Volume 32

por Redação CONCERTO 07/04/2026

Vol 32

Henrique Alves de Mesquita

Compositor prolífico que desafiou a exclusão sistêmica dos negros na sociedade brasileira para alcançar destaque como uma das figuras mais importantes da cena musical local do século XIX. Era muito apreciado por sua música sacra e óperas, que raramente são ouvidas hoje em dia. Após anos de estudo em Paris, Mesquita direcionou sua versatilidade e sofisticação para estilos de teatro musical da moda, como polcas, tangos e valsas, transmitindo emoções que variam da alegria contagiante à melancolia suave. São essas peças mais leves que hoje são consideradas por muitos estudiosos como uma das principais origens da música popular brasileira moderna.

Clique AQUI para comprar na Loja CLÁSSICOS.
Clique AQUI para ouvir.


Vol 32
[Reprodução capa]

Texto do encarte

Henrique Alves de Mesquita (1830–1906)
Obras para piano

Compositor profundamente influenciado pelo teatro lírico francês e pela música italiana, Henrique Alves de Mesquita deixou uma extensa produção que revela um autor habilidoso em transitar com elegância por uma vasta gama de gêneros musicais de seu tempo, com pleno domínio técnico e sensibilidade artística tanto nos domínios da música sacra e da ópera, quanto no da música popular (paródias, mágicas e operetas).

Nascido no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1830, numa modesta residência no extinto Morro do Castelo, negro, filho de pais não casados e oriundo de uma família com módicos recursos, a trajetória de vida de Mesquita reflete os problemas de uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade e pela rigidez da hierarquia social da época. A exclusão sistemática imposta à população negra fazia com que vidas como a sua fossem, desde o nascimento, condicionadas por um destino socialmente pré-estabelecido, sobretudo no contexto da ainda vigente escravidão no Brasil.

Mesquita teve sua formação musical inicial como trompetista e em instrumentos afins sob a orientação do compositor francês Desidério Dorison, músico atuante na então capital do Império do Brasil. Foi Dorison quem o apresentou ao universo musical francês, com ênfase no repertório popular parisiense, influência que marcaria intensamente sua sensibilidade artística e que encontraria pleno desdobramento anos mais tarde, por ocasião de sua temporada parisiense.

Seu talento precoce, já reconhecido no cenário artístico carioca, o conduziu, em 1848, ao ingresso no Liceu Musical, na turma do professor Gioacchino Giannini. Pouco tempo depois, passou também a frequentar a classe de Giannini no recém-fundado Conservatório de Música, idealizado por Francisco Manuel da Silva. Giannini, professor de contraponto e de composição, foi uma das figuras mais influentes da vida musical do Rio de Janeiro, exercendo papel decisivo na consolidação da reputação de Mesquita e contribuindo para seu reconhecimento como um dos jovens compositores mais promissores de sua geração.

Em 1857, Mesquita foi o primeiro músico brasileiro a ser contemplado com o prêmio de viagem. Instituída naquele ano, a distinção era um atestado de mérito oferecido pelo governo imperial e uma real oportunidade de aperfeiçoamento musical para os alunos do Conservatório em qualquer instituição de ensino europeia. A premiação inseria-se em um contexto mais amplo de iniciativas voltadas ao fortalecimento da atividade operística no Brasil, especialmente por meio da criação da Companhia de Ópera Nacional, responsável pelo financiamento do prêmio, que, em sua segunda edição, levaria Antônio Carlos Gomes ao Conservatório de Milão, na Itália.

Aos 27 anos, Mesquita passou a frequentar com assiduidade as aulas de harmonia do célebre François Emmanuel Joseph Bazin no Conservatório de Paris. Reconhecido por seu estilo versátil, Bazin transitava com naturalidade entre a música popular, a ópera e o teatro musical, absorvendo influências da verve italiana de Gioachino Rossini, além de contribuir significativamente para o repertório da música sacra. Sob sua orientação, o brasileiro aprofundou ainda mais sua linguagem composicional, consolidando-se como uma das figuras mais promissoras da cena musical brasileira do século XIX. Por essas instituições caminhou Mesquita, ampliando a cada passo sua rede de sociabilidade e garantindo o bom êxito de sua carreira e os meios para sua sobrevivência. Ao mesmo tempo em que conquistava reconhecimento como artista de valor, rompia os padrões estabelecidos por todos os segmentos da sociedade escravista na qual estava inserido. Se, porém, por um lado, foi para o Conservatório de Paris levando consigo os louros de seus triunfos conquistados na terra natal, por outro lado retornaria ao Brasil com o desconforto da reprovação da Coroa por uma grave acusação, nunca plenamente esclarecida, de “ofensa à moral pública e aos bons costumes”, o que lhe rendeu três anos encarcerado na capital francesa.

Reconhecido pela crítica como um artista bem sucedido, identificava-se em Mesquita o potencial de contribuir para o desenvolvimento de uma música genuinamente brasileira. Sua habilidade na composição de música sacra era considerada notável, a ponto de se afirmar que, nesse e em outros gêneros, deveria servir de modelo para seus contemporâneos. Apesar do talento reconhecido à época, grande parte da produção de Mesquita permanece desconhecida. Apenas recentemente foram recuperadas duas das oito missas compostas por ele, e o material de suas três óperas ainda aguarda redescoberta. Seu nome, no entanto, perpetuou-se pela contribuição à música ligeira, considerada por muitos estudiosos uma das principais raízes da moderna música popular brasileira.

No seu retorno ao Brasil, em 1866, Mesquita encontrou um cenário teatral cada vez mais permeado pela estética leve, satírica e espirituosa consagrada por Jacques Offenbach na cena parisiense. Nesse contexto, a corte brasileira, sempre sensível às tendências culturais europeias, passou a acolher com entusiasmo gêneros florescentes como a opereta, a ópera cômica e os vaudevilles. Mais do que simplesmente importar repertórios, absorvia-se também o espírito festivo, irreverente e mundano dessas formas cênico-musicais, que rapidamente conquistaram o gosto do público e das elites. Como consequência, o projeto da chamada “ópera nacional”, ainda em processo de consolidação, foi sendo progressivamente marginalizado e deixado à própria sorte diante do prestígio avassalador das novidades parisienses. Com a redução dos subsídios governamentais, a atividade teatral passou a depender notavelmente das bilheteiras, sendo as “mágicas” (uma espécie de opereta à brasileira, hoje desaparecida) uma importante fonte de renda. Mesquita foi o principal expoente desse gênero, possuindo cerca de uma dezena de composições identificadas.

Quase todas as obras do programa desta gravação foram compostas após o retorno de Mesquita da capital francesa, e são exemplos tanto da sua escrita original para piano quanto da música composta para as mágicas – as versões para piano dos sucessos teatrais da época, feitas sobretudo para uso doméstico, ganharam vida própria e entraram para o repertório. Por meio de uma escrita refinada e versátil, o compositor revela sua habilidade em transitar com naturalidade por uma ampla gama de gêneros e estilos então em voga no teatro musical, como o tango, a polca, a quadrilha e a valsa. Essas obras evidenciam sua assimilação criativa de um processo transcultural, integradas de maneira original ao contexto da cena musical brasileira do século XIX, especialmente em sua atuação junto às orquestras dos teatros Alcázar e Phenix Dramática.

O tango da mágica Ali Babá ou Os Quarenta Ladrões, apresentado com grande sucesso no Theatro da Phenix Dramática em 1872, era executado durante a troca de cenários. Fortemente marcado pela habanera, ritmo já amplamente difundido nas Américas, é reconhecido como o primeiro registro concreto do que viria a ser chamado de “tango brasileiro”. Com essa obra, Mesquita se consagra como o precursor do gênero, que mais tarde seria sistematizado, ampliado e consolidado no repertório brasileiro por expoentes como Francisca (“Chiquinha”) Gonzaga, Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros. No mesmo ano, obteve igual êxito o “tango dos pretos”, da mágica A Pera de Satanás (1872), seguido por outras peças significativas, como Revista 1888 (1888), tango para piano; o Batuque (1894), classificado como tango característico, até hoje uma de suas composições mais conhecidas; e o tango Remissão dos Pecados, de data incerta, mas provavelmente composto entre 1870 e 1877, período de atividade editorial da Narciso & Arthur Napoleão, responsável por sua publicação.

Enquanto o tango explora variações entre tonalidades maiores e menores, a polca, dança originária da Boêmia, consolidou-se no Brasil com melodias animadas, invariavelmente em tons maiores. Sua forma nacionalizada incorporou elementos do lundu, expressão marcante da cultura afro-brasileira, e do cateretê, de raízes ameríndias, resultando em uma síntese rítmica vibrante que rapidamente conquistou o gosto popular. Entre as diversas polcas compostas por Mesquita, destacam-se neste disco A Surpresa (1870s), Camões (1880), a polca-cateretê Quebra, quebra minha gente (1882), a polca da mágica A Gata Borralheira (1884), Laura (1886) e Água do Vintém (1895), que atestam sua habilidade em dialogar com o espírito dançante e popular da época.

Outras obras, como as quadrilhas Soirée Brésilienne (1862) e Yayá (1899), o intermezzo Doce Lembrança (1896), a toccata A Vaidosa (1895), a valsa-recitativo Oração da Infância (década de 1870) e a célebre valsa da mágica O Vampiro, ou Os Demônios da Meia-Noite (1873), reforçam o reconhecimento da produção musical de Mesquita como profundamente enraizada na cultura brasileira. Por meio da diversidade de formas e estilos, sua música traduz sensibilidades do contagiante alegre à melancolia serena e nos oferece um sentimento de pertencimento que ecoa no imaginário nacional.

Nenhuma dessas atividades comprometeu a reputação de Mesquita como músico, pelo contrário: em 1872, foi nomeado organista da Igreja de São Pedro, no Rio de Janeiro, e, no mesmo ano, professor do Conservatório de Música (futuro Instituto Nacional de Música), lecionando inicialmente teoria e solfejo. A partir de 1890, passou a ministrar também as disciplinas de instrumentos de metal, função que exerceu até sua aposentadoria em 1904. Ao falecer, dois anos depois, era reconhecido como um dos músicos mais respeitados do país.

Embora sustentado por estruturas sociais rígidas, o país foi, em certos momentos, capaz de reconhecer talentos que desafiavam as hierarquias estabelecidas. A ascensão de Mesquita evidencia não apenas sua extraordinária habilidade como trompetista, organista, regente, professor e compositor, mas também as contradições de instituições culturais que, mesmo seletivas e excludentes, não puderam ignorar a força de uma sensibilidade artística incomum.

Thadeu de Moraes Almeida

Curtir

Comentários

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da Revista CONCERTO.

É preciso estar logado para comentar. Clique aqui para fazer seu login gratuito.