Tannhäuser se perdeu há sete anos. E como segue insatisfeito e torturado, resolve retomar a sua peregrinação. 

Nesse instante, abre-se uma enorme tela cobrindo o fundo do palco com a projeção ao vivo do interior de um carro. O motorista é Wolfram, acompanhado de outros cinco homens engravatados. A viagem está caótica. Enquanto Wolfram tenta conduzir o veículo, os outros, em algazarra, se divertem e cheiram cocaína. 

De repente, um estrondo, copos estilhaçando, fumaça. O carro invadiu o palco e se chocou contra a mesa de copos do Venusberg

De repente, um estrondo, copos estilhaçando, fumaça. O carro invadiu o palco e se chocou contra a mesa de copos do Venusberg. E assim, Tannhäuser reencontra Wolfram e os outros trovadores, que o fazem recordar sua vida anterior, em Wartburg, e Elisabeth, que ele abandonara. Resolve então voltar e se reconciliar com aquele mundo que havia renegado. Porém, quando finalmente Elisabeth aparece, ela é uma estátua, uma representação da solidão e da impossibilidade de amar de Tannhäuser.

O carro conduzido por Wolfram invade o palco (divulgação, Erwin Prammer)
O carro conduzido por Wolfram invade o palco (divulgação, Erwin Prammer)

A encenação do novo Tannhäuser é assim, cheia de símbolos, deslocada no tempo e no espaço. Nada de cenários mitológicos, natureza ou figurinos de época. Wartburg do segundo ato é um salão sem janelas ou portas, de paredes douradas, retas e altas, que fecham lateralmente tornando o espaço cada vez mais estreito e sufocante. No terceiro ato, veem-se imensas lâminas de vidro espetadas sobre o palco, que gira lentamente, com uma contraluz tomando todo o fundo do palco. Plasticamente, um cenário bonito e impactante.

No geral, se é preciso reconhecer uma encenação repleta de boas ideias e de virtuosismo técnico – especialmente na cena da colisão do carro –, a viagem interior pela mente fragmentada de Tannhäuser confere à montagem uma dimensão excessivamente abstrata e subtrai da ópera um lado mais orgânico e vital. A apresentação de Elisabeth como uma estátua é talvez o exemplo mais emblemático dessa opção, pois, ao reduzi-la à projeção idealizada por Tannhäuser, a encenação acaba por atenuar a intensidade do drama humano vivido pela personagem, enfraquecendo o próprio conflito emocional do protagonista.

O novo Tannhäuser da Ópera de Zurique se destaca pela incontestável excelência de sua realização musical. Já a opção cênica de Thorleifur Örn Arnarsson, ainda que eventualmente controversa, é também rica e revela uma proposta artística consistente. 

Ao sair do teatro, lembrei-me de um artigo que lera no dia anterior no jornal austríaco Die Presse, escrito pelo ex-diretor da Ópera Estatal de Viena, Ioan Holender, com o sugestivo título “Assim a ópera não sobreviverá”. Holender é categórico ao afirmar que a supervalorização dos conceitos dos encenadores em detrimento da música e do libreto ameaça a própria sobrevivência da ópera.

Holender é categórico ao afirmar que a supervalorização dos conceitos dos encenadores em detrimento da música e do libreto ameaça a própria sobrevivência da ópera

O debate sobre os limites das releituras cênicas não é novo e tampouco se restringe à Europa. É só lembrar daqui de São Paulo, onde, nos últimos anos, tivemos acirradas polêmicas em torno de algumas produções do Theatro Municipal.

Em ópera, as montagens tradicionais continuam válidas, claro. Mas também o são as novas leituras, pois, a partir das obras consagradas, elas procuram estabelecer pontes entre as obras consagradas e as questões de cada época e impedem que o repertório histórico se transforme em mero objeto de contemplação. 

Entre tradição e renovação, a ópera continua encontrando formas de dialogar com o mundo atual, complexo e conturbado. É essa vitalidade que garante a permanência e a atualidade dos grandes clássicos. 


Veja abaixo fotos da encenação de Tannhäuser, nova produção da Ópera de Zurique (divulgação, Herwig Prammer)

Cena de Tannhäuser, nova produção da Ópera de Zurique (divulgação, Herwig Prammer)
Cena do primeiro ato, Venusberg (divulgação, Herwig Prammer)
Cena de Wartburg no segundo ato (divulgação, Erwin Prammer)
Cena de Wartburg no segundo ato (divulgação, Erwin Prammer)
Cena do terceiro ato de Tannhäuser (divulgação, Erwin Prammer)
Cena do terceiro ato de Tannhäuser (divulgação, Erwin Prammer)

 

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