Precisão e espírito em uma homenagem a Olivier Toni

por Jorge Coli 04/06/2026

Sob regência de Claudio Cruz, Orquestra Jovem do Estado celebrou o centenário do compositor em concerto na Sala São Paulo

A Orquestra Jovem do Estado de São Paulo cintila com todas as chispas da juventude e do talento de todos seus componentes. O trabalho que o violinista e maestro Claudio Cruz vem fazendo com ela elevou-a ao nível das maiores. No domingo, dia 31 de maio, o grupo ofereceu um concerto consagrado aos 100 anos do maestro Olivier Toni. Escrever sobre esse concerto é um ato de gratidão.

A carreira de Toni deixou marcas por toda parte: na formação da Orquestra de Câmara de São Paulo, hoje extinta, mas que foi de qualidade excepcional; na Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo; no Festival de Prados, na criação do Instituto de Artes e do Departamento de Música da USP. Tudo isso, e bem mais, fecundou o futuro musical do país, futuro esse que vivemos hoje. Formou um grande número dos principais nomes da música brasileira atual. Incansável, até o fim de sua vida não cessou qualquer esforço. Não há gratidão à altura da obra humana e musical que ele deixou.

O compositor Olivier Toni é menos conhecido, sabe-se lá por quê. Sua música deveria estar no repertório de todas as orquestras. Desdenhando o folclorismo raso que tomou conta de tantas partituras brasileiras nos últimos oitenta anos, suas obras possuem o triplo sentido da estrutura, da expressividade e da narrativa sonora.

Foi, portanto, uma felicidade ouvir o Recitativo I, para violino e cordas, que Claudio Cruz, em seu solo, iluminou com a beleza de sua sonoridade violinística. Toni declarou, não sobre essa obra, mas sobre o recitativo em geral: “O recitativo foi uma situação encontrada dentro da música de palco, importante para você fazer os personagens se moverem. No momento em que a personagem vai matar alguém, não dá para fazer isso dentro de uma ária. Então o recitativo é uma coisa muito atraente para mim”.

Aí está o aspecto narrativo ao qual eu me referia antes. Nunca a música deixou de ser para ele uma forma de narrar, nunca foi apenas uma constelação estática, mas uma forma de contar o indizível. 

O próprio Toni narra a gênese da cantata O navio negreiro [leia aqui]. Ela teve como solistas Laiana Oliveira, soprano que cantou admiravelmente, e João Paulo Rocha Nunes, contrabaixo impecável. A voz de Laiana Oliveira teve a força de sustentar ao mesmo tempo o ardor e o lamento exigidos pelos versos de Castro Alves e pela música de Toni. João Paulo Rocha Nunes deu ao grave a presença sombria que a cantata pede. A partitura é difícil, com uma intrincada mescla de ritmos, aderindo à expressividade do poema; Claudio Cruz regeu com precisão, espírito e finura nos detalhes.

Cruz teve o cuidado de anunciar que as Variações, de 1953, eram música abstrata, mas que o público iria gostar. Sem dúvida, porque Toni, que foi um apaixonado por Puccini, nunca deixou a expressividade, a ênfase, o sentimento exaltado ou sutil fora de suas obras. Além disso, Cruz regeu com páthos e força plástica, sublinhando os efeitos surpreendentes (o espantoso e originalíssimo final!) dessa obra escrita por um músico de 27 anos. A sala explodiu em aplausos.

A segunda parte do concerto teve a Sinfonia nº 3, de Brahms, outro compositor a quem Toni consagrava uma verdadeira devoção. Claudio Cruz garantiu que a música se espraiasse sem pressa,  permitindo que ela respirasse, num avanço majestático. Execução grandiosa no Allegro con brio inicial, e as melodias tranquilas do clarinete no segundo movimento tocaram o fundo da alma. O terceiro movimento, amplo e melancólico, fluiu suavemente; o finale dramático foi conduzido com segurança até que todos os conflitos se resolvessem no desfecho sereno.

Orquestra Jovem do Estado na Sala São Paulo [Divulgação]
Orquestra Jovem do Estado na Sala São Paulo [Divulgação]

 

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