‘Elixir do amor’ do Palácio das Artes tem encenação problemática

por Nelson Rubens Kunze 28/04/2019

A música é o destaque da nova produção de O elixir do amor, de Donizetti, do Palácio das Artes de Belo Horizonte. O maestro Silvio Viegas, que conduziu a Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais (preparação Lara Tanaka), logrou trazer o espírito desse famoso título da opera buffa italiana – Gaetano Donizetti escreveu O elixir do amor em 1832 – com a devida graça e leveza. 

Foi equilibrado também o elenco, no qual se destacou o tenor Santiago Martinez, que fez o apaixonado Nemorino com um belo e homogêneo timbre, além de ótima projeção vocal. Adina foi interpretada por Carla Cottini: voz privilegiada de agudos fáceis, ela é perfeita para o papel.

Também o restante do elenco demonstrou competência. Com seu carisma, o barítono Homero Velho fez Belcore, e o baixo Homero Pérez Miranda entregou um charlatão Dulcamara consistente. Em boas intervenções, a soprano Fabíola Protzner, como Gianettta, completou o time de solistas. (Assisti à récita do dia 26 de abril, sexta-feira.)

Por sua vez, a encenação, que transporta a narrativa para uma escola secundária, high school, dos Estados Unidos, suponho que nos anos 1960, é problemática. Na montagem concebida por Pablo Maritano (o diretor argentino tem realizado bons trabalhos no Brasil nos últimos anos, como, por exemplo, O navio fantasmaO cavaleiro da rosa), o nerd Nemorino disputa a estudiosa Adina com o descolado Belcore, quarta zaga do time de futebol americano. As outras meninas da classe (originalmente camponesas) viraram “cheerleaders”, de saias listradas, pompons e bastões com fitas coloridas. Dulcamara aparece em frente à escola com um carrinho rosa vendendo guaraná Jesus. 

Belcore, Adina e Nemorino, secundaristas em escola norte-americana [divulgação / Paulo Lacerda]
Belcore, Adina e Nemorino, secundaristas em escola norte-americana [divulgação / Paulo Lacerda]

A tentativa forçada de encaixar essa concepção em um libreto que conta uma divertida história de sedução e amor em uma aldeia camponesa do século XIX, com um pretendente oficial do exército e um charlatão bonachão que vende uma poção do amor, levou a dois problemas: primeiro, roubou da narrativa a sua graça e ingenuidade; e, segundo, imprimiu uma visão estereotipada da juventude. Com a infantilização da trama, perdeu-se a riqueza do perfil típico dos personagens, tão presente nos caracteres da opera buffa.

Há montagens de títulos antigos com deslocamentos temporais ou geográficos que funcionam, pois acrescentam novas camadas interpretativas à obra. Não é o caso deste Elixir do amor do Palácio das Artes, que resultou mais pobre. É uma pena, pois além da boa realização musical, é uma montagem cuidada, fluente e bem produzida.

 

Veja abaixo outras fotos da produção [Divulgação / Paulo Lacerda]

‘O elixir do amor’, produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte [divulgação / Paulo Lacerda]

‘O elixir do amor’, produção do Palácio das Artes de Belo Horizonte [divulgação / Paulo Lacerda]

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