Morre, aos 81 anos, o maestro Michael Tilson Thomas

por Redação CONCERTO 24/04/2026

Ele se recusou a se conformar com padrões e, assim, tornou-se um dos principais regentes dos últimos cinquenta anos, símbolo da arte norte-americana e defensor da nova criação musical

Em sua primeira temporada como diretor da Orquestra Sinfônica de São Francisco, em 1995, o maestro Michael Tilson Thomas tomou uma decisão. Encomendou ao compositor Lou Harrison uma obra para seu concerto inaugural e, em todas as apresentações do ano, incluiu uma obra de um autor americano.

Era uma tomada de posição que marcou a trajetória do maestro. Sua atenção à música contemporânea estava associada à divulgação da música americana. Uma das séries que criou ao longo da carreira, American Mavericks, acabou servindo como forma de defini-lo: foi ele também um músico que se recusou a se conformar com padrões e, assim, tornou-se um dos principais regentes dos últimos cinquenta anos, símbolo da arte norte-americana.

Sua trajetória se encerrou na quarta, dia 22, com a notícia de sua morte, aos 81 anos. Em 2020, ele havia descoberto um glioblastoma, uma forma agressiva de tumor no cérebro. Pouco depois, ele se submeteu a uma cirurgia e reduziu suas aparições à frente de orquestras. Em setembro de 2024, no entanto, abriu a temporada da Filarmônica de Nova York, concerto precedido por aparições à frente de orquestras europeias. Mas, meses depois, em fevereiro de 2025, ele anunciou o retorno do tumor. Fez ainda um concerto em São Francisco que celebrou seus 80 anos. E retirou-se dos palcos.

Nascido em Los Angeles, Tilson Thomas estudou na Universidade da Califórnia e, como pianista, participou ainda nos anos 1960 como artista residente em uma série de concertos de câmara na qual foram estreadas obras de autores como Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen ou Igor Stravinsky. Em 1968, participou do Festival de Tanglewood, onde conheceu o maestro Leonard Bernstein, que se tornaria seu mentor, como regente, mas não apenas. “Ele foi o melhor professor e desmistificador da música clássica para o público em geral desde Leonard Bernstein – uma pedagogia popular que o Thomas implementou por meio de programas de televisão premiados, vídeos e sites educacionais online”, escreveu sobre ele o crítico Anthony Tommasini.

Nos anos 1970, o maestro atuou por oito anos como diretor da Filarmônica de Buffalo; de 1981 a 1985, foi principal regente convidado da Filarmônica de Los Angeles. E, entre 1988 e 1995, foi o regente principal da Orquestra Sinfônica de Londres. Foi então que assumiu a Sinfônica de São Francisco, na qual permaneceu por 25 anos, ajudando a fazer do grupo um fenômeno nacional.

Para tanto, trabalhou proximamente a compositores como John Adams, Meredith Monk, Steve Reich, Philip Glass, Charles Wuorinen. Com isso, São Francisco reivindicava para si um ar de modernidade que, de certa forma, explica o fato da cidade, cuja história está ligada a avanços políticos e comportamentais, ter abraçado o grupo e Tilson Thomas como seu maestro. 

Gravações de autores americanos como Charles Ives, Bernstein, Copland, Gershwin – e também de latino-americanos, como Heitor Villa-Lobos – dominaram os primeiros anos de sua discografia com a orquestra. E, com a criação do selo próprio da orquestra, o repertório registrado em disco se ampliou, incluindo uma integral das sinfonias e dos ciclos de canções de Mahler. O interesse pela música nova, no entanto, não arrefeceu – um de seus principais trabalhos recentes com a sinfônica foi um disco dedicado a obras de Mason Bates, um dos principais nomes da nova geração de autores americanos.

Ao longo da carreira, o maestro gravou 120 discos, e com eles ganhou doze vezes o prêmio Grammy. Ainda assim, ele se colocava como grande advogado da música feita ao vivo. “O que espero é que as pessoas amem a música, tenham a mente aberta e se empolguem com a ideia de ouvir algo novo – seja do passado ou do presente – e se entusiasmem ao descobrir algo novo em uma obra que já lhes é familiar. Um dos maiores perigos que enfrentamos neste século tem sido a maldição e a bênção das gravações e de todos os outros sistemas de coleta e retenção de informações nas artes. Isso nos faz esquecer que a música é uma arte performática e foi concebida para ser diferente a cada apresentação. Cada interpretação tem uma perspectiva ligeiramente diferente”, disse, em uma entrevista do início dos anos 1990. 

“Cada vez mais, temos pessoas que amam música, mas talvez amem apenas uma versão daquela obra e considerem o sucesso ou o fracasso de uma apresentação ao vivo com base em quão semelhante ela é a uma gravação que já possuem em disco ou fita cassete. Isso não é bom para a obra. Não é bom para o compositor, porque limita demais seus ideais universais. Para mim, tudo isso é muito emocionante e, ao mesmo tempo, muito trabalhoso. Mas a parte mais empolgante é esse diálogo constante com os espíritos que criaram a música.”

“Analiso toda a música buscando compreender sua estrutura. Ao observar a partitura, tento ir além da notação e imaginar o que ela simboliza, o que sugere. Sei, por experiência própria como compositor, que é praticamente impossível transcrever exatamente o que se tem em mente, por mais específico que se tente ser. A crescente complexidade da notação cria tantos problemas quanto soluções, pois, a partir de certo ponto, o objetivo de uma performance passa a ser, em grande parte, a congruência com o que essas partituras sugerem. Dessa forma, cria-se uma estética de modelos acústicos, na qual existe uma performance magistral cuidadosamente editada a partir de alguma outra obra. Uma performance ao vivo é avaliada pela sua fidelidade a essa performance magistral. Isso é totalmente contrário à história da música. A natureza das peças que se tornaram grandes clássicos se deve ao fato de admitirem diversas interpretações. Elas transmitem uma mensagem universal, que pode ser focada e apresentada de várias maneiras diferentes. É por isso que essas peças perduram por centenas de anos. Ainda é interessante ouvi-las.”

 

Sobre seu trabalho como regente, ele gostava de citar algo que ouviu do maestro Otto Klemperer. “Ele me disse que a projeção da forma é a maior prioridade para um maestro. Mas disse que a forma não está na cabeça, mas sim no coração e na paixão.” E isso, explicava, significava uma relação diferente com a orquestra. “Gosto de sentir as personalidades e energias da orquestra nas minhas apresentações. Se eles apenas ouvem o que eu digo e fazem o que eu mando, isso não me interessa. Não é suficiente. O que é interessante e divertido para mim é apontar certas coisas ou fazer sugestões e ver como eles pegam essas ideias, as reformulam e as apresentam como se fossem suas. O produto final é verdadeiramente uma colaboração.”

Um projeto particularmente importante desenvolvido por Tilson Thomas em São Francisco foi a série Keeping Score, composta por documentários nos quais o maestro abordava de forma didática e ampla – incluindo contextos históricos e estéticos – obras como A sagração da primavera, de Stravinsky, a Sinfonia nº 3 de Beethoven, a Sinfonia nº 1 de Mahler, a Sinfonia fantástica de Berlioz, a Sinfonia nº 5 de Shostakovich ou a Sinfonia nº 4 de Tchaikovsky.

Outra iniciativa marcante foi a série SoundBox, com apresentações em um  galpão. “No Soundbox, você podia ficar em pé em vez de sentar. Podia usar o celular. Podia beber. Podia ser você mesmo em um concerto de música clássica, basicamente, o que significava tudo para pessoas como eu”, relembrou o músico Gabe Meline em texto publicado após a morte do maestro. “Ao mesmo tempo, quando ouço que ele desmistificou a música clássica, penso que ele fez, na verdade, o oposto. Ele a tornou acessível, sim. Mas também a elevou com admiração, dizendo a nós: ‘Não é terrivelmente misterioso, tão belo, como todos esses elementos diferentes funcionam juntos para criar essa coisa incrível chamada música?’. Era disso que sempre se tratava com ele.”

Com o objetivo de compartilhar sua visão com jovens músicos, o maestro criou, no final dos anos 1980, em Miami, na Flórida, a New World Symphony, uma academia de formação profissional cujos membros realizam uma residência de três anos, durante a qual trabalham em programas orquestrais, apresentando cerca de 70 concertos por ano, e recebem aulas de música de câmara e aprimoram suas habilidades como artistas. "A academia é uma plataforma de lançamento para a vida das pessoas. Minha missão pessoal é fazer com que elas se apeguem à pergunta ‘O que isso significa?’. Estou tentando transmitir a mensagem mais ampla sobre o que a música realmente representa.”

“Com a música clássica”, disse o maestro, “lidamos com uma música que, como parte de sua finalidade, não se revela completamente na primeira audição”. “Ela apresenta muitos elementos atraentes e envolventes, mas, de alguma forma, ao longo do tempo, ela se infiltra em nós. Ela tem um efeito emocional maior. É como a poesia. Conforme vivemos, começamos a entender melhor o que a obra diz e, em alguns casos, o que ela não diz também se torna muito, muito importante. De repente, em momentos de crise ou reflexão, uma frase musical nos vem à mente espontaneamente, e percebemos que alguma parte de nós se entrelaçou com ela. Essa música é uma experiência tão importante quanto um dos principais eventos de nossas vidas. Ela realmente tem uma história conosco.”

Uma história que Tilson Thomas ajudou a escrever. 

O maestro Michael Tilson Thomas [Divulgação/Kristen Loken/michaeltilsonthomas.com]
O maestro Michael Tilson Thomas à frente da Sinfônica de São Francisco [Divulgação/Kristen Loken/michaeltilsonthomas.com]

 

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