Disco do Duo Ebano imagina como Schubert comporia hoje, no século XXI, obras-primas do universo do lied, onde permanece incomparável
A música de Franz Schubert continua exercendo um fascínio muito peculiar, mesmo hoje, já bem entrados que estamos no século XXI. E não só no público, talvez mais nos músicos. O álbum do Duo Ebano, Dear Franz, do selo 7Mountain Records, é o fruto mais recente – e arrebatador – desta onda que já se pode classificar como tendência: a de “recriar”, “reinventar” a obra de compositores do passado.
Sim, sua memória está certa. Substitua Schubert por Villa-Lobos, e Duo Ebano por Erika Ribeiro: foram estas palavras que escrevi sobre o instigante álbum da pianista brasileira poucas semanas atrás. E agora fui obrigado a repetir o parágrafo, porque a atitude do pianista Paolo Gorini e do clarinetista Marco Danesi caminha na mesma direção. Com diferenças substanciais, claro, mas o espírito é o mesmo.
Senão, vejamos: Érika escreveu no encarte que a ideia foi “experimentar o repertório villa-lobiano como o lugar de criação e descoberta que, por natureza, ele é”. Paulo Gorini começa seu texto no encarte do álbum assim: “O repertório que você está prestes a ouvir surgiu de incontáveis horas de audição e discussão, guiados não apenas pelo carinho pela música, mas também pelo seu potencial de ser remodelado pelo som do nosso duo. Depois de selecionar o material, começamos a imaginar essas melodias e harmonias dentro da nossa instrumentação agora ampliada”.
E por ampliada Gorini entende uma incrível recriação – ou “aggiornamento” –, imaginando como Schubert comporia hoje, no século XXI, obras-primas do universo do lied, onde permanece incomparável. Ele só escolheu gemas como Gute Nacht e O homem do realejo, do ciclo Viagem de inverno, Flores secas, do ciclo A bela moleira, e Erlkönig. E coroou com um atrevimento genial: um arranjo unindo o Andante sostenuto da última sonata de Schubert, a D. 960 com o “Andantino” da sonata nº 20, D. 959.
Esqueci de mencionar a única obra que é interpretada tal como foi composta: é a linda e encorpada ária de concerto O pastor no rochedo D. 956, sua última canção, de outubro de 1828 (ele morreu, aos 31 anos, em 19 de novembro), para soprano, clarinete e piano, com a ótima Elisabeth Hetherington.
Mas quero me concentrar nas ousadas reinvenções do duo italiano, reimaginando sua música e expandindo o universo sonoro adotando técnicas contemporâneas. Vale a pena seguir o raciocínio de Gorini: “Imaginamos um processo de audição onde o ouvinte gradualmente encontra um ‘tipo diferente’ de Schubert, cada vez mais filtrado pela linguagem sonora do Duo Ebano”. Daí a necessidade de escutar o álbum segundo sua proposta de sequência do repertório: a primeira parte compõe-se de arranjos ou transcrições; as aventuras sonoras mais radicais, na metade final; e, no centro, a ária de concerto que fielmente respeita a partitura original nos lembra, diz Gorini, “que, mesmo quando a música soa distante, Schubert permanece o ponto de partida”.
Já sei que hoje em dia a gente acaba ouvindo faixas a esmo, prospectando o CD digital. Mas, por favor, deixe de lado o cacoete. Tente ouvir da primeira á última faixa sem interrupções. Vale a viagem. E é essencial para percebermos o alcance desta arrojada proposta, que bate de frente com “Sua Alteza o Algoritmo”. Gorini alerta que “Dear Franz funciona como uma lupa: algumas peças permanecem próximas da partitura, quase nota por nota, enquanto outras se distanciam, abrindo as fibras da música até se tornarem algo novo, com a obra original permanecendo uma referência clara, porém flexível”.
A música eletrônica desempenha um papel de destaque nas aventuras sonoras do duo. Gorini usa o Seabord, teclado que permite modulação contínua por toque – algo impossível no piano acústico. Ele é usado em Erlkönig e também no Andante sostenuto da Sonata D. 960. Além disso, Gorini recorre a sonoridades pré-gravadas que se juntam ao clarinete e piano tocados em tempo real, como no citado Erlkönig e também no Homem do realejo.
Além do clarinete, Marco Danesi toca o clarone (clarinete baixo), instrumentos de palheta simples; e também o “duduk”, instrumento de sopro de palheta dupla multissecular originário da Armênia. Ao escutar o “Andante sostenuto da Sonata D. 960, você vai se emocionar com sua sonoridade frágil, introspectiva, ideal para momentos como este andante sostenuto, porque o instrumento transmite “uma sensação de tempo suspenso e intimidade frágil”, nas palavras de Gorini.
P.S.: ao pesquisar sobre o instrumento, topei com uma postagem de André Mehmari de 2022, em plena pandemia, ao lado de uma foto dele tocando duduk, que reproduzo: “Pense num instrumento capaz de expressar um sentimento de pesar como o duduk armênio. Ao soprar este velho instrumento ancestral, me transporto imediatamente pra um outro tempo-lugar, uma montanha rochosa no Cáucaso. Bom poder viajar sem sair do lugar, nesses tempos de cólera. E não somente. É pau, é pedra – e sobre o fim do caminho pouco ou nada sabemos”.
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