John Malkovich, um inimigo do exagero

O tempo da literatura não coincide necessariamente com o tempo da arte dramática. Mas, em The Infamous Ramirez Hoffman, deu tudo certo: ritmo, fluência e uma elegância mozartiana na entonação

Novembro de 2011: na minitemporada de reinauguração do recém-reformado Theatro Municipal de São Paulo, no centenário da casa, John Malkovich atua em The Infernal Comedy, espetáculo em que encarna o serial killer Jack Unterweger, em meio à interpretação de obras de Mozart, Vivaldi, Beethoven, Haydn e Weber pela Musica Angelica Baroque Orchestra, dirigida por Martin Haselböck e solos das sopranos Kirsten Blaise e Marie Arnet. Que sonho ver ao vivo o astro que galvanizara minha imaginação como Valmont no exuberante Ligações perigosas (1988), de Stephen Frears! “Ocasião única e irrepetível”, pensei, à época.

1.º de abril de 2026, e não é mentira: a temporada de concertos internacionais da TUCCA promove o reencontro de John Malkovich com o público paulistano. Inicialmente anunciara-se, para setembro, Their Master’s Voice, outra parceria do ator norte-americano com Martin Haselböck. Em reviravolta digna do cinema hollywoodiano, mudou-se data, equipe e programa, e fomos brindados com The Infamous Ramirez Hoffman, baseado em Ramírez Hoffman, o infame, último capítulo de A literatura nazista na América (1996), terceiro romance do chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

Precocemente falecido de insuficiência hepática aos 50 anos, Bolaño foi um fenômeno literário do final do século passado, celebrizado sobretudo por Os detetives selvagens (1998) e pelo monumental romance póstumo 2666. Borgianamente organizado como uma enciclopédia literária fictícia cujos verbetes são escritores das Américas envolvidos com a extrema direita, A literatura nazista na América foi sua primeira obra a chamar a atenção da crítica literária. Rebatizado Carlos Wieder, o personagem Carlos Ramírez Hoffman (Santiago do Chile, 1950 – Lloret de Mar, Espanha, 1998) seria desenvolvido e reapareceria na criação subsequente de Bolaño, Estrela Distante

Mistura de poeta e serial killer, Hoffman é um personagem sombrio que ascende com o golpe de Estado de Pinochet, em 1973. Seu nome (grafado com apenas um “n”) evoca associações imediatas com o mundo gótico e fantástico do escritor e compositor alemão E. T. A. Hoffmann (1776-1822). A figura também parece ter algo de Salieri – obviamente, não do compositor da vida real, professor de Beethoven, Schubert e Liszt, mas de sua encarnação na peça de teatro Mozart e Salieri (1830), de Púchkin. Não que Hoffman tenha um Mozart para invejar. Porém, assim como o personagem puchkiniano, ele também emblematiza a questão da compatibilidade (ou incompatibilidade) entre atividade artística e crime. E, ao lidar com o dilema de como tratar quem cometeu crimes em uma ditadura depois que o regime que os amparava se foi, e dos limites e legitimidade da vingança, o texto também parece ecoar a peça A morte e a donzela (1990, adaptada para as telas por Roman Polanski em 1994), do também chileno Ariel Dorfman – que, por sinal, igualmente reverbera em Foi apenas um acidente, do iraniano Jafar Pahani, vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado.

Isso posto, devo confessar que, depois de uma eletrizante execução de Libertango, de Astor Piazzolla, pelos incandescentes Andrej Bielow (violino) e Anastasya Terenkova (piano, co-idealizadora do espetáculo, em colaboração com o ator), quando vi Malkovich subir ao palco da Sala São Paulo munido de um laptop e postar-se detrás detrás de um púlpito, fiquei decepcionado. Afinal, em The Infernal Comedy eu me lembrava dele movimentando-se pelo palco e interagindo com os músicos. “Ah, ele só vai ler”, pensei. E entediei-me de antemão. 

Bem, uma das maiores alegrias de um crítico é ser desmentido pela grandeza de um artista. Sim, Malkovich “só” leu. E precisava de mais? O timbre da voz dessa Scheherazade de calças foi envolvendo o público como um encantador de serpentes. Poucas vezes me lembro de tamanho silêncio e concentração na Sala São Paulo. Não é sempre que a prosa fixada em papel funciona quando enunciada em voz alta (em minha experiência pessoal, quase nunca). O tempo da literatura não coincide necessariamente com o tempo da arte dramática. Mas ali deu tudo certo. Ritmo, fluência e uma elegância mozartiana na entonação: embora narrasse acontecimentos dramáticos e pavorosos de uma realidade não tão distante no tempo e no espaço, Malkovich revelou-se um inimigo do exagero, jamais recorrendo a gritos, arroubos ou derramamentos. Escusado dizer que tamanha sobriedade apenas aumentou o impacto dramático do texto. E a clareza da dicção do ator, auxiliada por uma microfonação certeira, tornava dispensável aos falantes do inglês o recurso às legenda projetadas acima do palco.

Extremamente bem pensado em conexão com a fala, o programa musical formou uma tapeçaria de afetos em contraponto com as palavras de Malkovich. Embora a ação seja ambientada no Chile, não consegui identificar autores compatriotas de Bolaño: variado, o repertório trouxe, entre outras coisas, muito Piazzolla, um russo de ecos piazzolianos (Leonid Desyatnikov), minimalistas (Max Richter e Sergey Akhunov), barrocos (Vivaldi e Johann Paul von Westhoff)ce, inescapavelmente, música de cinema: a trilha de Alberto Iglesias para Guerrilha sem face (a estreia de Malkovich como diretor, em 2002), a de Giovanni Sollima para O belo Antônio (refilmagem, em 2005, do clássico dirigido por Marco Bolognini em 1960), e o irresistível (e muito estrategicamente colocado) tango que Schnittke compôs para Agonia (1981), de Elem Klímov. Em sua exímia execução, os três instrumentistas pareciam fazer música de câmara não apenas entre si, mas também com Malkovich. Desprovido de estrelismo, em determinado momento o ator fez-se de contrarregra e empurrou o piano preparado que seria utilizado por Terenkova. 

Concerto com narrador? Peça de teatro (ou leitura dramática) com trilha sonora ao vivo? Saí da Sala São Paulo sem saber definir direito aquilo a que tinha acabado de assistir – e dando-me conta da absoluta irrelevância desse tipo de definição. Sei que foi um espetáculo forte e consistente. A temporada da TUCCA promete.


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O ator John Malkovich no espetáculo 'The Infamous Ramírez Hoffman' [Divulgação/Balázs Mohai]
O ator John Malkovich no espetáculo 'The Infamous Ramírez Hoffman' [Divulgação/Balázs Mohai]

 

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