Theatro Municipal do Rio de Janeiro trabalha para resolver questões estruturais e, para seus diretores, recria relação com o seu público
Quem frequenta o Theatro Municipal do Rio de Janeiro há menos de 12 anos não sabe que a boca de cena do principal palco carioca já foi muito mais bela, ostentando uma espetacular cortina de veludo vermelho e borlas douradas. Pesadíssima, solene e suntuosa. A cortina e o mecanismo que a movimentava se desfizeram em 2015 e, desde então, um improviso foi instalado. Mas a presidente da fundação que dirige a casa anuncia que isso mudou. "Finalmente temos de volta nossa cortina. Com tudo a que tem direito! ", conta Clara Paulino, em entrevista na última semana de fevereiro.
Depois de divulgar a temporada 2026, na semana passada, Paulino e Eric Herrero, o diretor artístico, contaram à CONCERTO que a gestão do Municipal está se programando para um ano com novidades, a começar pela realização do aguardado concurso para as posições nos corpos artísticos, técnico e administrativo. "Conseguimos, nos últimos três anos, realizar os projetos com a contratação de temporários, que se estendeu até o próximo mês dezembro. Em junho de 2025, recebemos autorização para o concurso que vai preencher 110 vagas e formar cadastro de reserva. Licitamos a banca organizadora dia 24 de fevereiro", diz Paulino.
É uma notícia auspiciosa para o teatro: orquestra, coro e balé são organismos coletivos que só se desenvolvem verdadeiramente com o trabalho constante. Nos últimos anos, só o ballet tem sido fortalecido, por conta dos talentos da Escola de Danças Maria Olenewa, que é ligada ao Municipal. Sob a gestão de Hélio Bejani, os jovens bailarinos têm sido bem aproveitados – na programação, o balé conta com quatro grandes montagens, enquanto a ópera tem duas montagens completas, assim como os concertos, sem contar a cantata Carmina Burana e o concerto didático teatralizado.
Aliás, para o balé há outra boa notícia. "Em dezembro conseguimos comprar o piso flutuante (estrutura que recobre o chão do palco para amortizar o impacto dos saltos e das piruetas). Isso foi proporcionado pelos recursos captados através da Lei Aldir Blanc, lei federal de incentivos, via Associação de Amigos, que ainda possibilitou recuperar as varas cênicas de iluminação e tratar do ar-condicionado, substituindo parte das serpentinas. Nosso projeto é buscar mais recursos na Aldir para restauração das marquises e ferragens, compra de instrumentos musicais e recomposição dos sistemas de som e luz do palco", explica Paulino.
Veja, nosso primeiro patrocínio vindo da Petrobras nos trouxe R$ 3 milhões para dois anos. O segundo, R$ 3 milhões para seis meses. O terceiro foi o que deu R$ 20 milhões e incluía também parte da manutenção. Já esse ano temos outra configuração, muito mais confortável. Isso mostra que a confiança cresceu, afirma Clara Paulino
O mês de janeiro, continua ela, foi de higienização e recuperação do sinteco, da pintura da sala principal e reforma parcial da Sala Mario Tavares, no prédio anexo. Valores das bilheteria, da locação do teatro para permissionários, dos ingressos das visitas guiadas são direcionados para a manutenção. O patrocínio para a realização dos espetáculos continua vindo da Petrobras, também pela Associação. O valor cresceu: assinado em junho de 2025, prevê R$ 30 milhões de repasse até julho de 2027. Esse novo contrato não prevê ações de manutenção, como no anterior, de R$ 20 milhões.
"Veja, nosso primeiro patrocínio vindo da Petrobras nos trouxe R$ 3 milhões para dois anos. O segundo, R$ 3 milhões para seis meses. O terceiro foi o que deu R$ 20 milhões e incluía também parte da manutenção. Já esse ano temos outra configuração, muito mais confortável. Isso mostra que a confiança cresceu", conta Paulino.
Um outro ponto constantemente cobrado da fundação é o funcionamento das Centrais Técnicas, as “fábricas” de cenários, figurinos e adereços. São duas: a primeira, criada na gestão de Adolfo Bloch nos anos 1970, fica em Inhaúma e, nas últimas décadas, foi maltratada tanto por falta de investimento quanto pelas circunstâncias do entorno, cada vez mais inseguro, além de ter sofrido sérios danos principalmente na enchente de 2000 – hoje, funciona ainda como acervo, para construção de cenários e adereços de cena. A segunda, um projeto muito mais ambicioso, foi anunciada em 2012, num galpão na área portuária da cidade, na Gamboa. Desde 2022, o espaço já abriga figurinos das novas produções e pintura de telões, mas o funcionamento ainda é precário.
Vejo que nós conquistamos a confiança da população depois de períodos turbulentos; há continuidade e estabilidade. Nossa média de público subiu consideravelmente e isso é resultado de um trabalho interno de construção horizontal da programação, em parceria com os corpos artísticos, diz Eric Herrero
Clara diz que projeto completo da Gamboa foi apresentado ao BNDES. "São R$ 38 milhões, também via Lei de Incentivo federal, para transformar o local e abrir várias frentes, não apenas a de construção, manutenção e guarda adequada de cenários e figurinos. Idealmente, o espaço vai servir para apoio técnico, ações de formação de profissionais, de caráter educativo e ainda espaço de gastronomia, exposições, artesanato."
Há dois anos, o Municipal voltou a integrar a OLA, Ópera Latino-America, entidade que congrega casas de produção lírica na América Latina e na Espanha. Já foram feitos intercâmbios e coproduções, como a Rusalka de 2024, com a Ópera de Tenerife. "Nosso diálogo com as outras casas tem sido frutífero, com destaque para o Municipal de São Paulo; estamos negociando nossa Turandot. E é possível que o Rio seja anfitrião do encontro de 2027", explica Eric Herrero.
Diretor artístico do TMRJ desde fevereiro de 2022, Herrero acumula a função com a presidência do Conselho Estadual de Política Cultural. Apesar da programação 2026 trazer, no palco principal, apenas um evento por mês, Herrero destaca uma “mudança na relação do público com o teatro”. "Vejo que nós conquistamos a confiança da população depois de períodos turbulentos; há continuidade e estabilidade. Nossa média de público subiu consideravelmente e isso é resultado de um trabalho interno de construção horizontal da programação, em parceria com os corpos artísticos."
Esse ano, a escolha dos títulos demonstra, em parte, um atendimento aos “pedidos do público”, segundo Herrero, com a repetição do hit Carmina Burana na montagem com participação do balé, e o sempre muito solicitado O quebra-nozes no fim do ano. Das duas grandes óperas programadas, Salvator Rosa, de Carlos Gomes, celebra o aniversário do teatro em julho voltando ao palco carioca depois de 80 anos; e a segunda, Turandot, de Puccini, também tem data redonda – cem anos da estreia.
Dentre os artistas convidados em 2026 estão os regentes Tobias Volkmann, Luz Fernando Malheiro, Vitor Hugo Toro, Carlos Vieu e a argentina Natalia Salinas, à frente das óperas do Festival Oficina, o projeto de formação no campo lírico; os diretores cênicos Julianna Santos e André-Heller Lopes; e, dentre os cantores, Carolina Morel, Michele Menezes, Geilson Santos, Lício Bruno, Guilherme Moreira, Santiago Villalba, Marcello Vannucci, Marly Montoni, Marianna Lima, Vinícius Atique,Savio Sperandio, Murilo Neves, Calebe Faria, Eiko Senda, Homero Velho, Denise de Freitas e Inácio de Nonno. "Teremos ainda dois tenores italianos em Turandot, em fase de seleção, na parceria com Instituto Italiano di Cultura e o Festival di Livorno", adianta Eric.
Entre a programação nos espaços alternativos, projeto educativo que convida estudantes e professores aos espetáculos (“esse ano vamos fazer um piloto ampliando o educativo para a ida a escolas”, diz Eric), projetos de ampliação de acessibilidade, masterclasses, podcasts, a presidente e o diretor artístico manifestam muita esperança nas realizações – algumas, longamente adiadas (“tudo no serviço público demora muito”, considera Clara).
É fato que muitos cariocas sentem falta de seu Theatro Municipal coberto de glória e repleto de atrações, com desfile de artistas internacionais em suas produções, estreias de títulos contemporâneos e um debate cultural mais ousado. Mas boas notícias estruturais e uma temporada que cumpre o que promete já significa um avanço nada desprezível. Que se abram as (novas) cortinas.
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