Na produção do Theatro São Pedro, Offenbach apareceu como ele é: não um mero fabricante de efeitos, mas um criador que esconde, sob a máscara do riso, uma lucidez implacável
Vamos sem rodeios: o Orfeu no inferno, de Offenbach, apresentado no Theatro São Pedro, foi um prodígio.
Não há montagens mais difíceis do que as das óperas-bufas de Offenbach. O crepúsculo dos deuses ou Carmen são fichinha perto delas.
Primeiro, porque não é simples encenar óperas engraçadas. Fazer rir é árdua tarefa. Fazer rir com música, mais ainda. Os cantores podem ser fenomenais, mas se não tiverem espírito, babau.
E há ainda o vício frequente: o medo de não provocar riso leva encenadores a sublinhar o grotesco, a mostrar a intenção em vez de produzir o efeito. O resultado costuma ser sem graça, meio infantil.
Do lado musical, o risco é o do regente atropelar a música a fim de obter efeitos bombásticos. Esquece-se que Offenbach foi um verdadeiro grande compositor, formidável na invenção melódica, orquestrando com sutileza, compondo com a ciência e o talento dos maiores.
Dou um exemplo. Logo no início, a melodia que Orfeu tira de seu violino é destinada a irritar Eurídice, que não suporta mais o marido e sua arte, tapando os ouvidos e arremedando o tema.
Ora, o compositor poderia ter inventado frases grotescas e ridículas. Mas ele jamais deixa de inserir beleza no que faz, e o trecho é lindo. Da mesma maneira, a pastoral de Euristeu, também no início, deve fazer rir pelo texto, mas a composição, quando encontra intérprete de alto nível, como foi com Aníbal Mancini, no São Pedro, adquire irresistível poesia.
O maestro André dos Santos foi, em primeiro lugar, o principal responsável pela qualidade do espetáculo. Ele mesmo fez a tradução dos textos falados e musicais de modo feliz. Sobretudo, assumiu o paradoxo que Offenbach exige: levar a sério a música desse compositor patusco.
André dos Santos é um regente cuidadoso e fino, particularmente feliz no repertório francês (ainda tenho no ouvido a lembrança de um extraordinário Prélude à l’après-midi d’un faune que ele regeu há tempos na mesma sala do São Pedro). Para Offenbach é preciso sutileza, transparência, elegância, leveza e entrain, palavra francesa que significa, alegria, mas uma alegria em movimento e contagiante. Cujo melhor exemplo é o Galop Infernal, ou seja, o cancã, música celebérrima que passou a personificar a França e o espírito francês no mundo inteiro.
André dos Santos respeitou também com cuidado a partitura, sem pensar, como é tão comum, que é preciso mutilar uma obra para que o público a aceite.
A Orquestra e o Coro do Theatro São Pedro secundaram essa concepção; e ela também deve ter contagiado a encenadora Cibele Forjaz – que está em sua segunda investida no campo da ópera, a primeira sendo aquele bastante duvidoso Guarany do Theatro Municipal.
Ela poderia não ter insistido tanto no vínculo entre o personagem da Opinião Pública (que Denise de Freitas encarnou com presença e energia fora do comum) e as redes sociais – mas isso foi sobretudo no início, com as partes faladas desnecessariamente alongadas. Ou no emprego de amplificação em algumas passagens faladas, criando um contraste desagradável com os momentos de fala natural. Ou nos duplos (atores que espelhavam os personagens principais), exceto para o de Eurídice, porque o ator era de fato engraçado. Os cenários e os figurinos poderiam ser mais coloridos e felizes e a iluminação mais cuidada. Mas tudo isso não compromete o resultado obtido.
René Leibowitz, mítico musicólogo, especialista em Schoenberg, professor de Boulez, escreveu algumas páginas definitivas sobre Offenbach. Ele assinala que, ao parodiar o gênero da ópera e a sociedade falsamente aristocrática do Segundo Império francês, Offenbach faz o público rir de si mesmo.
“É uma música disfarçada e, ao mesmo tempo, é uma música do disfarce: disfarce dos personagens, mas também disfarce da melancolia, da nostalgia de uma inocência perdida que, para isso, reveste o hábito da alegria mais louca e mais exuberante. Mas essa farsa que parece desprovida de toda preocupação verdadeira e que procura transformar em vento e poeira, em brincadeiras e risos, a realidade melancólica de que se alimenta, reencontra essa mesma realidade sob seu aspecto profundamente dramático, onde o bom humor deixa por vezes transparecer lágrimas e frequentemente trai a nostalgia desse drama verdadeiro tal como apareceria se não estivesse – precisamente – disfarçado.”
Como chave explicativa, Leibowitz situa a ária de John Styx, “Quando eu era rei da Beócia”. Nostalgia de um momento situado em outro mundo, em outro lugar: “Profundamente melancólico, quase trágico, o caráter de John Styx se exprime por meio de música que testemunha, ela também, essas mesmas características”. Maurício Etchebehere teve plena razão em afastar, com sua bela voz e segura musicalidade, os aspectos caricaturais que os intérpretes normalmente imprimem no personagem.
Mas este retrato sombrio que estou fazendo de Orfeu no inferno parece afastar a sua característica mais poderosa: a diabólica e radiante energia de sua música. Não foi o caso.
O mundo um pouco soturno que se viu no palco remetia àquele sentimento melancólico em segundo grau, mas não neutralizou a força sedutora e eufórica da obra. Força corrosiva também, porque os deuses do Olimpo, entediados, corruptos e muito pouco edificantes formam uma caricatura direta da sociedade do Segundo Império francês que não está tão distante assim da nossa.
Nesse universo, o personagem de Cupido é o motor do desejo e não do amor – amor, que é o tema real do mito de Orfeu – e, em vez de um princípio elevado, ele é um impulso leve, volúvel, cínico. Cupido encarna essa trivialização: o amor é um jogo, não um destino trágico. No São Pedro, foi cantado esplendidamente por Juliana Taino, sempre excelente intérprete – embora vestida mais como Flora do que como o garotinho alado.
Orfeu no inferno foi, desde o início, uma superprodução, e exige um elenco numeroso. Entre os bons e os excelentes, todos contribuíram para a qualidade da récita. Mas o que permanece, ao fim, não é a soma dos desempenhos, e sim a evidência de algo mais raro: Offenbach apareceu como ele é – não um mero fabricante de efeitos, mas um criador que esconde, sob a máscara do riso, uma lucidez implacável.
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