Orquestra e Coro Arcangelo de Londres realizam interpretação de alto nível de um dos maiores monumentos da música barroca
Foi irrepreensível, em alto nível artístico, a apresentação da Missa em si menor BWV 232 de Johann Sebastian Bach com a Orquestra e Coro Arcangelo, de Londres, realizada na quarta-feira, dia 20 de agosto, no Teatro Cultura Artística. O que sobressaiu foi o incrível entrosamento e precisão musical dos artistas, o equilíbrio da malha contrapontística com uma transparência deslumbrante das vozes, e o cuidado com a articulação e o timbre dos instrumentos de época.
No Arcangelo, como em conjuntos especializados de música antiga – a música escrita antes do Classicismo –, os músicos tocam em instrumentos que são cópias daqueles usados naquela época, e que são diferentes dos instrumentos modernos na técnica e nos materiais de construção – nos instrumentos de madeira, por exemplo, ainda não há os mecanismos de chaves, nos metais não há pistões e nas cordas os materiais e os arcos são de outro feitio – tudo inovações que nos séculos seguintes revolucionaram a prática musical. E que alteraram significativamente o som que os instrumentos produzem.
Além dos instrumentos históricos, esses conjuntos seguem orientações interpretativas que convencionou-se chamar de “historicamente informadas”. Isso é, a partir de pesquisas e estudos musicológicos da prática musical, procura-se reconstituir, da maneira mais fiel possível, o que se supõe teria sido a maneira de tocar daquele período.
E o resultado é esse que ouvimos no Teatro Cultura Artística, cuja dimensão e acústica adequadas sem dúvida contribuíram para o excelente resultado da apresentação.
Com domínio absoluto da partitura, o maestro e cravista Jonathan Cohen, fundador do grupo, dirigiu os excelentes jovens instrumentistas e coralistas – acho que poucos ali tinham mais de 40 anos de idade –, em uma formação própria também do que se fazia no tempo de Bach: um coro de cerca de 20 vozes, do qual participavam os solistas, e uma orquestra “de câmara” – sete violinos, duas violas, duas violas da gamba e um contrabaixo, além de flautas traversas, oboé e oboé d’ amore, fagotes, trompetes, trompa, tímpano e órgão barrocos. Todos os músicos muito bons, com destaque para o sensível e competente baixo contínuo do organista Thomas Foster.
A Missa em si menor de Bach é um dos maiores monumentos da música barroca. Como Mônica Lucas escreve nas notas de programa, a obra foi iniciada a partir de um missa breve luterana composta em 1733 e concluída apenas em 1748, como uma missa completa com todas as partes da liturgia católica. Em sua grande estrutura final, a obra alterna movimentos corais com árias acompanhadas por instrumentos solistas.
O Coro Arcangelo apresentou grande coesão e afinação dos naipes, com articulações precisas e dinâmicas bem cuidadas. Já as árias revelaram o alto nível dos solistas vocais – as sopranos Rowan Pierce e Rebeca Leggett, o contratenor James Hall, o tenor Mattheux Long e os baixos Jerome Knox e Patrick Keefe –, assim como dos excelentes solistas instrumentais.
A interpretação também foi muito feliz na construção do amplo “arco dramatúrgico” que sustenta a obra, com suas sucessivas tensões e distensões, desde a súplica do emocionante Kyrie eleison, progredindo por momentos mais expansivas e de adoração, outros mais reflexivas e contemplativos, até a pacificação final do Dona Nobis Pacem.
Em um todo tão integrado e orgânico, é difícil destacar uma única passagem. Mas, para mim, o mais impactante da noite foi toda a parte final da Missa, com o o seu lindo Benedictus (e o solo da flauta), o sublime Agnus Dei do contratenor até o desfecho conformado e consolador.
Bach é mesmo para se ouvir de joelhos.
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