Projeto do violoncelista William Teixeira mostra como a inteligência artificial pode ajudar a reconstruir repertórios
No campo da arte, o hype da inteligência artificial tem suscitado debates acalorados sobre autoria. Desde pelo menos o final de 2024, gravadoras têm processado donos de softwares como o Suno e o Udio, dois gigantes geradores de música por inteligência artificial, pelo uso indevido do material de seus artistas. A prática tem até virado golpe: a revista Rolling Stone recentemente publicou uma matéria contando sobre como músicos têm encontrado canções publicadas em seus nomes, mas que jamais foram criadas por eles.
Como funciona? Pessoas geram músicas que “personificam” o artista e as cadastram nos streamings sob o nome desses mesmos artistas. Sim, aparentemente é possível subir uma música no Spotify em nome de um artista que não é você, sem o mínimo filtro da plataforma que identifique a fraude e bloqueie a ação (não faça isso, por favor). O resultado? Os lucros dos streamings, em vez de direcionados aos artistas, vão parar nos bolsos dos golpistas.
É notório o fato de que empresas como o Spotify pagam muito pouco por streaming, mas imagine soltar por aí milhões de músicas feitas assim? A Deezer, concorrente do Spotify, já informa: mais de 44% de seus uploads são músicas feitas via inteligência artificial. E mais um dado que espanta: outra pesquisa revela que 97% das pessoas não conseguem identificar músicas feitas por IA.
Se esta novidade tecnológica veio pontuar de vez a massificação da produção cultural ou veio estabelecer novas formas de criação, só o futuro dirá. Talvez vejamos resultados em ambos os casos. Por enquanto nos cabe estar atentos e mapear o que pode ser feito com ela. Se softwares como o Suno AI ou o Udio permitem criar músicas pop inteiras, faixas precisas a ponto de nos fazerem pensar que foram gravadas em superproduções de estúdio (e, no outro extremo, criar aquele conteúdo irritante e mal-feito que já ganhou a alcunha de “ai slop”), também é possível usar essa tecnologia para criar sons completamente novos. Ou recompor sons há muito tempo perdidos.
IA na música contemporânea
O violoncelista William Teixeira vê a IA como uma ferramenta que pode auxiliar nessa descoberta e, no caso de seu projeto, na reconstrução do repertório da música eletrônica para violoncelo. “O que a IA faz é ajudar a ganhar tempo nos processos criativos, como sempre aconteceu na história da arte”, aponta. Teixeira é professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul há dez anos e tem associado sua pesquisa acadêmica à performance de música contemporânea – desde 2023 ele tem se debruçado sobre o uso da IA em contextos da música nova. E sua ferramenta principal tem sido o Somax2, sistema de inteligência artificial voltado à composição e improvisação. O programa foi desenvolvido pelo renomado IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique).
Como pesquisador visitante na Universidade de Harvard, com bolsa Fulbright, e em residência no IRCAM, Teixeira aprofundou o desenvolvimento de sistemas articulados à música eletroacústica mista, que é aquela em que os intérpretes tocam acompanhados de sons eletrônicos.
Como sua pesquisa de pós-doutorado, Teixeira está recuperando o repertório brasileiro escrito para violoncelo e eletrônica, com o qual tem aplicado e desenvolvido suas descobertas. A pesquisa revelou uma produção profícua do gênero aqui no Brasil - tão profícua que não coube em um só lançamento.
O primeiro resultado foi o EP 1+, que traz obras de Roberto Victorio, Denise Garcia, Silvio Ferraz e Jocy de Oliveira. As obras de Garcia e Ferraz foram feitas do zero, em colaboração direta com o violoncelista; já as de Victorio e Oliveira já existiam, e exigiram uma espécie de recomposição dos sons eletrônicos – e é aí que entra a IA. “As obras não possuíam parte eletrônica fixa. Em ambos os casos notei que o Somax2 seria muito adequado para essa realização”, conta Teixeira.
Mas este trabalho não se resume a um prompt e um clique: o violoncelista frisa como a ferramenta é co-criativa, e não generativa (como a que é amplamente difundida). Por isso os processos que envolvem o Somax2 – que vão desde a limpeza de gravações até a recriação de relações entre materiais musicais – podem durar até dias, sem contar todo o trabalho de pesquisa.
A recuperação da parte eletrônica da obra de Jocy de Oliveira, Berceuse pour Père Igor, por exemplo, envolveu, antes dos processos com o Somax2, uma boa conversa com a compositora, que relembrou o processo original. A obra tinha sido uma improvisação entre ela e o violoncelista Peter Schuback: Jocy entrou com a parte eletrônica, na qual usou trechos do Pássaro de fogo, de Stravinsky; e Schuback interagiu com aqueles sons, improvisando com seu violoncelo. Há uma única gravação dessa performance, feita na estreia. “Depois de entender o processo, sugeri a Jocy que eu poderia tentar refazer interação entre todos esses elementos, relacionando-os por meio do Somax2.” O violoncelista alimentou o programa com trechos do Pássaro de fogo e também com a gravação da estreia; além disso, incluiu outros materiais compostos por Jocy de Oliveira e sons do violoncelo dele próprio. “O programa analisa a natureza sonora dessas fontes e também identifica os modos de interação que houve entre Schuback e a Jocy. A ideia é continuar esse processo de improvisação que é marca da peça. Assim mantemos uma unidade, mas sem deixar de lado a novidade da obra”, explica.
Recriando um repertório
O último lançamento deste projeto contempla um trio de álbuns e está prestes a sair. O álbum CELLO++/BR: Música brasileira para violoncelo e eletrônica (1967–2017), Volume 1, traz obras de Jorge Antunes, Claudio Santoro, Rufo Herrera, Rodolfo Caesar, Rodrigo Cicchelli e Jocy de Oliveira. O projeto foi feito em parceria com o Centro de Documentação de Música Contemporânea, o CDMC, com o apoio do CNPq. A série promete recuperar 50 anos da produção brasileira para violoncelo e eletrônica.
William Teixeira também levará este repertório em recitais por todo o Brasil. A primeira apresentação acontece nesta quinta-feira, dia 14 de maio, nas Jornadas de Música Mista da UFRJ, onde também tocará em julho, durante a Maratona de Música Eletroacústica. Ele também se apresenta na Bienal de Música Eletroacústica de São Paulo (BIMESP, em outubro) e no Encontro Internacional da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (novembro, em Goiânia), entre outros concertos. A agenda completa pode ser encontrada ao final deste texto.
Ainda pensando sobre os lados da moeda da inteligência artificial, lembro Teixeira sobre como a própria música eletrônica já representou uma espécie de ameaça para os instrumentistas e cantores, porque não mais demandava o performer no palco; acontecia “sozinha”, no máximo com alguém difundindo os sons. Ainda acontece, como no caso da música acusmática, mas este não foi o fim da interpretação da música contemporânea. Teixeira aponta como, ao contrário, o estabelecimento desses sons novos ajudaram a recuperar um dado incontornável da performance, que é o gesto, o movimento. Os sons gerados eletronicamente inspiraram compositores a buscar esses mesmos sons também nos instrumentos e nas vozes. “É o retorno ao pensamento da música como um processo relacional, que envolve também a visão do resultado desses gestos e movimentos no corpo do performer. Esse repertório só se efetiva no palco”, reflete.
Será o problema não a IA, mas o que se faz com ela? Nas mãos de grandes empresas ou na mão de pesquisadores, vemos como ela é capaz de resultados completamente diferentes.
Agenda
Dia 14/5 – Jornadas de Música Mista, UFRJ, 17h (Rio de Janeiro)
Dia 20/5: Recital-palestra na PAC-UEM, 19h30 (Maringá)
Dia 27/5: Concerto de lançamento do disco Cello++/BR, Unicamp 19h (Campinas)
Dia 6/6: Concerto de aniversário da Jocy de Oliveira, Estação Motiva Cultural, 18h (São Paulo)
Dia 25/6: Conferência “Ecologia sonora: Escuta, relação e conhecimento”, Unicamp, 17h (Campinas)
Dia 7/7: Recital no Espaço de Criação e Investigação Sonora, UFMG, 18h (Belo Horizonte)
Dia 29/7: Recital na Maratona de Música Eletroacústica, UFRJ, 18h (Rio de Janeiro)
Outubro: Recital na BIMESP, Bienal de Música Eletroacústica de São Paulo
Novembro: Recital no Encontro Internacional de Música Eletroacústica, organizado pela Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (Goiânia)
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