Dança e acessibilidade na cena

por Redação CONCERTO 24/04/2026

Por Flávia Fontes Oliveira [roteirista e jornalista]

Em 2011, no clipe da canção You Need Me, I Don't Need You, do cantor e compositor britânico Ed Sheeran, o ator Matthew Morgan, filho de pais surdos (CODA), aparece, em pouco mais de quatro minutos, acompanhando a música em libras, em uma coreografia sincronizada com as batidas. Com mais de 62 milhões de visualizações, as imagens incorporaram essa forma de comunicação à expressão artística. Embora não se possa dizer que tenha sido feito com este intuito, muitos fãs acabaram reproduzindo e se interessando por essa linguagem. O trabalho se aproxima de uma criação com acessibilidade, que se tornou um recurso cada vez mais importante da cena da dança: para quem assiste e para os artistas. 

De um lado, artistas e companhias vêm incorporando com mais frequência recursos como audiodescrição, interpretação em libras e ações de mediação em seus espetáculos e performances. De outro, a acessibilidade passou a integrar processos de criação, com trabalhos que trazem diferentes formas de percepção do corpo como parte da linguagem cênica. “A diversidade de pessoas dentro do universo da dança tem contribuído para modificação do universo das artes de forma geral. Esse é meu pensamento hoje, mas que foi sendo construído no decorrer dos anos: me interessa artisticamente o que essa obra vai modificar ou não no universo em que estamos”, diz Henrique Amoedo, brasileiro e diretor artístico da Dançando com a Diferença, companhia portuguesa da Ilha da Madeira.

Em 25 anos de existência, a companhia trabalha com diversidade de coreógrafos: há obras de Amoedo, como Safe (2019), Passion (2003), da brasileira Ivonice Satie (1950-2008) ou ainda Sibela e Digoo (2026), da portuguesa Tânia Carvalho. “Quando um coreógrafo vem trabalhar com o grupo importa a linguagem desse coreógrafo, a forma de ele se expressar e a soma da linguagem de cada um deles com a linguagem dos intérpretes”, diz. Para Amoedo é importante que o público enxergue o resultado artístico em um primeiro momento, ele precisa ser “agarrado” por esse lado.

Amoedo está na área há cerca de 30 anos. No Brasil, ao lado de Edson Claro (1949-2013), no Rio Grande do Norte, criou o Roda Viva Cia. de Dança, que existiu entre 1994 e 1999, e trazia para a cena trabalhos de grandes nomes da dança do país, como Luis Arrieta, Henrique Rodovalho e Ivonice Satie, para corpos diversos. O Roda Viva não se tornou um caso isolado, o número de artistas e companhias com pessoas com deficiência vem transformando a forma como se pensa o corpo, a cena e o próprio campo da arte. Desde 2015, por exemplo, o Itaú Cultural organizou o ||entre|| arte e acesso, programa destinado à cultura DEF e a trabalhos artísticos produzidos por pessoas com deficiência, com programa de mentoria, apoios a trabalhos e pesquisas. No site do projeto, há um portfólio coletivo de artistas com deficiência e, até o momento, conta com mais de quinhentos artistas inscritos. 

Anderson Leão, artista, diretor artístico e coreógrafo, à frente do Movidos Dança, ao lado de Daniel Silva, companhia com sede em Natal, focado em corpos diversos para bailarinos com ou sem deficiência, há mais de 25 anos está envolvido em projetos de dança e acessibilidade. Participou do grupo Roda Viva, depois criou outros e lembra que no início, pouco se falava sobre acessibilidade, não existia bibliografia, as universidades não tinham professores PCDs, por exemplo. “Nós discutimos muito sobre dança e acessibilidade, acho que isso abriu portas para outros artistas, para grupos com elenco de pessoas com deficiência. Foi uma vitória, fazer com que as pessoas convivam com esses artistas, saibam que existem potências de dança no nosso país. Acho que começamos a quebrar tabus”, diz.

Nuvem de pássaros (2018), trabalho do grupo que vem circulando em vários palcos pelo Brasil, inspirada na migração de pássaros, trata justamente do coletivo e das formas possíveis de ocupar o espaço com diversidade de movimentos e corpos.  

Corpo sobre tela (divulgação, Gal Oppido)
Corpo sobre tela (divulgação, Gal Oppido)

 
O bailarino e coreógrafo Marcos Abranches, portador de coreoatetose – deficiência física rara decorrente de uma lesão cerebral, um estado patológico que se manifesta a partir de movimentos involuntários, intermitentes e irregulares da face e dos membros – também acredita que a dança recebe hoje outros tipos de corpos. Em criações como Corpo sobre tela (2012), por exemplo, usa esses movimentos a favor de sua criação. Inspirado na obra do pintor Francis Bacon (1909-1992), Abranches usa uma estrutura ensaiada capaz de absorver movimentos involuntários. “Não existe um padrão de corpos perfeitos para se dançar. O corpo perfeito é só um bloqueio e um preconceito da sociedade. Na linguagem artística, o contemporâneo tem mostrado a importância que é ser um dançarino com deficiência trazendo oportunidades de trabalho no mundo artístico”, completa.

Esse reconhecimento, a conquista de mais espaço nesse momento, é visto como algo importante para a classe. “Há muitos criadores com deficiência, com neuro divergências, criadores com corpos e mentes diversos que começam estar no universo da criação e isso é uma evolução”, coloca Amoedo.

Do outro lado da cena

Para a plateia, a acessibilidade também vem ganhando espaço. “O assunto acessibilidade está em alta, pois se fala mais dos recursos e o público PCD vem cobrando mais o seu espaço”, afirma Paullo Anaya, CEO e fundador da OpenSenses: Acessibilidade Comunicacional. Para ele, hoje, a tecnologia ajuda, mas sozinha não resolve, precisa do ser humano na intermediação e no acolhimento. 

No Brasil, instituições como Sesc São Paulo ou Itaú Cultural já incluíram esses recursos em suas atividades. Os últimos anos também marcaram uma mudança nas políticas públicas, com editais solicitando nos projetos inclusão da acessibilidade. Na dança, companhias como a São Paulo Companhia de Dança (SPCD) reconhecem a importância desse diálogo. “A acessibilidade comunicacional é uma responsabilidade. Na São Paulo Companhia de Dança, entendemos que democratizar o acesso à dança passa, necessariamente, por garantir que a informação chegue a todos. Por isso, buscamos continuamente ampliar os recursos – que aplicamos desde o início dos nossos trabalhos – em nossas ações, certos de que esse é o primeiro passo para uma experiência artística mais diversa, ampla e verdadeiramente inclusiva”, afirma Inês Bogéa, diretora artística da SPCD.

“São sempre quatro recursos de tecnologias assistivas a se empregar. Não tem muito o que mudar, mas na entrega, sim, pode mudar bastante, com uso de tecnologias ou somente o profissional presencialmente no local”, coloca Paullo. As tecnologias são divididas em: PCD visual (cegos e baixa visão: audiodescrição e locução gravadas e ao vivo); PCD auditivo (libras ao vivo e gravada); e legendagem LSE em casos de produtos gravados.

Amoedo, no caso do trabalho para sua companhia, acredita que a acessibilidade tem que ser feita pensando no público, mas sem desvincular da criação artística. “Acho que é um momento mais novo, ou seja, os criadores hoje de alguma forma já estão sensibilizados para isso, a maioria deles já pensa nas questões de acessibilidade e, no nosso caso especificamente, quando os criadores não estão sensibilizados, chamamos atenção para isso. É muito diferente, no meu modo de entender, ter uma criação artística e depois inserir a questão da acessibilidade nessa obra – e não que seja menos importante – ou se a criação for acompanhada já de toda essa preocupação, ou seja, seus áudios escritores, os que vão fazer interpretação em libras, se puderem acompanhar esse processo, acho que tem outra riqueza no resultado final”, coloca. 

“A preocupação precisa vir desde o início do projeto”, concorda Paullo. Na sua opinião, o Brasil ainda caminha de forma lenta. Ele cita que, além de haver pouca divulgação sobre os recursos, muitas vezes, isso não é uma preocupação das pessoas envolvidas. 

Ainda há um ponto de desafio que une público e artistas com deficiência, a acessibilidade dos locais: não apenas a plateia com espaços especiais, mas também camarins e lugares de circulação dos elencos. Embora os entrevistados concordem que avanços são visíveis, muitos teatros, centros culturais e equipamentos esbarram em dificuldades, às vezes até mesmo por conta de espaços tombados. Anderson Leão lembra que certa vez a companhia foi se apresentar em um Festival e a diretora os recebeu pedindo desculpas sobre a acessibilidade estar ainda em andamento. “No ano seguinte, fomos novamente para a mesma mostra, e a mesma diretora foi nos receber feliz mostrando o camarim, o projeto de rampa do artista para o palco. Olha a importância desse movimento”, coloca. 

Clique aqui para assistir: Vídeo Ed Sheeran

Clique aqui para assistir: Portfólio Arte e acesso

Clique aqui para assistir: Marcos Abranches

Clique aqui para assistir: Dançando com a Diferença

Clique aqui para assistir: Trecho de SAFE

Clique aqui para assistir: Movidos Dança

Cena de Nuvem de pássaros (divulgação, Nelson Miranda)
Cena de Nuvem de pássaros (divulgação, Nelson Miranda)

 

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