Acervo CONCERTO: A vida de Piotr Ilitch Tchaikovsky

por Redação CONCERTO 30/05/2019

Texto de Leonardo Martinelli na Revista CONCERTO de maio de 2010

Tchaikovsky nasceu em 7 de maio de 1840 em Kamsko-Votkinsk, um pequeno polo industrial da Rússia czarista localizado a cerca de mil quilômetros da capital Moscou (algumas fontes dão o dia de nascimento como 25 de abril, porém, isso ocorre devido a uma diferença entre os calendários Juliano e Gregoriano, este adotado pela Rússia apenas depois da Revolução de 1917). Fruto do casamento de um proeminente engenheiro de mineração, Illya, com uma elegante jovem de ascendência francesa, Aleksandra Assier, Piotr contou com ambiente rico em cultura e literatura, e já aos seis anos o futuro compositor era capaz de ler em alemão e em francês. Seus anos de formação transcorreram na companhia dos vários irmãos que teve, entre os quais a jovem Sasha e o escritor Modest firmaram-se como companheiros por toda sua vida.

Apesar de cultos, os Tchaikovsky não eram especialmente musicais, como Modest relata em sua biografia do irmão (que seria lançada em 1903). Porém, desde tenra idade Piotr deu provas inequívocas de sua inclinação para a música, tendo seu pai providenciado a compra de um pequeno órgão mecânico, seu primeiro instrumento, no qual o menino se deliciava ao som de trechos da ópera Don Giovanni, de Mozart. Apesar de seu talento, Piotr não era uma criança prodígio, e mesmo suas composições de adolescência não justificavam um pesado investimento familiar para uma eventual carreira musical. Tal fato levou-o a ingressar na Escola de Direito de São Petersburgo, e aos 19 anos ele já integrava o quadro de funcionários do Ministério da Justiça.

Foi somente três anos depois, em 1862, com a inauguração do Conservatório de São Petersburgo, que Tchaikovsky começou a dar seus decisivos passos rumo a uma verdadeira carreira musical, tendo como principal tutor o compositor, pianista e regente Anton Rubinstein. Nesse ponto, tanto biógrafos quanto musicólogos são unânimes em constatar a incrível rapidez com que a escritura de Tchaikovsky se desenvolveu, partindo de simples exercícios para, em um curto espaço de tempo, alcançar obras de envergadura, tais como um quarteto de cordas, duas aberturas orquestrais e uma cantata, apresentada como trabalho de conclusão de curso. Suas composições no período denotam uma clara familiaridade com a obra de Schumann e Beethoven.

Em 1866, ano seguinte a sua graduação, o irmão de Anton, Nikolay Rubinstein, convida Tchaikovsky para ingressar no corpo docente de uma nova escola de música a ser inaugurada em Moscou. Procurando mudança de ares e estabilidade financeira longe do cotidiano burocrático de uma repartição pública, Tchaikovsky passa a ministrar matérias teóricas no hoje renomado Conservatório de Moscou, adentrando de forma definitiva o mercado musical russo.

Ao fixar residência em Moscou, Tchaikovsky pôde fi malmente se dedicar de forma sistemática a grandes projetos musicais. Logo que chegou à cidade compôs a primeira de suas seis sinfonias. Naquele momento histórico, um “sentimento de nação” aflorava de forma especialmente intensa nas práticas musicais fora do eixo Alemanha-França-Itália, e a Rússia tinha no Grupo dos Cinco – integrado pelos compositores Mily Balakirev, Alexander Borodin, César Cui, Modest Mussorgsky e Nikolay Rimsky-Korsakov – seu bastião nacionalista. Em suas obras, diversos tipos de referências, musicais ou literárias, condizentes com uma ideia de identidade russa, eram presença regular.

Apesar dessas referências à cultura regional serem relativamente comuns na obra de Tchaikovsky (vide, por exemplo, a famosa Abertura 1812), o compositor dedicou-se ao longo de sua carreira a obras tidas como “universais”, tais como sinfonias, concertos (três para piano e um para violino), quarteto de cordas, sonatas e uma série de outras peças sem quaisquer referências extramusicais nacionalistas, o que de certa forma facilitou a difusão de sua criação para além das fronteiras russas.

Sua ligação com a pátria e cultura regionais fica mais evidente em suas óperas, várias delas com libretos baseados em obras do célebre escritor e poeta Alexander Pushkin, tais como Eugene Onegin, Mazeppa e A dama de espadas, que somente nas últimas décadas passaram a ser encenadas fora de seu país natal. Se ao longo de sua carreira musical Tchaikovsky sempre se viu em um conflito interno, mais intenso ainda foi o embate que ele teve que enfrentar em sua vida privada.

Apesar de jamais ter assumido publicamente sua homossexualidade – que na época constituía infração criminal –, Tchaikovsky nunca foi especialmente cioso em ocultá-la. Mesmo quando em 1877 se casou com uma aluna, Antonina Miliukova, na tentativa de arrefecer os rumores de sua natureza sexual, o fez de forma tão desengonçada (em poucos dias ele se separaria, apesar de jamais ter se divorciado) que no final das contas o ato acalorou ainda mais as fofocas nos salões da alta sociedade russa.

Dada a clandestinidade de sua situação, traçar o percurso amoroso de Tchaikovsky não é das tarefas mais fáceis, mas hoje em dia sabe-se com certa segurança – a partir de pistas contidas em centenas de cartas que escreveu ao longo de sua vida – de alguns homens com os quais o compositor se relacionou, entre os quais o violinista Yosif Kotek, para quem ele supostamente dedicou seu Concerto op. 35.

Ironicamente, a mulher com quem melhor se relacionou fora do seio familiar foi uma viúva que jamais conheceu pessoalmente. Tomada de admiração pelo talento de Tchaikovsky, em 1878 Nadezhda von Meck passou a financiar as atividades do compositor, estabelecendo uma relação de mecenato que se prolongaria por 14 anos (mais tarde ela também ajudaria outros compositores, como Debussy e Nikolay Rubinstein). Sua única e excêntrica exigência era jamais se encontrarem pessoalmente, ordem que Tchaikovsky cumpriu sem maiores problemas...

Para os europeus do século XIX, a Rússia ainda estava na periferia da “grande tradição”. Tchaikovsky foi um dos primeiros a romper essa barreira e ter sua obra tocada ainda em vida nos grandes centros musicais. A partir do contato inicial de Hans von Bülow, que iniciou a divulgação da produção do compositor após uma viagem à Moscou, suas obras passaram a ser executadas em Paris, Berlim, Londres e Viena. (Nem sempre com aceitação – em Viena, por exemplo, a música de Tchaikovsky desagradou de pronto o famoso crítico Eduard Hanslick.) Sob o protetorado de von Meck, Tchaikovsky também passa a empreender diversas viagens à Europa Ocidental, fazendo seu nome e obra circularem a ponto de chamar a atenção no outro lado do Atlântico, muito tempo antes da era das telecomunicações: na década de 1870 o compositor teria suas primeiras peças executadas nos Estados Unidos.

Porém, já na casa dos cinquenta anos, Tchaikovsky volta a fixar residência nos arredores de São Petersburgo, onde falece em 6 de novembro de 1893, seis dias após a estreia de sua Sinfonia nº 6. Por muito tempo foi dada como causa mortis oficial uma infecção aguda causada pelo vírus do cólera. Mais recentemente, contudo, a hipótese de suicídio tem ganhado força a partir da constatação da presença de arsênico em seu corpo. A tese ganha força quando lembramos do permanente estado de tensão e conflito que permeou toda a vida de compositor. Se a verdade em torno da morte de Tchaikovsky talvez jamais for verdadeiramente conhecida, nada, entretanto, mudará a importância de sua obra para a história da música.

Piotr Ilitch Tchaikovsky [Reprodução]
Piotr Ilitch Tchaikovsky [Reprodução]

Linha do tempo

1840
Piotr Ilitch Tchaikovsky nasce em 7 de maio de 1840, em Kamsko-Votkinsk.

1862
Ingressa como aluno no recém-inaugurado Conservatório de São Petersburgo.

1866
Integra o corpo docente do então novo Conservatório de Moscou. Compõe sua primeira sinfonia.

1869
Compõe a Abertura Romeu e Julieta, peça orquestral baseada na obra de William Shakespeare.

1875
A versão original de seu famoso Concerto para piano nº 1 estreia em Boston, com solos de Hans von Bülow.

1877
Casamento de aparências com Antonina Miliukova.

1878
Compõe na Suíça seu Concerto para violino, dedicado à Yosif Kotek. Estreia de sua ópera Eugene Onegin, baseada na obra de Alexander Pushkin.

1880
Compõe a Abertura 1812, estreada dois anos depois para as comemorações da vitória do exército russo sobre as tropas de Napoleão Bonaparte.

1892
Deixa de receber o mecenato de Nadezhda von Meck, iniciado quatorze anos antes.Estreia do balé O quebra-nozes, no Teatro Mariinsky, em São Petesburgo.

1893
Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Cambrigde, na Inglaterra. Morre em 6 de novembro em São Petersburgo.