CDs e DVDs: a seleção de maio

por Redação CONCERTO 01/05/2019

Um olhar sobre a família Schumann por meio do piano; uma escolha intimista de canções; grandes obras de Szymanowski e Zemlinsky; a música da época de Rembrandt; o novo álbum do pianista Lang Lang; a Sexta de Mahler pela Filarmônica de Berlim: conheça a seleção dos principais lançamentos de CDs do mês preparada pela Revista CONCERTO.

 

[Reprodução capa]
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IN BETWEEN
Schumann & Mendelssohn
Sophie Pacini
– piano
Lançamento Warner Classics. Importado. R$ 104,40
O disco da pianista alemã Sophie Pacini evoca não apenas grandes obras, como também um momento – e a relação entre pessoas que fizeram dele marco fundamental na história da música. Robert Schumann e Felix Mendelssohn, de personalidades bastante diferentes, foram centrais na vida musical do século XIX como autores; Clara Schumann, mulher do compositor, uma das primeiras grandes virtuoses da história; e Fanny Mendelssohn, irmã de Felix, autora de mão cheia que acabou às margens em um mundo tido então como exclusivamente masculino. Os quatro conviveram intensamente, e, desse convívio, nasceram obras que nos ajudam a compreender o que foi a sensibilidade romântica. De Clara Schumann, Pacini, vencedora do Echo Klassik de 2015, interpreta o intenso Scherzo nº 2; de Franz Liszt, Liebeslied; de Robert Schumann, Peças de fantasia op. 54 e Toccata op. 7; de Felix Mendelssohn, uma seleção de Canções sem palavras e Rondo capriccioso op. 14; e, de Fanny, Canção nº 1 op. 2. Uma conversa fascinante entre grandes artistas, na qual a pianista entra com profunda autoridade e delicadeza.


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RAVEL – COUPERIN
Philippe Thuriot
– acordeão
Lançamento Warner Classics. Importado. R$ 114,20
Em 1919, logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, o público de Paris ouviu pela primeira vez uma das obras para piano mais pessoais de Maurice Ravel: Le tombeau de Couperin, em que cada movimento presta homenagem a um amigo morto no conflito. A evocação do nome do compositor François Couperin tem a ver com o estilo neobarroco empregado por Ravel – e é natural que, em recitais, a peça seja colocada lado a lado com criações de Couperin. Até aí, sem novidades. No entanto, e se em vez do piano elas fossem interpretadas pelo acordeão? Foi essa a pergunta que se colocou o acordeonista Philippe Thuriot, grande nome de seu instrumento no cenário internacional. E a resposta surgiu na forma deste álbum. Além de Le tombeau de Couperin, ele interpreta, também de Ravel, peças como Menuet antique, Alborada del gracioso e Pavane pour une infante défunte. E, de Couperin, La muse-Plantine e Les barricades mistérieuses. O resultado é o contato com essas obras por meio de uma nova sonoridade, que a cada compasso parece trazer uma leitura repleta de frescor para composições que estão cristalizadas no repertório.


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A SIMPLE SONG
Anne Sophie von Otter – mezzo soprano
Bengt Forsberg – órgão
Lançamento BIS. Importado. R$ 112,30
Na carreira da mezzo soprano Anne Sophie von Otter, as canções sempre tiveram papel determinante. Há, claro, contribuições magistrais no mundo da ópera, como seu Octavian no Cavaleiro da rosa, de Strauss, ou seu Cherubino, em Bodas de Fígaro de Mozart. Como intérprete de lied, porém, ela deixou seu nome registrado como uma das maiores cantoras de seu tempo. O cuidado com a palavra, os coloridos e a inteligência na construção das linhas melódicas são apenas alguns de seus atributos, presentes mais uma vez neste seu novo disco, ao lado de um antigo parceiro, Bengt Forsberg, que aqui substitui o piano pelo órgão (participação de flauta, harpa, violino, viola e violoncelo em determinadas peças). O instrumento é fundamental na proposta do álbum: canções que lidam com a transcendência, religiosa ou não. E, na seleção, há espaço para uma enorme diversidade de épocas e estilos. Estão presentes peças do cancioneiro americano, como A Simple Song, extraída da Missa de Bernstein, ou criações de Charles Ives e Aaron Copland; uma coletânea de canções francesas de autores como Poulenc, Messiaen e Duruflé; e, do universo germânico, duas peças que por si só já valem a audição: Urlicht, de Gustav Mahler, e Morgen, de Richard Strauss.


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SZYMANOWSKI – ZEMLINSKY
Elina Vähälä
– violino
Johanna Winkel – soprano 
Michael Nagy – barítono
Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional Polonesa
Alexander Liebreich
– regente
Lançamento Accentus Music. Importado. R$ 98,70
Logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, o compositor polonês Karol Szymanowski passou por uma transformação. Em suas próprias palavras, a angústia provocada pelo conflito sugeriu a ele uma nova forma de fazer música – e nisso surgiu seu Concerto para violino nº 1, com cores contrastantes e um caráter que flutua do introspectivo a uma atmosfera solar. A guerra também provocou impacto no austríaco Alexander Zemlinsky: como pensar no universo interior de uma pessoa à parte do sentimento de isolamento e exaustão que marca o mundo à volta – parece ser essa a pergunta central de sua Sinfonia lírica, na verdade uma coletânea de canções sobre amor e abandono para barítono e soprano. É interessante perceber como, ouvidas em conjunto, as peças são capazes de dialogar e falar de um momento histórico marcante. Em especial por causa da regência sensível de Alexander Liebreich (que já esteve no Brasil regendo a Osesp) e de um time de solistas capaz de estabelecer leituras de referências das obras: a violinista Elina Vähälä, a soprano Johanna Winkel e o barítono Michael Nagy.


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PIANO BOOK
Lang Lang
– piano
Lançamento Deutsche Grammophon. Nacional. R$ 39,00
O pianista chinês Lang Lang define de maneira simples o repertório de seu novo disco: peças que o fizeram amar o piano e que, ainda hoje, são responsáveis por fascinar o público. Elas podem parecer simples, diz o artista – ou mesmo conhecidas demais. Ainda assim, são obras-primas. E a elas ele resolveu voltar no projeto que chamou de Piano Book, evocando a lembrança de livros de partitura de sua infância. Entre as faixas escolhidas estão Für Elise, de Beethoven; Clair de lune e Rêverie, de Debussy; Momento musical em fá menor, de Schubert; Valsa de Amélie, de Yan Tiersen; Sonata facile, de Mozart; Villageoises, de Poulenc; Prelúdio em dó maior, de Bach; e outras. “Uma de minhas primeiras lembranças de infância é Vladimir Horowitz tocando Träumerei de Schumann após um concerto”, diz o pianista, no encarte. “Ele pegou essa peça simples e tocou com ainda mais magia que as que vieram antes. Isso me inspirou profundamente. Talvez tenha sido o momento em que minha missão na vida começou de fato a ganhar forma”, completa.


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GUSTAV MAHLER: SINFONIA Nº 6
Filarmônica de Berlim
Sir Simon Rattle
– regente
Lançamento Berliner Philharmoniker Recordings. Importado. Caixa com livro, 2 CDs e 1 blu-ray. R$ 356,60
A Sinfonia nº 6 de Gustav Mahler tem lugar especial na obra do compositor. Foi escrita em um dos momentos mais felizes de sua vida, logo após seu casamento com Alma e perto do nascimento de suas filhas. Ao mesmo tempo, seu fim, de profunda dramaticidade, lhe rendeu o apelido de Sinfonia trágica. Contrastes, no entanto, são parte essencial da vida e da obra de Mahler. E aqui eles se revelam de maneira fascinante pelas mãos do maestro Simon Rattle e dos músicos da Filarmônica de Berlim – e também pelas análises que o livro que acompanha o lançamento traz. Como em outros trabalhos do selo da orquestra, o pacote inclui, além do livro, a gravação em CD da peça, 1 CD com a gravação de 1987 da estreia do maestro à frente da orquestra, 1 blu-ray com a interpretação ao vivo e o documentário Echoing an Era, sobre os anos de Rattle à frente da filarmônica, acesso do áudio em alta resolução e um voucher para acesso gratuito durante uma semana ao Digital Concert Hall. Um pacote imprescindível. 


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MUSIC FROM THE GOLDEN AGE OF REMBRANDT
Música holandesa do século XVII
Caroline Stam – soprano / Dorien Lievers – contralto / Nico van der Meel – tenor / Bas Ramselaar – baixo
Musica Amphion 
Pieter-Jan Belder
– regent e cravo
Lançamento Brilliant Classics. Importado. 2 CDs. R$ 88,70
O fato de que a produção musical dialogou constantemente com seu tempo e com outras formas de manifestação artística não costuma ser questionado – mesmo que não seja sempre lembrado. Neste disco, no entanto, os músicos do Musica Amphion, grupo criado em 1993, oferecem um olhar estimulante para essa questão. Eles se voltam para a época do grande mestre da pintura Rembrandt para nos mostrar que música era ouvida então. Nesse processo, redescobrem autores fascinantes, como Nicolaes Vallet (Salmo I), Cornelis Padbrué (Madrigal), Herman Hollanders (Cum inferni tenebris) ou Benedictus Buns (Sonata trio nº 7). Como explica o cravista Pieter-Jan Belder, não há como saber se Rembrandt os ouviu ou conheceu. “Mas, conectando as duas artes, acreditamos que podemos ajudar o ouvinte moderno a ter uma compreensão melhor do universo social, religioso e cultural na Holanda” em um momento que produziu um dos maiores e mais influentes artistas da história do Ocidente.


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EUDÓXIA DE BARROS 
70 anos de carreira
Eudóxia de Barros – piano
Lançamento independente. Nacional. R$ 55,20
Em 2015, a pianista Eudóxia de Barros completou 70 anos de carreira e, para marcar a data, lançou um disco solo para o qual escolheu um grupo de obras que lhe acompanhou durante boa parte desse tempo, símbolo de suas preocupações como intérprete. Isso significa, primeiro, que a música brasileira tem lugar de destaque, universo para o qual ela contribuiu não apenas resgatando autores como Chiquinha Gonzaga, Zequinha de Abreu e Ernesto Nazareth, mas também realizando estreia de autores como Antonio Ribeiro, Ernst Mahle, Camargo Guarnieri e Osvaldo Lacerda, seu marido. Não por acaso, destacam-se peças como Estudo nº 10, de Guarnieri; Odeón, de Ernesto Nazareth; Tocatina, de Ernst Mahle; Estudo nº 2, de Ribeiro; e o impactante quarto caderno da série Cromos, de Osvaldo Lacerda. E há ainda outras peças importantes da trajetória da pianista, como a Sonata nº 3 op. 48 de Kabalevsky e a Grande fantasia triunfal sobre o hino nacional brasileiro, de Gottschalk. No todo, um retrato de uma das grandes personalidades musicais brasileiras das últimas décadas.


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DANIEL MURRAY – 14-37
Música brasileira para violão solo
Daniel Murray – violão
Lançamento Acoustic Music Records. Importado. R$ 89,10
O novo disco do violonista Daniel Murray tem caráter afetivo desde a capa, em que ele aparece fotografado ao lado do filho – o garoto está com 14 anos, e Murray, com 37. E essa marca do trabalho levou o artista a relembrar sua própria trajetória como músico, desde seus 14 anos até hoje. Uma trajetória múltipla, na qual o talento como intérprete se soma ao de arranjador e compositor. Com 14 anos, ele conheceu a obra de Paulo Bellinati, de quem grava aqui Valsa brasileira; com 15, venceu um concurso na França tocando Villa-Lobos, que aparece no disco com o Estudo nº 4; aos 17, escreveu os primeiros arranjos para obras de Ernesto Nazareth e Nelson Ayres, Tenebroso e Perto do coração. Assim o repertório do álbum se forma, registrando ainda outros momentos marcantes, como o contato com Egberto Gismonti (de quem ele grava Infância) e a influência do tio José Murray em sua vida, gravando pela primeira vez uma obra sua, Poeta. Se Murray é um dos mais talentosos artistas brasileiros de sua geração, o que ele nos oferece aqui é um retrato em primeira pessoa do que o define como artista.


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