Uniopera estreia ‘Turandot’ no Teatro Bradesco

por Nelson Rubens Kunze 06/07/2026

Montagem de Puccini tem destacado elenco e contribui para formação de público

O compositor Gilberto Mendes (1920-2016) lamentava que a elite cultural brasileira era ignorante em relação à música clássica. Em comparação com outras artes – em que suas referências seriam Proust, Becket, Kafka ou Borges ou então Picasso, Duchamp, Rohtko ou Richter – na música, seu repertório terminava em Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Se é de fato assim, a Uniopera faz uma grande contribuição para ampliar o acesso à ópera ao levar o gênero para outros espaços, como o Teatro Bradesco. 

Na semana passada a companhia estreou mais um título completo nesse teatro, localizado no Shopping Bourbon, zona Oeste de São Paulo. E não é uma ópera pequena ou de pretensão modesta, não. É simplesmente Turandot, de Giacomo Puccini, uma das maiores criações líricas da história do gênero, que exige uma grande orquestra, um coro numeroso e um elenco de solistas de alto nível. A produção é independente, sem patrocínios ou recursos estatais, e é financiada por meio dos ingressos vendidos. E para esta produção, a Uniopera realizou a proeza de vender todos os ingressos de suas 10 récitas programadas. Considerando que o teatro tem 1.400 lugares, são 14.000 pessoas que assistirão à programação! E, mais do que isso, 14.000 pessoas que provavelmente não frequentam esse tipo de espetáculo.

Essa história vem sendo construída já há mais de 20 anos, e quem está por trás da empreitada é o maestro Luciano Camargo. Formado na Alemanha e hoje professor da Unesp, Camargo inspirou-se no modelo dos corais comunitários para criar o Coral Cidade de São Paulo, que é o núcleo do projeto. Ali, dezenas de interessados – amadores aposentados, profissionais liberais, ex-cantores e todos que quiserem – reúnem-se para cantar em um grande movimento para fazer a música parte do dia a dia de cada um deles. Os programas ensaiados resultam então em apresentações públicas, que, ao longo dos anos, tornaram-se cada vez mais ambiciosas. Em parceria com o diretor cênico Rodolfo García Vázquez (do grupo teatral Os Sátyros), a Uniopera já realizou encenações de títulos como A flauta mágica, O barbeiro de Sevilha, Carmen, La bohème e La traviata, além de grandes obras corais-sinfônicas como a Nona de Beethoven. E sempre para um público novo.

Assisti à segunda récita da nova montagem de Turandot no sábado passado, dia 4 de julho. A encenação de Rodolfo Vázquez é simples e despojada, mas bonita e atraente. Cenários (Priscila Soares) são elaborados a partir de cortinas e grandes panos que pendem do teto, sempre em tons claros e com motivos de hexagramas do I-Ching ou do ideograma chinês – como leio no programa, a montagem é toda inspirada na filosofia oriental. Cada um dos atos tem um cenário próprio e uma boa iluminação (Guilherme Bonfanti) confere atmosferas distintas. Algumas vezes, amplas cortinas transparentes cobrem todo o palco, fazendo que a movimentação por trás seja vista como sombras em bonitos efeitos. Cada ato também traz um elemento próprio – no primeiro uma pequena escadaria com o gongo, no terceiro uma árvore estilizada – o que também auxilia a narração visual dos acontecimentos. Os figurinos de Amanda Pilla B. são caprichados e de bom gosto.

Para além disso, Vázquez trabalha a movimentação dos atores de modo bem direto e orgânico, oferecendo por um lado ótimas condições para a atuação artística dos solistas e do coro e, por outro, fazendo com que o público possa seguir o fio condutor da história. É uma encenação abstrata, mas que dramaturgicamente é conduzida de modo tradicional.

Um elenco de destacadas vozes foi o ponto alto da apresentação. Na récita que assisti (sábado dia 4), Turandot foi interpretada pela soprano Tatiana Carlos, cuja voz potente e bem caracterizada por vezes careceu de um pouco mais de variedade no vibrato. O tenor Thiago Arancan fez o papel de Calaf, com bela e matizada voz. E a soprano Carmen Monarcha interpretou Liù com voz bem projetada e de rico timbre. 

Mas também o elenco de apoio teve boa participação. Timur foi cantado com muita propriedade por Adamo Oliveira, assim como Isaque Oliveira (Ping), Vinicius Cestari (Pong), Ernesto Borghi (Pang) e Rodolfo Giugliani (Mandarino).

No geral, o maestro Luciano Camargo soube conduzir o espetáculo com bom ritmo e a encenação fluiu bem, com boa participação da orquestra. Se talvez tenha faltado um pouco de tensão dramática nos dois atos iniciais – especialmente a cena dos enigmas pareceu-me aquém do que a música e o texto sugerem –, o terceiro é pleno de energia e emoção. Arancam apresentou uma interpretação muito convincente de Nessun Dorma, finalizando de modo intenso e eletrizante. Mas o ponto culminante do espetáculo foi a passagem em que Liù é torturada até o momento de seu derradeiro fim. Carmen Monarcha construiu a sequência de forma muito consistente, com excelente desempenho vocal e teatral.

Claro que, em uma produção com essas características, não se pode esperar do coro o mesmo desempenho de um conjunto profissional, sobretudo em uma partitura tão exigente quanto a de Turandot, na qual ele desempenha papel muito importante. Mas as passagens desiguais foram largamente compensadas pelo comprometimento dos cantores. 

O arrojo da Uniopera de enfrentar uma obra dessa envergadura confirma o valor de um projeto que amplia de forma concreta o acesso à ópera sem abrir mão da ambição artística.

[Turandot ainda terá apresentações com este mesmo elenco hoje (dia 6) e nos dias 8, 10 e 12; as récitas dos dias 7, 9 e 11 serão com os solistas Joyce Martins como Turandot, Paulo Mandarino como Calaf e Elisa Braga fazendo Liù.]

Veja abaixo algumas fotos da produção de Turandot da Uniopera (divulgação, Andréa Camargo)

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