Wasbe, um viva às bandas sinfônicas

por Nelson Rubens Kunze 26/07/2026

Encontro mundial de bandas sinfônicas e conjuntos de sopros no Rio de Janeiro foi verdadeiro festival musical com importantes grupos brasileiros e internacionais

O Rio de Janeiro recebeu esta semana a 21ª Conferência da Wasbe, World Association for Symphonic Bands and Ensembles (Associação Internacional de Bandas Sinfônicas e Conjuntos). É a primeira vez que o principal encontro mundial dedicado às bandas sinfônicas e aos conjuntos de sopros foi sediado no Brasil e na América Latina. A realização do evento reuniu a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Funarte, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Sala Cecília Meireles, sob a liderança do maestro Marcelo Jardim. Mais do que um encontro internacional, a Wasbe revelou a vitalidade do universo das bandas sinfônicas, reunindo novas composições, estreias mundiais, arranjadores de alto nível e conjuntos de excelência.

Os números impressionam: em seus 6 dias de duração – as atividades aconteceram entre os dias 20 a 25 de julho – a conferência promoveu cerca de 50 apresentações, além de palestras e debates com especialistas, um concurso de composição, um concurso de regência e vários workshops para os instrumentos de banda. O encontro também recebeu o Fórum Funarte de Bandas de Música, com o propósito de fortalecer as políticas públicas para o setor.

Entre os convidados internacionais, destacaram-se a Sinfônica de Sopros da Universidade de New Mexico (EUA), a Banda Sinfônica da Universidade Javeriana (Colômbia), os Solistas SAMP Portugal, a Filarmonia de Sopros de Mannheim (Alemanha) e o Conjunto de Sopros da Universidade do Estado de Oregon (EUA). E entre os conjuntos brasileiros, apenas para citar alguns, apresentaram-se a Orquestra de Sopros de Lençóis Paulista, a Filarmônica Municipal Prof. José Agostinho de Santarém, a Favela Brass, a Orquestra de Sopros Aprendiz Musical e as Bandas Sinfônicas de Cubatão, do Exército Brasileiro, da Unirio, do Conservatório de Tatuí e do Corpo de Fuzileiros Navais.

Estive no Rio de Janeiro na quinta, dia 22, para conhecer este verdadeiro festival de bandas sinfônicas. Além de acompanhar uma palestra da programação Wasbe Clinics e presenciar o último dia do Fórum Funarte de Bandas, assisti a nada menos do que 5 concertos em alguns dos mais importantes e históricos teatros e espaços do Rio.

O dia começou às 9 horas, no Auditório do Palácio Gustavo Capanema – edifício de Lúcio Costa e Niemeyer dos anos 1940, no centro do Rio, marco da arquitetura moderna brasileira – com Chris Westover Muñoz, maestro e professor da Denison University, nos Estados Unidos. A partir de um estudo feito com a música do Chile, Chris fez uma exposição sobre como a história da música popular e de seus grupos está ligada aos acontecimentos políticos e sociais. 

Na sequência, também no auditório – a sede da Funarte funciona no Palácio Capanema – aconteceu a terceira reunião do Fórum Funarte de Bandas de Música, com a participação do presidente da Funarte, Leonardo Lessa, e da diretora do centro de música, Eulícia Esteves, entre outros. Após um extenso relato sobre os 50 anos da Funarte e de seu Projeto Bandas, foi proposta a criação de um grupo de trabalho para a elaboração de políticas públicas de fomento às bandas – conforme cadastro da Funarte, há mais de 3 mil bandas ativas em todo o Brasil. As bandas estão presentes em todas as regiões e são responsáveis por grande parte da produção musical do país. 

Em seguida ao Fórum Funarte, aconteceu, também ali, a apresentação do Conjunto de Sax da UFRJ, liderado por Pedro Bittencourt. No programa, Ernesto Nazareth, Antonio Pinto Junior e Radamés Gnattali. 

Mas a maratona musical começou mesmo depois do almoço. Às 14h na Sala Cecília Meireles – não mais do que 15 minutos a pé do Capanema –, a atração foi a Orquestra de Sopros da Filarmônica de Volta Redonda, que tem direção de Nilton Soares. Entre outras peças, o programa teve uma obra de Edmundo Villani-Côrtes, a Frevata, para quarteto de trombones e banda, a bonita Vento Sul do compositor Gilberto Salvagni – Gilberto estava lá para ser aplaudido – e As aventuras de Pedro Malasartes, de Tim Rescala, que regeu a composição. Com inventividade e a sua sempre inspirada verve musical, Rescala musicou as estripulias do personagem folclórico, que ganhou voz pelo tenor Cleyton Pulzi.

Sem tempo a perder – a próxima atração era às 16h –, voltei ao Capanema, mas desta vez para uma apresentação ao ar livre, sob a marquise, entre os pilotis cilíndricos de sua arquitetura modernista. Quem tocou foi a Banda Marcial do Projeto Música nas Escolas de Barra Mansa, sob direção de Hércules Alves. Foi uma apresentação empolgante, com arranjos inventivos e bem escritos, explorando as riquezas e particularidades da banda sinfônica – sopros e percussão –, com temas da música popular brasileira. Música para banda ao ar livre, sem formalidades e em clima de animação. E com um evidente e enorme prazer de tocar! 

O concerto seguinte foi na Escola de Música da UFRJ, na bela Sala Leopoldo Miguez, também ela rico patrimônio carioca – inspirada na Sala Gaveau, de Paris, o prédio tem mais de 100 anos. Quem se apresentou lá foi a Banda Sinfônica da Faetec Marechal Hermes, com regência de Lélio Alves. O programa trouxe obras de Villa-Lobos (Trenzinho do caipira em transcrição de Dieter Lazarus), Anacleto de Medeiros, Lorenzo Fernandez (Batuque, também em versão de Lazarus) e Guerra-Peixe (Mourão, em arranjo de Ivan Espírito Santo), e dos contemporâneos Gilson Silva (1981), Hudson Nogueira (1968) e Gilson Santos (1977). 

Aqui, faço dois comentários, que também se aplicam a outras apresentações: primeiro, o grande número de transcrições e arranjos, ou seja, muitos músicos com competência e habilidade para, sem receio, trabalharem também sobre obras canônicas da música brasileira; e, segundo, muitas composições sendo escritas na atualidade.

Os dois últimos concertos do dia, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – a 10 minutos a pé da Escola de Música – foram o fecho perfeito para a maratona musical. 

Primeiro, às 19h, a espetacular Orquestra de Sopros da Universidade de Michigan, dos Estados Unidos. Dezesseis músicos – flautas, oboés, clarinetes, fagotes, trompas, trompetes, trombones e dois percussionistas –, em variadas formações instrumentais, apresentaram um concerto em que até mesmo o mais exigente e rigoroso ouvinte “clássico” não faria objeções: um grande virtuosismo, com afinação precisa, rica sonoridade, articulações e dinâmicas cuidadas e um impressionante equilíbrio instrumental. O grupo foi dirigido pelos maestros Jason Fettig, Courtney Snyder e Richard Frey, este responsável por um arranjo da abertura de Fosca de Carlos Gomes, em estreia mundial. O concerto ainda teve o Octeto (1923), de Stravinsky, e obras dos contemporâneos Gao Hong (1964), Gilda Lyons (1975) e Rubén Dario Gómez Prada (1975), uma composição original em estreia mundial.

Finalmente, às 20h, apresentou-se a anfitriã Orquestra de Sopros da UFRJ, sob direção de seu diretor musical e regente Marcelo Jardim, que é também o presidente do comitê organizador local da Wasbe Rio. Com 70 músicos – entre instrumentos de sopro, percussão, piano e harpa – a orquestra realizou duas estreias mundiais: A dobra, de Liduíno Pitombeira (1966), e o Concerto para quinteto de sopros e banda sinfônica, de Tibor Fitel (1976). O concerto teve ainda Pro Pax (1912) e o Concerto Grosso para quarteto de sopros e orquestra de sopros, de Villa-Lobos – este regido pelo maestro convidado Shawn Smith –, Toronubá, de Dimitri Cervo (em estreia do arranjo para orquestra de sopros), e Xapiri, para quarteto de trompas e banda sinfônica, do brasileiro Gilson Santos (1977), que foi dirigida pela maestra convidada Monica Giardini.

Para terminar, Marcelo Jardim retomou a batuta e regeu Cidade Maravilhosa, de André Filho, em arranjo de Gilson Santos. Logo que a orquestra atacou os primeiros acordes da famosa melodia, verdadeiro hino carioca, Jardim voltou-se à plateia incentivando-a a cantar. 

É verdade: “Cidade maravilhosa / Cheia de encantos mil / Cidade maravilhosa / Coração do meu Brasil”!

Viva as bandas sinfônicas!

Orquestra de Sopros da UFRJ se apresenta na Wasbe 2026 (Revista CONCERTO)
Orquestra de Sopros da UFRJ se apresenta na Wasbe 2026 (Revista CONCERTO)

 

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.