Soprano e maestra Barbara Hannigan lança o disco An American Dream?, em que reflete sobre o mundo contemporâneo
Acompanho a carreira da soprano e, de alguns anos para cá, também excelente maestra canadense Barbara Hannigan, 55 anos recém-completados em 8 de maio passado. E por uma razão: sua constante capacidade de mergulhar na música contemporânea e revisitar – reinventando – repertórios do passado. Sempre de olho na realidade que nos cerca.
Três exemplos aleatoriamente escolhidos deste engajamento virtuoso, diversificado e visceral dão uma amostra das qualidades que fazem dela uma artista decisiva e que é absolutamente fundamental conhecer e ouvir. Em 2023, durante a pandemia, lançou Infinite Voyage, em que atua ao lado do Quarteto Emerson e do pianista Bertrand Chamayou no Quarteto nº 2 opus 10, de Schoenberg, obra seminal de 1915, e “redescobre” o ciclo de canções Melancholie opus 13 de Paul Hindemith, também composta durante a Primeira Grande Guerra. No ano seguinte, 2024, um álbum delicioso regendo estudantes da Royal Academy de Londres e da Juilliard School de Nova York em Dumbarton Oaks, Octeto, Ragtime e Três líricas japonesas, com participação da soprano Alexandra Heath. O terceiro, do ano passado, intitula-se Electric Fields, e nele atuam outras duas mulheres excepcionais, ao lado de Barbara: as irmãs Katia e Marielle Labèque. Com o compositor francês David Chalmin, interpretam arranjos modernos de música vocal multissecular, bem como novas composições. Ponto comum: todas envolvem soprano, pianos e instrumentos eletrônicos manipulados ao vivo. Um arco que começa com Hildegard von Bingen, no século XII, passa por Barbara Strozzi e desemboca no contemporâneo Bryce Dessner.
Quando falo de realidade, remeto aos grandes temas que afligem nosso sofrido e conturbado planeta. Como os pianistas Fazil Say e Andras Schiff – e alguns poucos outros músicos, temos de admitir –, Barbara não se omite.

Seu mais recente álbum, An American Dream?, um sonho americano, chega esta semana ao streaming. Ela canta e rege a Orquestra Sinfônica de Gotemburgo, da qual é principal regente convidada desde 2019. Quero chamar a atenção de vocês para o ponto de interrogação incorporado ao título em geral usado como clichê da “grandeza” dos EUA. No encarte do álbum da gravadora Alpha Classics, ela assina um texto contundente.
É meio grande, mas ainda assim vale a pena compartilhá-lo:
“Tendo crescido não muito longe da fronteira norte dos Estados Unidos, sempre fui fascinada (mas também intimidada) por certos aspectos deste país, que parece construído sobre fundamentos essencialmente diferentes dos meus, o Canadá. O patriotismo exuberante dos Estados Unidos, sua adesão ao capitalismo e seu domínio ostensivo na indústria, nos esportes e no entretenimento certamente obscureceram o panorama. O 'sonho americano', essa noção ilusória popularizada em 1931 durante a Grande Depressão, promoveu um ideal no qual os Estados Unidos eram 'uma terra de promessas, oferecendo oportunidades de ascensão social, liberdade e igualdade para pessoas trabalhadoras de todas as classes com vontade de vencer'. É um sonho, de fato, e para muitos, um sonho impossível, dados os vários obstáculos enfrentados por tantas pessoas devido a preconceitos persistentes relacionados à sua raça, gênero ou condição social. As divisões que vemos hoje na sociedade americana, com repercussões internacionais, enquanto um líder eleito pelo povo e seu governo se comportam de maneira que só pode ser descrita como narcisista e brutal, me motivaram ainda mais a fazer este álbum. Como chegamos a isso? Cresci admirando a América. Hoje, estou perplexa. Através destas obras, gostaria de expressar minha admiração pela incrível criatividade e tenacidade dos imigrantes americanos e seus descendentes, mas também minha tristeza ao perceber o que parece ter sido perdido. Uma última palavra sobre a imagem da capa: eu estava procurando algo que evocasse um parque de diversões fantasmagórico — a nostalgia, as memórias, mas também a escuridão e a destruição subjacentes. Por fim, escolhi a imagem de um cavalo de carrossel: um objeto bonito e pintado — não um cavalo de verdade — em pé sobre sua haste. Olhe mais de perto e você verá que não há ninguém ali. O carrossel está parado. O lugar parece assombrado. O chão está rachado e metade das lâmpadas estão queimadas. Olhe ainda mais de perto e você perceberá que é uma imagem gerada por IA, outra forma de manipular emoções e memórias, por mais brilhante que seja essa invenção da humanidade”.
Por isso, antes de escutar o álbum no streaming, olhe com atenção a capa enquanto lê o texto-manifesto de Barbara.
Como a capa, o repertório parece enganosamente otimista e conhecidíssimo. Um retrato sinfônico de Porgy and Bess, de Gershwin, arranjado por Robert Russell Bennett; Dance Symphony, de Aaron Copland, The Carousel Waltz, tema do musical da Broadway de Richard Rogers.
O travo agridoce é sutilmente captado na parceria rara de Barbara com Bill Elliott no primeiro número de At the Fair, de Billy Barnes, aqui arranjado por Elliott. Intitula-se “Have I stayed too long at the fair?”, literalmente “será que fiquei tempo demais na feira?” – expressão usada quando percebemos que ficamos mais tempo do que deveríamos numa situação, relacionamento, emprego ou estilo de vida.
É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.
22jun_FB.png)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.