Classical music: for English speakers only

por Leonardo Martinelli 28/04/2009

Em meio ao verdadeiro deserto que é a indústria fonográfica brasileira, a “novidade” surge como um verdadeiro oásis: a Sony Classical lança no Brasil o álbum “A State of Wonder” (numa tradução livre, algo como “Em estado de graça”), no qual se reúnem as lendárias gravações que o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) realizou das “Variações Goldberg”, de Johann Sebastian Bach.

Trata-se de um álbum único, pois além das gravações que Gould fez da obra em 1955 (esta um marco na história do disco clássico) e em 1981, há ainda um terceiro CD com uma entrevista com Gould e mais doze minutos de takes que não foram utilizados na gravação de 1955. Tudo isso fabricado na Zona Franca de Manaus e, por isso, acessível. [Clique aqui para ver detalhes.] Quero dizer, ao menos o preço é acessível, pois essa produção made in Brazil volta a incorrer num velho pecado, isso é, simplesmente republicar o material fornecido pela matriz estrangeira, sem qualquer adaptação para o mercado nacional.

A discussão sobre o termo “música erudita” (que praticamente só existe no Brasil) é velha, mas casos como esses não nos ajudam a desfazer a falsa imagem de que a música clássica é um produto elitizado.

Por um lado, nas salas de concertos, músicos e produtores brasileiros há anos têm se empenhado em ampliar a difusão da música de concerto elaborando novas formas de apresentação, imprimindo notas de programa para explicar o repertório e investindo quantias consideráveis em legendas em tempo real de ópera e oratórios. Pelo outro, os executivos das grandes gravadoras atuantes in terra brasilis – isto é, Universal Music (dona da Deutsche Grammophon), EMI e Sony – ainda não acordaram para a necessidade da tradução dos libretos que encartam em seus produtos (quase sempre em inglês), ou mesmo nas legendas em português de DVDs de ópera impressos no Brasil (temos que, no máximo, nos contentar com legendas em espanhol).

Colocando no papel, os custos que essa adaptação traria seriam ínfimos frente ao total investido, e potencialmente haveria uma ampliação do mercado consumidor. Em termos culturais (que, compreensivelmente, não constam na agenda de uma multinacional) o ganho seria incalculável ao oferecer ao público uma informação clara e direta, incluso aí um extenso léxico musical em português, não raro substituído por estrangeirismos desnecessários.

Dá para rimar música, educação e negócios? Sim! Mas, para isso, temos de prosear em bom português. Understood?