Produção de Salvator Rosa apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro é daqueles momentos excepcionais, incendiados, que nos marcam para a vida
RIO DE JANEIRO - Há apresentações musicais que nos levam a um estado transcendente graças a uma comoção que arrebata. No fim, estonteados, é como se descêssemos do céu para a terra. Isso não depende do caráter mais ou menos ilustre dos intérpretes. Depende de uma centelha que incendeia a apresentação e atinge o ouvinte. São momentos raros. No mais das vezes, saímos contentes ou não, felizes por termos passado um bom momento musical, o que já é muito. Ao contrário, esses momentos excepcionais, incendiados, nos marcam para a vida.
Foi o que ocorreu com a ópera Salvator Rosa, de Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Pude assistir aos espetáculos dos dias 17 e 18 de julho.
Tenho para mim que Salvator Rosa é a ópera mais dramaticamente acabada de Carlos Gomes. Antonio Ghislanzoni, o libretista (que já havia escrito Fosca para Gomes e Aida para Verdi), espírito de fortes e ativas convicções políticas, mazziniano e republicano convicto, encontrou no episódio histórico da revolta conduzida por Masaniello em Nápoles um tema que lhe falava diretamente ao coração. A unificação italiana se completara em 1870, com a tomada de Roma, mas não trouxera o ideal sonhado por Mazzini: realizara-se sob a monarquia dos Savoia, enquanto o velho republicano permanecia perseguido e condenado à clandestinidade. Morreria dois anos depois, em Pisa, oculto sob um nome falso. Sem contar as inúmeras questões sociais muito graves que não se resolviam.
Ghislanzoni escreveu o libreto de Salvator Rosa pouco depois da morte de Mazzini. Em seu livro Contos políticos, de 1876, formula a seguinte frase: “Cantamos aos corações nobres os sentimentos nobres. Abraçando os heróis e os mártires, esquecemos, em sua lama, os insetos e os répteis que se encontram por toda parte.”
Ela nos ajuda a entender o ódio à corte e à aristocracia que atravessa Salvator Rosa, assim como a extraordinária dificuldade não em vencer uma luta em nome de uma ideia, mas, uma vez no poder, conservar os princípios pelos quais se lutou. Os insetos e os répteis infames, indignos, traiçoeiros não descansam e, pior, formam uma classe de poderosos que se alimenta de ojeriza pela plebe, como anuncia o personagem Salvator logo no início do primeiro ato. Uma classe que sequer suporta o cheiro do povo, como é cantado com todas as letras pelo coro.
Tudo isso inoculou no libreto uma intensidade que contaminou o compositor. A inspiração de Carlos Gomes foi tomada pela vibração do texto, resultando em uma obra veemente e enérgica.
A montagem foi concebida em coprodução com o Festival Amazonas de Ópera e eu já havia assistido à apresentação de Manaus, que foi excelente. No Municipal do Rio a produção ganhou amplitude graças às forças maiores da orquestra e do coro.
A regência de Luiz Fernando Malheiro compreendeu todos os sentidos dramáticos e musicais da partitura. A récita do dia 17 alcançou uma fluência impecável; a do dia 18, mantendo a altíssima qualidade, teve alguns poucos e leves tropeços. Mas é injusto ficar assinalando ninharias: ambos os espetáculos tiveram aquela qualidade fora do comum que eu assinalei no início.
Da mesma maneira, os dois elencos se valiam, embora dessem aos personagens características distintas. É bobagem ficar medindo ou discutindo se esse foi melhor do que aquele. Conta o excepcional resultado das duas récitas.
Enrique Bravo, que já encarnara o grande pintor em Manaus, conferiu a ele seu timbre caloroso acompanhado por naturalidade jovem e simpática; Marcello Vanucci impunha-se com voz potente e comportamento inteiriço. Marianna Lima, com voz luminosa, criou uma Isabella delicada e reservada; Marly Montoni, cuja emissão perfeitamente controlada não impediu a paixão contagiante e a força dos coloridos com os quais nuança cada nota, entregou-se plenamente ao papel. Os dois Duca d’Arcos contrastaram: Lício Bruno impôs a altiva nobreza com que o político esconde a imoralidade das traições, enquanto Savio Sperandio compôs um vilão cuja alma parecia tecida por todas as maldades. Jhonny França, com sua bela estatura, dominou o personagem de Masaniello como líder revolucionário; Vinicius Attique deu a ele o aspecto popular do pescador, ambos musicalmente mais do que convincentes. O maravilhoso e travesso Genariello de Maria Gerk, tão à vontade nos agudos, arrancou calorosos aplausos, assim como o de Carolina Morel, um pouco mais tímido e projetando muito bem a voz.
A concepção de Julianna Santos, com figurinos e cenários bonitos, simples, eficazes, permitiria que a produção viajasse facilmente. Se a nova gestão do Theatro Municipal de São Paulo tomar bom rumo, bem que ela poderia ser retomada na capital paulista. Seria um desperdício deixar morrer uma montagem capaz de arrebatar de tal modo.
Ao descrever o espetáculo, não consegui transmitir aquela emoção intensa com que abri este texto. Impossível. Onde estava a centelha, exatamente? Num crescendo, numa entrada do coro, num agudo de Maria Gerk, num pianíssimo de Marly Montoni, num silêncio de Malheiro antes de um ataque? Em tudo isso, em cada instante, numa atmosfera intraduzível.
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Acrescento outro belo momento musical no Rio. Foi no Salão Leopoldo Miguez do velho e glorioso Instituto Nacional de Música, hoje integrado à Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Só isto justificaria o interesse, porque esse salão tem a mais estupenda acústica que se possa imaginar. Ouvir ali a excelente orquestra sinfônica daquela Universidade foi um regalo: primeiro, o Concerto para piano de Schumann que teve como solista José Sacramento, brilhante jovem intérprete; depois a Eroica, de Beethoven, regida com clareza, energia e precisão por Felipe Prazeres. Naipes, instrumentos solistas, tudo soava em fusão entre individualidades e conjunto.
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