Tragédia à brasileira

por João Luiz Sampaio 01/07/2018

Ópera de João Guilherme Ripper sobre a morte de Euclides da Cunha, Piedade será apresentada em versão de concerto no Theatro Municipal de São Paulo

Perdida em meio às notícias do dia, a primeira página do jornal O Estado de S. Paulo de 16 de agosto de 1909 traz uma nota de raro tom emotivo. “Nunca uma notícia nos pareceu tão inverossímil como a do assassinato de Euclides da Cunha, que um telegrama do Rio hontem nos transmitiu. Era, porém, verdadeiro o fatal despacho. O ilustre brasileiro, que ainda joven conquistára uma invejável notoriedade, desapparece do nosso mundo intellectual de uma maneira absolutamente imprevista e cruel”, diz o texto, que segue, surpreso: “As notícias recebidas até a hora em que escrevemos não explicam o motivo da sua morte. É inutil procura-lo; qualquer que elle seja, não nos pode mitigar a dôr profunda que o seu desapparecimento nos causa”.

As dúvidas começariam a se dissipar na edição do dia seguinte, quando enfim se tornou conhecida a causa da morte do autor de um dos mais importantes livros da história do país, Os sertões, sobre a Guerra de Canudos, que ele acompanhou como repórter enviado pelo mesmo jornal: Euclides da Cunha, ao descobrir que sua esposa Anna mantinha um caso com o militar Dilermando, pegou o trem até o bairro de Piedade, onde, após disparar contra o rival, acabou alvejado e morto. O termo “tragédia” é utilizado diversas vezes no relato do jornal – e voltaria a ser evocado anos depois, quando o filho de Euclides tentou vingar a morte do pai e, após atirar sem sucesso em Dilermando, acabou atingido pela arma do militar, que nos dois casos foi absolvido, alegando ter agido em legítima defesa.

Mais de cem anos depois, o caso, talvez pela fama dos personagens envolvidos, manteve uma aura de mistério, a qual se tornou ainda mais presente com a publicação, em 2009, dos documentos referentes ao primeiro julgamento de Dilermando e atiçou a imaginação do compositor João Guilherme Ripper, que, em 2012, estreou uma ópera baseada na história. Piedade ganhou montagem no ano passado no Teatro Colón de Buenos Aires e neste mês sobe ao palco do Theatro Municipal de São Paulo, como concerto, pelas mãos do maestro Luiz Fernando Malheiro.

Com libreto do próprio compositor, a obra narra a tragédia de Piedade menos preocupada com o fato em si que com a caracterização do mundo interior das personagens, suas motivações, seus conflitos. É essa torrente de emoções que leva ao desfecho trágico. “Os personagens são protagonistas e vítimas da história”, escreveu Sônia Zanon, no encarte da gravação da obra, feita pela Orquestra Petrobras Sinfônica e o maestro Isaac Karabtchevsky, responsáveis pela encomenda de Piedade.

A ópera, que tem um elenco de três cantores (soprano, tenor e barítono), está dividida em quatro cenas: na primeira, Euclides escreve Os sertões; na segunda, Anna e Dilermando se conhecem; na terceira, Euclides e Dilermando se encontram no porto; e a quarta é denominada “Tragédia”. “Cada cena é precedida de um poema, introduzindo, assim, os prólogos, acompanhado por um prelúdio para violão solo. A poesia tem como referência palavras e expressões que denotam o sentido contrário, simbolizando os conflitos pessoais das personagens, como na primeira cena, que evidencia o delírio de Euclides da Cunha com seu olhar totalmente focado em suas viagens, em oposição ao olhar triste e amargurado de Anna”, afirma Sonia Zanon, que é contrabaixista da Orquestra Petrobras Sinfônica e participou da estreia da obra.

Euclides da Cunha [Reprodução]
Euclides da Cunha [Reprodução]

Obsessão

“Em paralelo ao apocalipse sertanejo, existe a tragédia doméstica, suburbana”, afirma o maestro Karabtchevsky. “Essa tragédia vem descrita em cores intensas, mas líricas, e o compositor jamais perde de vista o clima psicológico que permeia toda a composição. O tom exaltado da primeira cena, na qual Euclides narra as impressões de suas viagens, já define a obsessão de Ripper em revelar, em detalhes, a intensidade que acompanha cada personagem”, conclui o maestro.

Essa “obsessão” chamou a atenção do maestro Federico Victor Sardella, que regeu Piedade no Teatro Colón em 2017, fazendo dela a primeira ópera brasileira a subir no célebre palco argentino. “Ripper consegue evocar a paixão e a intimidade dos personagens ao ampliar a relação entre a ação dramática e a música”, disse, em entrevista concedida ao jornal O Globo. E faz isso a partir de um ecletismo em que o flerte com diferentes tendências ajuda a caracterizar o que se passa sobre o palco. É assim, por exemplo, que as árias recorrem ao tonalismo lírico, enquanto a atonalidade torna-se símbolo dos conflitos internos dos personagens, fazendo de personagens reis grandes personagens operísticos, e vice-versa.


AGENDA
Ópera Piedade, de João Guilherme Ripper
Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo
Laura Pisani
– soprano
Eric Herrero – tenor
Homero Velho – barítono
Luiz Fernando Malheiro – regente
Dias 20 e 21 de julho, Theatro Municipal de São Paulo